Da Internet às ruas e às contas bancárias

10 de novembro 2011 - 18:48

A imoralidade dos executivos e do mundo financeiro parece ter encontrado um contrapoder com que não contava: os seus próprios clientes. Por Manuel Castells, La Vanguardia

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Manifestação em Oakland: "Nós somos despedidos, eles ficam ricos". Foto de tofuart

O capital financeiro e os seus altos executivos enfrentam um problema sério: as pessoas não gostam deles. Mais que isso, muitos odeiam-nos. E a raiva atinge também os políticos, vistos como marionetes dos bancos e que os protegem com o dinheiro dos contribuintes, sem que estes retribuam o favor quando as coisas lhes correm bem ao país mal. Porque, argumentam, o dinheiro pertence aos seus accionistas. Ninguém acredita nisso, porque nos conselhos de accionistas está tudo bem amarrado. Com uma participação de controlo minoritária, uns poucos accionistas mandam e desmandam. Somem-se a isso os investimentos cruzados entre bancos, e o sistema fecha-se em si mesmo, com escassa utilidade social e máxima captação de fundos em benefício dos banqueiros, com ganhos exorbitantes para eles mesmos, ainda que levem à falência as suas entidades. E nada de pagar mais impostos. Para isso servem nos paraísos fiscais.

É isto que explica que o movimento Ocupar Wall Street, iniciado no coração do capitalismo financeiro, tenha conseguido tanto apoio popular nos Estados Unidos e no mundo. A ideia foi lançada na Internet em Julho de 2011 pela revista Adbuster, uma publicação de crítica à publicidade, editada em Vancouver. A proposta de ocupar Wall Street em 17 de Setembro, dia da Constituição, para protestar contra o controlo da política pelo dinheiro, foi incorporada por diversos grupos em todo o país, mais ou menos organizada na rede e finalmente levada a cabo por cerca de mil manifestantes que acabaram por acampar no Zuccotti Park, nas imediações do distrito financeiro novaiorquino.

O silêncio dos média e a ausência de apoio organizado pareceu confinar o movimento ao ostracismo. Suas reivindicações eram variadas, mas coincidiam na crítica a um sistema financeiro que provocou a crise e que continua a exercer poder de vida e morte sobre a economia e a política. Mas onde não chegam os meios de comunicação tradicionais, chega a Internet, e a iniciativa ganhou apoio dos cidadãos cansados de tudo — mas especialmente dos bancos. E quando a polícia intensificou a repressão, os sindicatos norte-americanos, que estão a sofrer uma campanha de extermínio por parte dos governadores republicanos e das grandes empresas, decidiram unir-se ao movimento e ajudar as manifestações. Os hackers também entraram em acção. “Anonymous” publicou os nomes e as senhas pessoais dos polícias responsáveis por ferir os manifestantes.

O presidente da câmara de Nova York, Michael Bloomberg ordenou que os manifestantes desmontassem o acampamento por “razões de higiene” (soa familiar?), mas voltou atrás após a massiva mobilização para impedir a desocupação. Em 1º de Outubro, os manifestantes marcharam até a ponte do Brooklyn, e a polícia deixou-os passar. Era uma armadilha: finalmente, tinham pretexto legal para deter centenas de manifestantes. Mas a brutalidade da polícia oferece aos meios de comunicação uma oportunidade espectacular para filmar tudo — e, pela pela primeira vez, a imprensa, mesmo criticando, cobre amplamente o movimento.

Rompe-se a barreira do silêncio. O movimento, então, estendeu-se a todo o país. Centenas de cidades, e numerosos bairros e ruas, têm a sua própria ocupação, tanto no espaço urbano quanto numa rede que relata a acção quotidiana e se liga a outras redes que vão tecendo uma geografia virtual e espacial da mudança de mentalidade num país capitalista por excelência: 82% das pessoas no Estado de Nova York e 46% em todo o país apoiam as críticas do movimento Wall Street, frente a 34% que se opõe. O movimento autoproclama-se representante de 99% dos cidadãos, em oposição a 1% que detém 20% da riqueza. E começa a ter impacto na opinião política: enquanto 68% da população pede que os ricos paguem mais impostos, 69% pensa que os republicanos favorecem os ricos.

Como o presidente dos EUA, Barack Obama, também aparece como prisioneiro de Wall Street, o efeito eleitoral directo é incerto, a menos que Obama faça uma mudança em relação a isso. Conforme o movimento aumenta em popularidade e em número de ocupações, acentua-se a repressão policial, centenas de pessoas são detidas em todo o país, as acusações policiais endurecem.

Acontecem feitos inéditos: em 22 de Outubro, devido a uma acção policial em Nova York, um robusto sargento dos marines, ex-combatente no Afeganistão, repreendeu os polícias e acusou-os de desonrar os ideais norte-americanos ao atacar os cidadãos. A polícia não se atreve com ele. O vídeo do incidente foi visto por três milhões de pessoas. Então surge um movimento, Ocupar os Marines, feito pelos próprios fuzileiros navais, que se dispõe a dar apoio tácito e liderança aos manifestantes. Em 25 de Outubro, a polícia de Oakland, na Califórnia, ataca durante a noite o acampamento em frente à câmara municipal. Uma granada de gás lacrimogéneo fratura o crânio do marine Scott Olsen, participante da ocupação. A presidente da câmara pede desculpas.

Os protestos intensificam-se em todos os EUA. Em Nova York, uma tempestade de neve cobre a região. Alguns dias antes, o presidente da câmara tinha cortado todo o aquecimento no parque Zuccotti por “razões de segurança”. Os acampados aguentam o frio intenso com o apoio dos vizinhos do bairro e de redes de solidariedade.

Após sete semanas, as ocupações proliferam-se e reforçam-se. Os bancos continuam na mira dos manifestantes. Uma jovem de 22 anos em Washington, Molly Katchpole, reage contra a imposição do Bank of America de cobrar 5 dólares aos seus clientes por cada utilização do cartão de débito — medida que os outros bancos iriam imitar. Molly publicou o seu protesto na Internet e nalgumas horas 300 mil pessoas juntam-se ao protesto. Os bancos cancelaram a medida, com ampla repercussão nos média.

O Move.Org, com 5 milhões de afiliados, lança uma campanha para que as pessoas retirem o seu dinheiro dos grandes bancos e o depositem em cooperativas de crédito e bancos comunitários. Da Internet à rua e da rua à conta bancária. Os executivos, que há algumas semanas brindavam com champanhe, provocando os manifestantes que passavam em frente às suas janelas em Wall Street, começam a esconder a sua identidade em público.

Tradução: Daniela Frabasile para Outras Palavras