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Da Compaixão - Chove e Sol em Paris: “Um texto revelador dos nossos dias”

A peça centra-se em duas mães coragem. Em Paris, Fátima, mãe do autor de um atentado suicida, visita Sophie, a mãe de uma das suas vítimas. O Esquerda.net falou com São José Lapa, Rita Ribeiro, Paula Guedes e Inês Lapa Lopes sobre este espetáculo com estreia marcada para 6 de maio. Por Mariana Carneiro.

Em novembro de 2015, atentados múltiplos, posteriormente reivindicados pelo Daesh (auto proclamado Estado Islâmico), lançaram o caos no coração de Paris. Foi na sala de espetáculos Bataclan, onde decorria um concerto da banda de heavy metal californiana Eagles of Death Metal, que se registou o maior número de vítimas mortais e de feridos. É na sequência desses atentados que Abel Neves escreve o texto agora levado à cena por São José Lapa.

Rita Ribeiro e Paula Guedes sobem ao palco para interpretar dois papéis desafiantes: o de Sophie e o de Fátima, respetivamente. Ambas perderam os seus filhos. Em Paris, Fátima visita Sophie. Move-a uma necessidade premente: pedir perdão. O seu filho foi o autor de um atentado suicida que resultou na morte de dezenas de pessoas, entre as quais a filha de Sophie.

“A procura da compreensão de um mundo violento e confuso”, em que duas mães “procuram força para se perdoar para lá da morte dos filhos”, transporta-nos para um turbilhão de emoções, entre a culpa e a dor, a angústia, a revolta e o ódio, a tristeza e a compaixão. A humanidade.

Paula Guedes (Fátima) e Rita Ribeiro (Sophie). Foto de Vitorino Coragem.

Para São José Lapa, este é “um texto revelador dos nossos dias”. Em tempos em que o terrorismo continua a assolar o mundo, o discurso do “nós e os outros” ganha cada vez mais expressão.

“Instrumentalizando a religião muçulmana, os que barbaramente realizam ataques bombistas na UE são europeus ou nascidos na UE convertidos ao islamismo. Pessoas altamente fragilizadas psicologicamente, pessoas humilhadas pelo racismo, pessoas desterritorializadas ou loucos, perversos e mercenários? Uma mescla de todos eles”, afirma a encenadora na apresentação da peça.

Da Compaixão - "Chove e Sol em Paris" estreia dia 6 de maio na reabertura de portas do Teatro Taborda, acolhimento do Teatro da Garagem. A peça ficará em cena até 16 de maio, de quinta a domingo (quinta e sexta às 19h e sábado e domingo às 11h – mais informações através dos contactos 218 854 190 e 924 213 570 ou [email protected]).

“É fascinante a São José exigir de mim algo que nunca fiz”

Em entrevista ao Esquerda.net, Paula Guedes e Rita Ribeiro afirmaram que não têm dúvidas de que estão perante um “belíssimo texto” e que o desafio que abraçaram é “fascinante”.

“É um personagem que nunca fiz na vida. É algo novo para mim: a postura de subserviência, a submissão, a humildade. O ter de pedir perdão por outra pessoa, que é o seu próprio filho. Ela, na sua essência, sente-se completamente culpada”, explicou Paula Guedes.

Paula Guedes (Fátima) e Rita Ribeiro (Sophie). Foto de Vitorino Coragem.

As próprias características físicas da atriz, que é bastante alta, exigiram alguma adaptação: “A Fátima é muito minuciosa, muito calma, com passadas pequenas”.

“É fascinante a São José exigir de mim algo que nunca fiz”, frisou Paula Guedes.

Por outro lado, esta é a primeira vez que contracena com Rita Ribeiro. “Interessa-me muitíssimo a São José ter feito esta escolha, porque há algo na classe artística que me irrita muito. E que já irritava o meu pai, também ator. Falo daquela coisa de fazerem a distinção entre o teatro comercial e o teatro dito erudito, intelectual. Acho isso péssimo. Todos os atores trabalham, têm de ensaiar, têm de encarnar os seus papéis… Acho muito interessante esta junção entre mim e a Rita nesta aposta da São José, que é, efetivamente, um belíssimo texto”, apontou a atriz.

Paula Guedes (Fátima) a dançar ao som da poesia de Apollinaire. Foto de Vitorino Coragem.

Esta peça é “uma plataforma para nos sentirmos mais humanos”

Para Rita Ribeiro, o teatro, que já faz há 46 anos, “tem sido altamente terapêutico” e fundamental para se “conhecer como pessoa”. “E para estar em paz comigo própria”, acrescentou.

“Nem é verdade a ligação que estabelecem entre mim e o teatro de revista, o teatro comercial. Fiz muita revista, fiz muito teatro comercial, mas, desde há dez anos, faço peças muito densas”, esclareceu.

