David Harvey: “O que a União Europeia está a fazer é completamente incompreensível”

15 de junho 2015 - 1:00

O geógrafo marxista afirma que a União Europeia se vai arrepender caso empurre o Syriza para o fracasso. “A troika não pensa num perdão da dívida para não abrir um precedente para outros endividados europeus, como Espanha, Portugal, Itália e Irlanda”.

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O geógrafo britânico David Harvey tem dezenas de livros publicados e um percurso académico reconhecido pela sua inovação no estudo das dinâmicas globais do capitalismo, mas não consegue perceber as atitudes tomadas pelos líderes da União Europeia. “O que eles estão a fazer é realmente incompreensível, completamente irracional”. Aponta Harvey em referência às tensas negociações sobre a dívida grega entre o governo de Atenas e os credores internacionais.

De um lado, o partido de esquerda Syriza, eleito pelo seu forte discurso antiausteridade, que se recusa a aceitar a receita neoliberal de Bruxelas; do outro, os líderes europeus, que se recusam a aceitar a renegociar os termos do pagamento e, muito menos, aceitar qualquer perdão da dívida.

“A troika não pensa num perdão da dívida – que, como ressalva o geógrafo, que ela própria reconhece como impagável – para não abrir um precedente para outros endividados europeus, como Espanha, Portugal, Itália e Irlanda”.  

O que mais o chama à atenção é o perigo dessa negociação, que é ignorado pelos líderes europeus. “A UE vai-se arrepender caso pressione o Syriza ao ponto de o fazer falhar”, considera. Para Harvey, um fracasso da esquerda levará à ascensão do partido neonazi, Aurora Dourada, a terceira força mais votada nas últimas eleições. “Apoiar a esquerda grega vai no melhor dos interesses para todos os políticos”.

Ao longo deste ano, temos visto alguns feitos interessantes para os movimentos de minorias em algumas partes do mundo. Foi o caso da coligação árabe-judaica nas eleições em Israel, os resultados expressivos dos escoceses no Reino Unido e dos curdos na Turquia. Além da vaia em massa contra o hino espanhol de bascos e catalães num jogo de futebol. Como é que se explica este bom momento da agenda autonómica?

David Harvey: Sem dúvidas, há um clamor por políticas mais descentralizadas, políticas que sejam mais próximas do povo. O que vemos em muitos países, como por exemplo nos Estados Unidos, é um ressentimento contra o governo federal e o desejo de ter os estados com mais autonomia em relação a esse governo central. Porque as pessoas sentem que o que elas dizem importa a um nível local. E há um desejo por isso, que certas vezes é expressado na forma de alianças regionais: Catalunha, Escócia, norte da Itália e Baviera são exemplos de frações que buscam mais autonomia. E muitas vezes isso trata-se de nacionalismo local.

De que forma isso se relaciona, na Europa, com o contexto pós-crise económica imposto pela troika e as suas políticas de austeridade?

Há uma ligação desse fenómeno com o discurso antiausteridade que considero muito importante. As políticas anti-troika foram injetadas dentro de muitos desses movimentos locais. Querem criar um espaço autónomo, em que não sejam governados por essas políticas austeras, que são sempre definidas por uma autoridade central.

Essa insurreição de políticas antiausteridade, e a sua expressão em níveis locais, tem-se transformado num fenómeno importante, em particular no contexto europeu. Então, é muito relevante vermos pessoas progressistas eleitas para as câmaras de Barcelona e Madrid. São movimentos de massa que não se importavam muito com a política anteriormente e, agora, são influenciados e influenciam a política de formas muito cruciais. E veremos muito mais coisas desse tipo, em que movimentos por autonomia local passam a conectar-se com o discurso antiausteridade. Vemos elementos disso em Portugal, Irlanda e Itália, por exemplo. E esse, é claro, é o caso da Grécia, em que o país basicamente diz: ‘basta, já tivemos o suficiente dessa austeridade por sete anos, queremos uma política antiausteridade e estamos a mobilizar-nos para isso’.

Junho será um mês crucial para definir o futuro da negociação sobre a dívida grega entre o governo de esquerda do Syriza e os credores internacionais. Qual a melhor saída para o primeiro-ministro Alexis Tsipras?

Acho que ele está numa posição difícil ao enfrentar a seguinte escolha: dar um calote nas suas promessas ao povo que os elegeu; ou então dar um calote na dívida. E, até aqui, eles tentaram deixar claro à União Europeia que não vão dar esse calote à população. É claro que a UE passou a empreender uma guerra contra eles; e o Syriza modificou as suas propostas um pouco aqui e outro tanto ali, mas também manteve sua posição.

