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Curdos defendem-se com aliança com regime sírio, russos avançam

A retirada dos militares norte-americanos deixou o nordeste da Síria em convulsão. O exército turco lançou uma ofensiva contra os curdos que procuraram defender-se deixando avançar as forças do governo sírio. A Rússia ganha terreno em apoio aos seus aliados e Trump tenta mostrar que não traiu os curdos.
Combatentes curdas do YPG. Síria. Abril de 2016.
Combatentes curdas do YPG. Síria. Abril de 2016. Fonte Kurdishstruggle/Flickr.

O balanço da primeira semana de ataques turcos é sombrio. Segundo o Observatório Sírio para os Direitos Humanos, morreram 154 militares do lado das Forças Democráticas da Síria, os curdos, a que se somam 128 mortos das forças apoiadas pelos turcos e seis soldados turcos. Isto para além de 69 civis do lado sírio e de 20 civis turcos do lado oposto da fronteira e de 160 mil pessoas que fugiram de suas casas por causa da guerra.

Face à ameaça da ofensiva turca, as forças curdas, que tinham sido aliadas dos norte-americanos no combate ao Estado Islâmico, foram obrigadas a procurar a defesa do regime de Damasco. E as forças russas também avançaram no terreno, seguras que os turcos não os enfrentarão e assumindo que cumprirão o papel de forças de interposição.

Segundo a Associated Press, o apoio do governo sírio aos curdos não chegou de um momento para o outro. Os curdos da Síria anteciparam a jogada de Trump e estavam em conversações há mais de um ano com o governo Sírio e os seus aliados russos.

E tinham razões para desconfiar. No início de 2018, quando a Turquia lançou uma ofensiva sobre a região curda de Afrin, os militares norte-americanos foram acusados de nada fazer. Depois disso, em novembro de 2018, terá acontecido um dos primeiros encontros de alto nível entre governo russo e curdos sírios. E, imediatamente a seguir, com quadros militares do regime sírio.

O pouco fiável exército-tampão russo

Os russos estão longe de ser aliados seguros para os curdos, não só pelo seu apoio ao regime sírio mas também pelas suas simpatias para com Erdogan. Apesar da sua posição oficial permanecer a da defesa da integralidade da Síria, ou seja o controlo do governo de Assad em todo o território, também têm feito eco das preocupações turcas relativamente a uma suposta ameaça curda.

Agora, assinalaram o seu descontentamento com a ofensiva turca mas traçaram como linha vermelha o confronto entre turcos e governo sírio. Alexander Lavrentyev, enviado russo para a Síria, alertou que isso “seria simplesmente inaceitável”.

Com as tropas turcas a avançar por um lado contra a resistência curda e as tropas do governo sírio a avançar por outro com aceitação curda, as tropas russas propõem-se operar como um tampão entre estas partes. Os curdos sírios terão trocado o auto-governo pela sobrevivência.

E é isso que estará a acontecer na cidade de Manbij. Marcada para ser invadida pelos turcos, o exército do governo sírio controla-a agora, ao mesmo tempo que conta com presença militar russa, documentada com imagens de militares deste país em bases anteriormente ocupadas pelos EUA. Oleg Blokhin, jornalista russo, filmou a antiga base norte-americana de al-Saadiya, perto de Manbij, enquanto comentava “eles estavam cá ontem, nós estamos cá hoje”.

Trump, esvaziamento de tropas, enchimento de palavras

Depois de ter sido criticado internamente, inclusive por muitos dos seus aliados, e externamente, Trump dedicou-se a tentar limpar a imagem do traidor que os curdos lhe colaram. Ameaçou a economia turca de “destruição” se esta fosse longe demais na ofensiva e, mais tarde, anunciou sanções económicas. Fracas demais, dizem vários analistas económicos citados pela APN. A economia turca sairá incólume, já que foram apenas visados os ministérios da defesa e da energia e particularmente os ministros da defesa, da energia e da segurança interna, que viram bloqueadas transações de bens que possam ter no sistema financeiro dos EUA. Para além disto, há um aumento de tarifas das exportações de aço, que regressam à taxa que tinham em maio e são suspensas as conversas para um novo acordo comercial.

O apelo de Trump ao fim da ofensiva curda também caiu em saco roto. Erdogan respondeu taxativamente “nunca poderíamos declarar um cessar-fogo” e, num artigo publicado no Wall Street Journal, insistiu uma vez mais nas teses da defesa contra “o terrorismo” e da necessidade de criar uma “zona de segurança” à entrada de refugiados no país e voltando a sugerir que milhões poderiam chegar à Europa porque o país seria incapaz de gerir a sua estadia no país. Não parece por isso provável que o mais recente anúncio do envio do vice-presidente Mike Pence venha a ter outro resultado que não o simbolismo de mais um apelo a um cessar-fogo que a Turquia rejeita enquanto não alcançar os objetivos que estabeleceu ou até que venha a ser parada por uma nova fronteira estabelecida pelo avanço russo-sírio.

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