E todos os espetáculos “estão sempre a tocar no mesmo ponto”: a relação entre as mães e os filhos, os filhos e as mães. “Nos últimos três espetáculos, incluindo este, sou uma mãe de qualquer filho que tem sempre uma situação bastante grave e perigosa. Fiz a ‘Gisberta’, em que estive cinco anos com o espetáculo em carteira, e, depois, a ‘Olívia e Eugénio, uma Lição de Amor’, com o espetáculo em tournée. E agora este”, avançou a atriz.

Para Rita Ribeiro, “é preciso muito discernimento e muita inteligência emocional” para fazer este tipo de papéis.

Interpretar Sophie está a ser “muito útil” para a atriz, porque está a denunciar os seus “maiores medos”, que são perder as suas filhas ou perder a sua mãe, como perdeu ainda não fez um ano.

Rita Ribeiro (Sophie) e Paula Guedes (Fátima) Foto de Vitorino Coragem.

“Depois de ter suplantado isso, e posso dizer que fiz terapia para estar a fazer este espetáculo, e estou muito contente por o ter feito, já estou a respirar este espetáculo de outra maneira. E está a ser altamente desafiante, está a dar-me imenso gozo, porque é um belíssimo texto”, assinalou Rita Ribeiro.

Fazer parte desta equipa no feminino é também algo que a satisfaz bastante: “Está a dar-me um gozo imenso estar com estas duas mulheres. Há uma sintonia muito grande. Trabalhei com a São José há quase 30 anos e reencontrámo-nos neste projeto. Parece que foi ontem. A amizade é isso. Ao fim de 30 anos sentámo-nos e parecia que tínhamos estado juntas no dia anterior”.

Para a atriz, a atualidade desta peça é inegável. “Este espetáculo vem muito a propósito. Até porque o terrorismo, infelizmente, não deixou de existir”, referiu.

Sobre o que a fascina mais neste projeto, é perentória: “a essência do próprio espetáculo, que é o perdão. É a minha filosofia de vida. Só estamos em paz quando perdoamos, aos outros e a nós próprios”.

Rita Ribeiro (Sophie) e Paula Guedes (Fátima) Foto de Vitorino Coragem.

“Como é que se vive com alguma sanidade?”

Inês Lapa Lopes reiterou a atualidade do espetáculo, até porque este retrata “uma situação que aconteceu na realidade”.

“Em França, houve muito a tentativa de promover encontros entre as famílias daqueles que fizeram o ataque e as famílias das vítimas. Nas pesquisas encontrámos muitas coisas sobre isso: vídeos, depoimentos… Nunca falei com o Abel sobre esta questão, mas este texto vem muito nessa linha, que é a da coragem destas duas mulheres”, realçou.

Para Inês Lapa Lopes, uma das problemáticas que a peça levanta é de que forma estas duas mulheres enfrentarão a vida depois de tudo o que se passou. “Como é que se vive com alguma sanidade?”, questionou.

Os depoimentos que consultaram demonstram que “há muitas maneiras de estar dali para a frente”. “Há pessoas que não ultrapassam a situação e ficam bloqueadas. Outras ultrapassam mas vivem com aquela dor e com permanente medo”, relatou.

A esse respeito, veio à conversa uma citação da peça, mais propriamente da personagem Sophie: “Eu já estou morta, não se nota, mas já estou morta. Sou uma máquina biológica: tem frio, tem calor, deita fora o que não presta. Eu já morri”.

Da Compaixão - Chove e Sol em Paris Link na bio #aguncheirasteatro

Publicado por Inês Lapa Lopes em Sábado, 1 de maio de 2021

Inês Lapa Lopes é a responsável pelas gravações em vídeo que acompanham a peça, onde surgem grandes planos de fragmentos da representação. As imagens remetem-nos para o que não chegou a ser dito e as decisões que antecedem as emoções em cena. Mas a componente vídeo, a par de ser fundamental para ilustrar a tensão enorme que existe entre estas duas mulheres, tem ainda como objetivo introduzir uma contextualização, mobilizando imagens fragmentadas de atentados e das cidades.

“Usamos o vídeo por razões fortemente políticas, para ver o que é que o terrorismo tem feito ao longo do tempo”, explicou São José Lapa.

“As pessoas têm medo da utilidade da palavra”

Segundo São José Lapa, “ultimamente tem-se feito pouco teatro de texto, pouco teatro tradicional”, opta-se pela “desconstrução, o pós-dramático ou produtos híbridos, umas vezes conseguidos, mas a maior parte das vezes não”.