Qual é o desfecho que prevê para este impasse?

Parece-me muito claro que o Syriza vai sair da UE. Eles vão ser empurrados para fora do bloco, porque não vão provocar um default nas suas promessas para a população. Mas o perigo é que, se o Syriza falhar — e voltar a ter apenas os 3% das preferências da população grega como acontecia em eleições muitos anos atrás —, o único outro partido capaz de seguir à frente com os interesses gregos é o grupo fascista de extrema-direita, a Aurora Dourada. Eles [os líderes da União Europeia] vão se arrepender muito se pressionarem o Syriza ao ponto de fazê-lo falhar, vendo, então, o crescimento de um governo fascista na Grécia. Mas, como assistimos em muitas partes da Europa, com a ascensão de correntes fascistas na Hungria, França, Bélgica e Holanda, essa tendência de ultradireita surge como uma alternativa política muito forte no momento. Dessa forma, vai ser no melhor dos interesses de todos os políticos dar apoio à esquerda.

A União Europeia não foi capaz de perceber essa ameaça? Por que não adotar outra estratégia de negociação com Atenas?

Eu realmente não sei o que eles acharam. O que eles estão a fazer é realmente incompreensível. Digo, todos os documentos que lemos admitem diretamente que absolutamente não há nenhuma maneira pela qual a Grécia pode pagar a dívida. Não tem como. E eles mesmos [os credores] dizem isso, em relatórios do FMI, da troika. Isso é completamente irracional. Se não têm como pagar a dívida, a única coisa a fazer é perdoar a dívida e seguir em frente, certamente com algumas penalidades envolvidas, mas é o que deveria ser feito. E a UE está a recusar a fazer isso não por causa da Grécia, mas por causa de Portugal, Espanha, Itália, Irlanda. É um ato político que estão a fazer.

Como é que avalia a reaproximação diplomática entre Cuba e os Estados Unidos? Que efeitos terá essa abertura na sociedade cubana?

Vejo essa questão a partir de duas perspetivas. Na primeira, penso o quão irracional foi para os Estados Unidos isolarem Cuba desta maneira. Se realmente quisessem subverter Cuba, teriam aberto as fronteiras e feito o que estão a fazer agora anos e anos atrás. Porque isso provavelmente iria fazer com que as forças do mercado trabalhassem dentro do país e o poder do dinheiro iria solapar o socialismo.

A partir da outra perspetiva, creio que a reaproximação entre Cuba e os EUA, há muito adiada, é uma ameaça a alguns aspetos que considero grandes realizações da era Castro. Particularmente, nos serviços de saúde, na alfabetização e na educação, além de muitas outras coisas que vieram da Revolução Cubana e são extremamente positivas à população em geral.

 Mas, ao mesmo tempo, há esse grande ponto de interrogação que é medir o quanto do padrão de vida dos cubanos foi afetado pelas políticas de bloqueio norte-americano. A minha esperança é que a abertura das fronteiras e do comércio permitirá um aumento do padrão de vida da população cubana e o alívio do descontentamento que ainda existe em parcelas da população, como, por exemplo, sobre a falta de investimento em habitação e infraestruturas.

Esta vai ser a tarefa do regime socialista em Cuba, que agora passará a estar integrado na economia global capitalista. E, todos sabem, a partir de outros exemplos, que é muito difícil ser socialista no meio da atividade capitalista globalizada.

E por que é que esse passo só foi dado agora?

A população cubana de Flórida, que, por muito tempo, foi fortemente contra qualquer reaproximação com o regime de Castro, envelheceu. E a nova geração, os seus filhos e filhas, não dão toda essa importância à questão: eles são cidadãos norte-americanos que não conseguem ver por que não reconciliar-se e não vão causar agitação política por causa desse movimento. O ambiente interno nos EUA hoje é ímpar; cerca de vinte anos atrás, isso seria recebido como um ultraje. Essa queda de preocupação com a questão cubana dentro dos EUA é provavelmente o principal fator que permitiu a este governo dar o salto. Mas, é claro, houve também uma ajuda considerável e muito significativa do papa Francisco, que deu muita legitimidade ao processo.

Alguns setores de esquerda têm elogiado a atuação e os discursos de denúncia da pobreza do papa Francisco. Como vê a atuação do atual pontífice?

