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Trump abre portas para intervenção turca contra curdos na Síria

As forças militares dos EUA vão retirar do nordeste da Síria e abandonar as forças curdas que foram suas aliadas no combate ao Estado Islâmico a uma ofensiva turca. União Europeia manifestou-se contra a invasão e ONU prepara plano de contingência dizendo-se “preparada para o pior”.
Combatentes curdas do YPG. Síria. Março de 2018.
Combatentes curdas do YPG. Síria. Março de 2018. Fonte: Kurdishstruggle. Flickr.

São relativamente poucos militares, não combatem e estão presentes apenas numa área pequena entre as cidades de Tel Abyad e Ras al-Ayn. Por isso, a retirada dos cerca de mil militares norte-americanos que têm funções de treino e apoio no nordeste da Síria poderia nem sequer ser uma notícia. Acontece que significa uma viragem decisiva da estratégia norte-americana no Médio Oriente e é uma alteração decisiva da relação de forças no terreno.

O anúncio foi feito na madrugada desta segunda-feira. Segundo Donald Trump, os norte-americanos vão deixar que curdos e turcos “resolvam a situação” uns com os outros. Na prática tal decisão implica dar luz verde a uma invasão turca.

Para justificar a retirada de tropas que trai os seus aliados sírios, o presidente dos Estados Unidos escreveu no Twitter que “Turquia, Europa, Síria, Irão, Iraque, Rússia e curdos terão agora de resolver a situação” entre si porque “está na hora de abandonarmos estas guerras ridículas e sem fim, muitas das quais tribais”.

Trump “descobriu” assim o caráter “ridículo” e “tribal” da guerra na Síria depois de anos de intervenção militar e de colaboração com as forças curdas contra o Estado Islâmico e na sequência, conta o presidente turco, de um telefonema que este lhe fez anunciando o plano de invasão.

O presidente da maior potência mundial tratou ainda de reconhecer publicamente na sua rede social preferida que “os curdos lutaram ao nosso lado, mas foram pagos com massivas quantidades de dinheiro e equipamentos para o fazer”, justificando deixá-los agora ao abandono com o princípio de que os EUA “combaterão onde for para seu benefício e combaterão apenas para ganhar”.

O discurso oficial da Casa Branca é mais polido mas o sentido é o mesmo: “as Forças Armadas dos Estados Unidos não vão apoiar nem envolver-se na operação e, tendo derrotado o “califado” territorial do ISIS não irão permanecer nas proximidades.”

Já quem mais beneficia com esta decisão, o governo de Erdogan, justifica a necessidade de avançar no terreno com a criação de uma “zona segura”, de “limpeza de terroristas” e com a necessidade de empurrar de volta para a Síria os 3,6 milhões de refugiados que fugiram para o seu território. No fundo, a Turquia procura assim eliminar o problema curdo. Parte do seu território é de maioria curda e o governo turco tem de lidar internamente com a força do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK) que considera terrorista. Do lado sírio da fronteira, o problema tem outras caras e nome são as Unidades de Proteção do Povo (YPG) e o seu partido, o Partido da União Democrática (PYD), que considerados como uma ameaça à sua segurança social e estão acusados por Ancara de proximidade com o PKK.

A União Europeia reagiu também esta segunda-feira condenando qualquer ofensiva turca. Maja Kocijancic, porta-voz da Comissão Europeia para a Política Externa, afirmou em conferência de imprensa que o retomar das hostilidades “aumentará o sofrimento do povo sírio, aumentará as deslocações de pessoas e minará os esforços políticos já desenvolvidos para resolver este conflito”.

E a ONU, por intermédio do coordenador regional da ajuda humanitária, Panos Moumtzis, também declarou estar “preparada para o pior”, estando a preparar um plano de contingência e tendo apelado a que os civis sejam poupados ao escalar previsto do conflito. Uma invasão que pode resultar em tragédia humanitária. Os curdos gerem, por exemplo, o campo de refugiados de Al Hol, onde vivem mais de 70 mil pessoas, alguns dos quais familiares de membros do Daesh que são recusados em todos os lados.

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