“Se olharmos para o que passa lá para fora, há, sempre houve e vai haver, teatro de texto”, apontou a atriz e encenadora, dando o exemplo do alemão Thomas Ostermeier.

“Só por cá, e por várias razões, algumas das quais são, quanto a mim, de índole de falta de cultura das pessoas do teatro, se põe o teatro de texto de parte. É algo que os jovens que entraram no Conservatório pretendem enterrar. Há algumas coisas que são apostas ganhas. No entanto, a grande parte são coisas para as quais já não há paciência, são um dejà vú. Já foi batido e feito na América dos anos 70. Isso é algo um pouco aflitivo”, desabafou São José Lapa.

Para a encenadora “o texto é texto. Nós entendemo-nos por palavras, por gestos, por afetos… Mas, sobretudo, pela palavra”.

Criticando aquele que considera ser o “novo riquismo visual”, que desvaloriza tudo o que vem da palavra, São José Lapa afirmou que “as pessoas têm medo da utilidade da palavra”.

“Era muito mais fácil se eu e a Inês tivéssemos feito uma rasura disto tudo e cada uma só precisava de meter na cabeça meia dúzia de coisas. Dar-lhes-ia muito menos trabalho. A elas e a mim. Mas não é esse o propósito da escrita”, continuou.

“Há uma décalage económica muito grande nos apoios"

Cinco anos após São José Lapa ter recebido o texto de Abel Neves, Da Compaixão - "Chove e Sol em Paris" estreia dia 6 de maio. Esta estreia é o resultado de um longo processo, marcado pela resiliência de São José Lapa e Inês Lapa Lopes. Apesar de ter sido considerado elegível no âmbito de uma das últimas candidaturas pré-pandemia da Direção Geral das Artes aos apoios bienais, a cooperativa Espaço das Aguncheiras, tal como as outras candidaturas nessas condições, só mais tarde vem a ter uma percentagem de apoio. Foi através do Fundo de Emergência Social Cultural e do apoio da CML que surgiu a possibilidade de levar a peça a palco.

Após uma leitura encenada a 12 de setembro de 2020, no Espaço das Aguncheiras, que constituiu uma espécie de “teste sobre uma produção em tempo de pandemia”, Da Compaixão - "Chove e Sol em Paris" marca a reabertura de portas do Teatro Taborda, com acolhimento do Teatro da Garagem.

Após a estreia, e as oito sessões agendadas, a peça vai para o Espaço das Aguncheiras e, depois, idealmente, será vendida.

Aqui surgem novos desafios, na medida em que as companhias pequenas enfrentam vários obstáculos no que concerne à divulgação do seu trabalho. Logo à partida, porque não têm condições para assegurar boas filmagens das suas peças.


À Espera do Sr. Samuel B. Nesta foto, o Come and go, com São José Lapa e Inês Lapa Lopes em cena, 2010.

“É muito injusto o processo de exposição”, realçou Inês Lapa Lopes, explicando que têm tudo gravado somente com uma câmara, o que se torna “muito pouco interessante para mostrar”.

“O público não se apercebe destas nuances”, assinalou.

Dificuldades é uma palavra que as atrizes Rita Ribeiro e Paula Guedes também conhecem bem.

Rita Ribeiro sustenta com o seu trabalho a sua produtora, alimentada pelo dinheiro que arrecada com as novelas. A sua mãe, que faleceu há menos de um ano, com 93 anos de idade, foi atriz durante 85 anos. Recebia 400 euros de reforma.

Rita tem esperança que as coisas mudem e que a sua filha já possa usufruir dessas mudanças. É tempo de os artistas deixarem de ser “uma classe muito mal apoiada”, uma “classe de sobreviventes”, defendeu. A atriz denunciou ainda a existência de lobbis que favorecem aqueles que já estão institucionalizados.

A realidade de Paula é um pouco diferente, nunca produziu nada para si, produziu para outras pessoas. Mas as dificuldades persistem. É sempre preciso “ter um plano B e um plano C quando não está a fazer teatro”. E as novelas e os filmes é que funcionam como fonte de rendimento. “Os palcos estão completamente ocupados”, lamentou.

São José Lapa criticou a “décalage económica muito grande nos apoios que são dados”. Para a atriz e encenadora, “não é justo” que vá “um bolo enorme para um lado e migalhas para os restantes”. São José falou ainda da dificuldade em competir com a capacidade económica que alguns grupos têm para promover os seus espetáculos, referindo que existem “lóbis tentaculares por vários lados”.

A encenadora propõe que, “a partir do momento em que os grupos são apoiados pelo Estado, o Teatro Nacional seja obrigado, a nível estatutário, a levar lá todos os grupos, garantindo a gravação dos espetáculos. Desta forma estará, efetivamente, a “servir a comunidade teatral”, vincou.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
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