Obviamente tem uma inclinação progressista. Sobretudo ao reviver alguns aspetos da Teologia da Libertação, em cuja destruição o papa anterior [Bento XVI] teve uma atuação muito forte.

Acho também que a Teologia da Libertação teve um papel muito importante na América Latina nos anos sessenta e setenta. E a destruição dessa corrente levou, de certa forma, ao enfraquecimento da Igreja Católica na região. Porque a opção dos pobres não estava mais lá. E acho que o papa Francisco está muito bem informado sobre isso e sabe que o poder da Igreja na América Latina depende de trazer de volta as ligações da Igreja nesse universo, no meio da invasão das religiões evangélicas, que fizeram que a população descartasse o catolicismo como principal fonte de fé. Há na América Latina uma batalha pelas almas da população. E o papa atual está muito mais atualizado sobre o que é preciso fazer.

O presidente Barack Obama encaminha-se para a reta final do seu mandato à frente da Casa Branca. O presidente cumpriu com as expectativas criadas quando assumiu o cargo?

Muitas pessoas estão desapontadas com Obama, mas eu nunca tive grandes expectativas. Fiquei muito feliz de, pela primeira vez, ter sido eleito um presidente negro. Mas sempre o encarei como um político de centro-direita — nem mesmo de centro-esquerda. E, por isso, as minhas expectativas não eram altas. Não houve muitas mudanças dramáticas. Mas facto é que Obama teve de enfrentar uma oposição muito, muito virulenta e irracional. Digo, os republicanos odeiam-no. As pessoas odeiam-no. Isso é assombroso. Qualquer coisa que ele propõe é imediatamente rejeitada pelos republicanos. Entretanto, o que realmente me surpreende é que eu acreditava que ele seria muito mais forte na questão dos direitos civis.

Fiquei surpreendido com o seu fracasso em proteger direitos individuais e minorias, como questões de violência policial e políticas de controlo ao acesso de armas de fogo. Além disso, ainda não fechou a prisão de Guantánamo, como havia prometido na campanha. E em política externa, a situação é bem complicada. Mas no balanço final, é muito mais preferível do que alguém da direita republicana.

E sobre o Brasil? O governo da presidente Dilma Rousseff, no seu segundo mandato, tem enfrentado críticas da esquerda ao adotar políticas de austeridade como, por exemplo, o corte nos gastos públicos e a defesa de uma lei que terceiriza as relações laborais. Como o é que analisa a relação entre o Partido dos Trabalhadores e as reivindicações históricas da esquerda?

Acredito que o PT, dadas as suas origens, obviamente defendeu políticas das classes trabalhadoras. Mas acho que ter chegado ao poder os fez fazer concessões, mais e mais concessões. Mas é o que acontece com boa parte dos partidos políticos de esquerda no mundo: cede ao grande capital, cede um pouco à direita. Mas, em todo o caso, a economia certamente se deteriorou. Em parte, por conta da queda do crescimento chinês, que desacelera a procura por materiais e certos produtos brasileiros. Então o que temos é uma situação em que o PT, ao que me parece, parou de ser um reflexo exato das necessidades da sua base política. Então, quando a procura por austeridade chega, não há outra opção, se não aceitá-la. Mas aí sua base política é corroída. E o que vemos é uma reversão em direção a governos de tendência à direita, de certa forma.

Qual a melhor forma de lidar com o ativismo político das bases populares?

Acho que há muito o que aprender sobre como canalizar isso. Mas aqui no Brasil parece-me que há uma situação única, com movimentos sociais muito fortes, ao longo dos anos noventa, como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Mas acho que toda a relação entre poder e aparato político e os movimentos sociais é uma questão crítica. E eu não acho que o PT conseguiu fazer isso da melhor maneira possível. Estariam numa situação muito melhor se tivessem mantido fortes os laços com, por exemplo, o MST e os movimentos pela habitação, de direito à cidade. Essa base popular é politicamente muito importante.

Por outro lado, o que vemos com o Podemos, na Espanha, é um movimento que está localizado fora dos partidos políticos tradicionais e que, a partir de certo momento, passa a influenciar a política de forma particular, e então, passa a transformar-se num partido político.

Então, o que presenciamos agora são movimentos extraparlamentares entrando na esfera parlamentar. Quais os efeitos? Não sei ao certo. Mas é um momento muito interessante em que novas maneiras de fazer política estão a ser empurradas para dentro dos velhos sistemas de representação política e democracia parlamentar — e com resultados potencialmente explosivos. Mas quem será explodido e aonde, aí já não sei...

Entrevista conduzida por Opera Mundi.