A coordenadora do Bloco de Esquerda foi entrevistada esta segunda-feira à noite na SIC-Notícias. Com a perspetiva de legislativas antecipadas para daqui a pouco mais de três meses, Mariana Mortágua afirmou ter "certeza de que o Bloco vai crescer" nessas eleições e tem como objetivo "ser determinante para encontrar soluções que curem o país da crise em que a maioria absoluta o deixou".
Uma crise política aberta pela "promiscuidade entre política e negócios", mas também uma crise social na habitação, na saúde e na educação. "É para ser determinante nessas alternativas que o Bloco vai a eleições e luta por compromissos muito concretos" para responder a cada um desses problemas, acrescentou.
Até que os votos sejam contados, prosseguiu Mariana Mortágua, o que é necessário é "falar claro" a um país que está nestes dias "desorientado e confuso sobre em que instituições pode acreditar". E falar claro sobre as propostas para uma geração que hoje tem entre 30 e 50 anos, já passou pela crise da troika, pela pandemia e pela crise da inflação e continua hoje sem saber o que é ter "uma vida desafogada" ou mesmo "uma perspetiva de vida futura". A isso contrapõe a ideia de uma "vida boa", que significa "ter o conforto de saber que o salário dá para a vida", para a segurança na velhice ou para os cuidados com os filhos.
"Quando o Bloco teve meio milhão de votos afastou a direita do poder"
Sobre o crescimento do partido nas sondagens, Mariana Mortágua atribui o mérito à coerência das posições do Bloco, como "a de ter alertado muito cedo para o que estava a passar no SNS". E hoje "temos a confiança das pessoas porque apontamos a solução, dizemos o que é preciso fazer para fixar os médicos". O mesmo quanto à crise na habitação, em que o Bloco soube identificar as suas causas: a especulação imobiliária, os vistos gold, o regime dos residentes não-habituais, o alojamento local e o turismo desenfreado que vai ocupando e expulsando as pessoas das cidades. "O crescimento do Bloco é mérito dessa clareza das respostas, de saber responder às preocupações das pessoas com soluções que são exequíveis", apontou
A coordenadora bloquista lembrou que "quando o Bloco teve meio milhão de votos afastou a direita do poder e foi capaz de ter soluções para os problemas da vida das pessoas, para os seus salários". E diz acreditar que o Bloco "vai fazer isso de novo".
Aos que estão preocupados com o risco que significa uma aliança da direita no poder, Mariana Mortágua deixou a certeza de que "o voto do Bloco será um voto que impedirá qualquer governo de direita". Aos que por essa razão votaram no PS em 2021, recorda que "acabámos de sair de uma maioria absoluta que prometeu estabilidade e falhou" seja politicamente como no plano social.
Questionada sobre o que espera do futuro secretário-geral do PS, Mariana Mortágua recusou comentar sobre a vida interna de outro partido, acrescentando que qualquer que seja a pessoa escolhida para o cargo, "terá de assumir responsabilidades perante o que foi a governação da maioria absoluta, por ter agravado a crise da habitação e não ter parado a promiscuidade entre negócios e poder que vai subjugando os interesses nacionais e a política industrial às negociatas, aos facilitadores, aos interesses e benefícios de um punhado de empresas".
Convite a Centeno: "O país não tem tempo para continuar a discutir estas guerras palacianas"
A entrevista tratou ainda de outros desenvolvimentos do dia, como a demissão o ministro das Infraestruturas João Galamba, que para Mariana Mortágua "já não tinha condições políticas para estar no cargo pelo menos desde a comissão de inquérito à TAP". O outro foi a polémica em torno da independência de Mário Centeno depois do convite para liderar um hipotético Governo em caso de não haver eleições antecipadas. Aqui, Mariana Mortágua não vê nenhuma novidade, pois no PS sabem que o governador é do PS e a oposição sempre contestou, por razões diferentes, a sua escolha para governador do Banco de Portugal.
"O país não tem tempo para continuar a discutir estas guerras palacianas entre o palácio de São Bento, o palácio de Belém e o palácio do Banco de Portugal", afirmou Mariana Mortágua, que contesta as suas condições para o exercício do cargo por causa "das suas posições políticas quanto à finança, à forma como o banco central subiu os juros, asfixiando a vida das pessoas com a sua proteção durante todos estes anos, a forma como protegeu a banca quando a banca foi aumentando as comissões bancárias e não fez nada para o impedir". Tudo o resto nesta polémica são "cenários que são aproveitados para que a direita, que não tem mais nada para dizer sobre o país e a vida das pessoas, possa encher o tempo mediático da sua exposição pública".
Projetos PIN são como "vistos gold do turismo em área protegida"
A última parte da entrevista tratou do caso que provocou a demissão de António Costa, com Mariana Mortágua a insistir que por um lado a Procuradora Geral da República "deve vir explicar ao povo o que se está a passar, [pois] isso faz parte da democracia e era bom que assim fosse" num caso que teve as consequências graves a que o país assistiu. Mas por outro lado, sublinha que o problema de fundo é o de "um regime de promiscuidade, facilitismo, de uma rede de interesses que tem atravessado toda a economia portuguesa". e que protege projetos que "beneficiam poucas empresas" como se fossem de projetos de grande interesse nacional "por obra de facilitadores que vão fazendo a ponte entre os negócios e a política e entre a banca e os negócios".
"Não podemos dizer aos portugueses que para terem uma política industrial têm de aceitar este tipo de regime de negociatas, portas giratórias e promiscuidade. Este regime de promiscuidade que alimenta toda a economia ao longo dos anos tem sido a nossa condenação", prosseguiu a coordenadora do Bloco, defendendo que se o país quer ter uma indústria com capacidade produtiva e que não dependa de baixos salários, ela "não pode estar dependente de interesses particulares".
Sobre os projetos PIN, cujo fim o Bloco quer voltar a levar a discussão no Parlamento, Mariana Mortágua diz que se tratam sobretudo de projetos imobiliários como resorts de luxo, e entre eles estão os da Comporta e Pinheirinho "em plena área protegida, dados por Manuel Pinho ao Grupo Espírito Santo". Ou seja, funcionam como "visto gold do turismo em área protegida, onde não devia haver construção".