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Curdistão: "Só uma opinião pública mobilizada conseguirá inverter o jogo"

Em entrevista ao esquerda.net, José Manuel Pureza analisa a situação no Curdistão Sírio da “tenacidade da resistência curda”, à necessária “batalha da solidariedade” com este povo que “tem que ser articulada com a denúncia da vergonha” do acordo entre UE e Turquia sobre migrantes e com a “demonstração de que a NATO é o que legitima a agressão.”
José Manuel Pureza. Foto de Paula Nunes.

Na Síria, a vida dos curdos parece valer bem menos do que os jogos de poder entre as potências regionais e mundiais. José Manuel Pureza explica nesta entrevista ao esquerda.net que isso não é uma novidade histórica. E fala nas responsabilidades da NATO e da União Europeia no apoio ao regime de Erdogan, responsável pela invasão do Curdistão turco.


Como vês o que está a acontecer atualmente no Curdistão sírio?

A intervenção bélica da Turquia no Curdistão sírio – tornada possível pela retirada das forças americanas estacionadas na região – dá sequência a uma histórica política de repressão sobre o povo curdo perpetrada pela Turquia. As condições políticas da "questão curda" alteraram-se significativamente nas duas últimas décadas. Graças à tenacidade da resistência curda e à desorientação das políticas das potências naquela área do mundo, o que antes era uma luta fragmentada em quatro Estados diferentes (Irão, Iraque, Síria e Turquia) tornou-se numa realidade com dinâmicas fortes de unidade.

O redesenho da Síria faz parte da resposta a este novo desafio. O plano turco é o de criar uma zona de segurança com 480 kms de extensão (do Eufrates à fronteira com o Iraque) e 32 km de amplitude em território sírio. Cerca de dois milhões de refugiados sírios atualmente na Turquia seriam deslocados para essa zona, com apoio internacional, envolvendo a criação de verdadeiros colonatos e a consequente engenharia demográfica para diminuição artificial do peso do povo curdo. A atual intervenção bélica da Turquia deve ser entendida como tendo esse horizonte.

E ela só acontece porque a Turquia tem dois trunfos pesados. O primeiro é a sua condição de membro da NATO. É isso que torna a reação das diplomacias dos Estados Unidos e da União Europeia (o Governo português alinha, uma vez mais, obedientemente, pelo diapasão cínico de Bruxelas) tão frouxas diante da guerra perpetrada por Ankara contra as forças de um povo que estiveram na primeira linha da luta contra o califado do Estado Islâmico. O segundo trunfo é o acordo com a União Europeia para contenção dos migrantes e refugiados em fuga do Médio Oriente e do continente africano. Erdogan não se coíbe de fazer toda a chantagem que esse ignóbil acordo lhe permite para comprar o silêncio dos países europeus.

Os curdos estão a ser vítimas de um jogo de forças internacional por parte das potências mundiais e regionais?

Isso é indiscutível. Na verdade, tem sido essa a condição histórica dos curdos, pelo menos desde o desenho artificial dos Estados no Médio oriente depois das duas guerras mundiais. A dispersão por quatro Estados diferentes possibilitou que a esse povo de cerca de 40 milhões de pessoas tenha sido negado o direito de se organizar em Estado, primeiro porque, no quadro da Guerra Fria, isso convinha às duas super-potências e porque, depois disso, a estabilidade das fronteiras da região foi assumida como prioridade pelas potências regionais e como favorável aos interesses europeus e americanos.

O momento que estamos a viver é apenas a confirmação cruel dessa subalternização histórica dos curdos. O que não faz sentido é encarar este momento como uma traição inédita a um povo quando ele deixou de ser útil aos jogos de poder de quem manda na região e no mundo. Na verdade, não há nisso nada de novo. Trump manda retirar as tropas americanas e, com isso, avaliza a guerra turca contra os curdos, porque essa foi sempre a prática norte-americana. No Vietname, no Laos, no Afeganistão ou no Iraque, os Estados Unidos apoiaram movimentos e grupos insurgentes até... os deixarem cair em função dos seus interesses locais e globais. Os curdos são apenas mais um caso.

E o que pode ser feito em termos de solidariedade internacional?

Todos os povos vítimas do silêncio imposto pelas conveniências geopolíticas têm na opinião pública o seu único e verdadeiro aliado. Foi assim com o povo de Timor durante 24 anos. É assim com o povo do Sahara Ocidental. E é assim também com o povo curdo. Só uma opinião pública mobilizada conseguirá fazer inverter o jogo em que a Turquia e Erdogan ganha fazendo-se valer da chantagem da defesa militar da Europa no quadro da NATO e da contenção dos migrantes paga por Bruxelas.

É por isso que a batalha da solidariedade com o povo curdo tem que ser articulada com a denúncia da vergonha que é o acordo entre a UE e a Turquia sobre refugiados e migrantes e com a demonstração de que a NATO é verdadeiramente o que legitima a agressão de Ankara aos homens e mulheres de Rojava.

Termos relacionados Luta dos curdos, Política
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