A depressão e o amor segundo Kaurismaki

13 de fevereiro 2024 - 16:27

O cenário de Folhas de Outono é o da depressão, da melancolia e da tristeza dos indivíduos nas sociedades hiper-capitalistas e super-industrializadas do trabalho precário e da vida solitária de homens e mulheres avulsos e sem família. Por Léa Maria Aarão Reis.

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Imagem de Folhas Caídas.
Imagem de Folhas Caídas.

O ativista político finlandês Aki Kaurismaki é um dos mais brilhantes mestres da sua geração cinematográfica. Aos 66 anos de idade, o cineasta é autor de vinte filmes austeros e enxutos que chegam de Helsínquia. Aquele que está em cartaz agora, fazendo justo sucesso no streaming e nas bilheteiras dos cinemas é Folhas de Outono (Kuolleet Lehdet), uma produção recente, Prémio do Júri do Festival de Cannes de 2023, e surpreendente primeiro lugar entre as melhores produções do ano passado da relação anual da revista conservadora norte-americana Time.

O filme é candidato da Finlândia ao Óscar de Melhor Filme Internacional e o vencedor será anunciado durante a festa do próximo dia 10 de março.

O cenário de Folhas de Outono é o da depressão, da melancolia e da tristeza dos indivíduos nas sociedades hiper-capitalistas e super-industrializadas; cenário do alcoolismo, um problema de saúde coletivo e que se perpetua nas populações de classe média; do trabalho precário e da vida solitária de homens e mulheres avulsos e sem família que deambulam pelas ruas das cidades, praças e parques, pelos cafés e pelas madrugadas dos bares com sonolentos karaokes.

Mas Kaurismaki trata do assunto com ironia, com um inesperado humor de fina comédia, usa várias pontas de cinismo e uma aguda delicadeza quando introduz nesse cocktail insólito, com habilidade e arte, a erupção de um amor inesperado entre duas pessoas solitárias, uma afeição límpida e honesta e, em especial, do reconhecimento no outro do seu próprio jeito de ser, de agir e de pensar.

Fallen Leaves, título do filme para o mercado internacional, é um fio de história conduzida por dois excelentes atores atuando quase monossilábicos, Jussi Vatanen e Alma Pöysti, que vão fundo nos malabarismos da expressão dramática. Passam para o espetador a sensibilidade à flor da pele de Holappa e Ansa, personagens criados no argumento do cineasta e recém-chegados a uma galeria de tipos introvertidos de outros filmes do realizador.

O plot é singelo e conduzido pelo som de trilha musical romântica e nostálgica, com Schubert de contraponto indo e vindo, e com frequentes interferências de um noticiário radiofónico sombrio descrevendo em detalhes a guerra na Ucrânia. Aliás, um conflito seguido com particular interesse e motivo de temor da população finlandesa motivado pela entrada do país no grupo da Nato, o ano passado, na mesma época em que o filme estava sendo rodado.

Em Flores de Outono – ou Flores Caídas, como o título do filme foi traduzido literalmente em Portugal –, uma mulher e um homem são operários num mercado de trabalho precário. Ela, eventualmente é empregada de bar ou operária em construção civil (trabalho físico pesado) ou lava louças em restaurantes ou é contratada para recolher produtos que passam de validade das prateleiras dos supermercados. Nessa última ocupação Ansa entra na narrativa e já oferece a medida do desolado cenário geral, ao ser despedida (sem qualquer garantia de legislação laboral) porque está a levar para casa, dentro da bolsa, um pequeno pão com prazo de venda vencido que deveria ter sido atirado no lixo por ela.

O homem, Holappa, alcoólico inofensivo e silencioso, também faz parte de um exército de trabalhadores precarizados que à custa de uma pequena garrafa com álcool sempre oculta no uniforme de trabalho consegue cumprir as duras tarefas dos operários braçais. Os patrões são sempre boçais, como com frequência ocorre no cinema de Kaurismaki.

Uma amostra do humor finlandês, no diálogo de Holappa com um amigo que pergunta: “Por que estás deprimido?”, “Porque bebo demais”. E o amigo retorque: “E bebes porquê?”, “Porque estou deprimido”, responde Hollapa, fechando o que chama de “raciocino circular.

Nas paredes dos ambientes, cinemas, bares, há sempre um cartaz emoldurado chamando a atenção para preciosas obras primas da arte do cinema: Rocco e seus irmãos, Band à Part, de Godard, o Robert Bresson de Diário de um Pároco de Aldeia. É um manifesto e declarações de Kaurismaki apontando os seus ícones e a sua ideologia política socialista, iluminando, com o cinema, o mundo dos oprimidos, dos solitários, dos explorados e dos exploradores. Como fez Chaplin, o ícone do cineasta de Helsínquia.

Em paralelo à exibição de Folhas de Outono nas telas, a plataforma Mubi está com uma série de obras de Kaurismaki com início uma Trilogia dos Perdedores, com retratos de personagens oprimidos que trabalham sob as ordens de chefes gananciosos e banqueiros obstinados. Os filmes desta trilogia são Nuvens Passageiras, de 1996, Homem Sem Passado, de 2002 e Luzes na Escuridão, de 2006. Recomendamos vivamente.

Lembramos que as cores (são importantes, poéticas) e o humor do cineasta dão sentido a horizontes que de outro modo seriam definitivamente sombrios. É o que ele inclusive diz na última sequência deste Folhas de Outono, que talvez seja o seu último trabalho, conforme especulam no seu país. Uma imagem de reconstrução, de resistência e de amor à arte do cinema que reforça o que Kausmaki costuma repetir em entrevistas: As pessoas felizes e a classe média deixo-as para as telenovelas”.


Léa Maria Aarão Reis é jornalista.

Texto publicado originalmente no Fórum 21. Editado pelo Esquerda.net para português de Portugal.