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Covid causou "pandemia oculta de orfandade", revela estudo da The Lancet

Estima-se que 1,5 milhão de menores em todo o mundo perderam um dos pais, avós ou cuidadores devido à covid-19. Em Portugal, 590 crianças e adolescentes terão ficado órfãos. O número sobe para 660 se tivermos em conta a perda de avós que tinham a guarda das crianças.
Foto de Patrick Mansell2011, Flickr.

No estudo publicado esta terça-feira pela revista médica britânica The Lancet é sublinhado que “as prioridades da pandemia covid-19 têm-se concentrado na prevenção, deteção e resposta”. Os autores avançam, no entanto, que, “além da morbidade e mortalidade, as pandemias têm impactos secundários, como crianças órfãs ou desprovidas dos seus cuidadores”. “Essas crianças muitas vezes enfrentam consequências adversas, incluindo pobreza, abuso e institucionalização”, alertam.

Os investigadores extrapolaram os dados de mortalidade da covid-19 e as estatísticas nacionais de fertilidade de 21 países para produzir as estimativas globais. Dessa forma, concluíram que, pelo menos, 1,5 milhão de menores em todo o mundo perderam um dos pais, avós ou cuidadores devido à covid-19: mais de 1 milhão perdeu um ou ambos os pais durante os primeiros 14 meses da pandemia; outro meio milhão foi confrontado com a morte de um avô ou cuidador que vivia em sua casa.

Entre os países com as taxas mais altas de crianças que perderam o seu cuidador principal (pai ou avô com custódia) figuram o Peru (1 criança por 100, totalizando 98.975 crianças), África do Sul (5 crianças por 1.000, totalizando 94.625 crianças), México (3 crianças por 1000, totalizando 141.132 crianças), Brasil (2 crianças por 1.000, totalizando 130.363 crianças) e Estados Unidos (> 1 criança por 1.000, totalizando 113.708 crianças).

Em Portugal, 590 crianças e adolescentes terão ficado órfãos devido à covid-19. O número sobe para 660 se tivermos em conta a perda de avós que tinham a guarda das crianças.

Os autores do estudo, citados pelo The Guardian, deixam vários apelos.

Susan Hillis, da equipa de resposta Covid-19 do Centro para Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, afirmou que estes dados “destacam a necessidade urgente de priorizar essas crianças e investir em programas e serviços baseados em evidências para protegê-los e apoiá-los agora e continuar a apoiá-los por muitos anos no futuro - porque a orfandade não acaba”.

Lucie Cluver, da Universidade de Oxford e da Universidade da Cidade do Cabo, destacou, por sua vez, que é preciso “apoiar famílias extensas ou famílias adotivas para cuidar dos filhos, com fortalecimento económico com boa relação custo-benefício, programas para os pais e acesso à escola. É preciso vacinar os responsáveis ​​pelas crianças - especialmente os avós. E é preciso responder rapidamente, porque a cada 12 segundos uma criança perde o seu cuidador para a Covid-19”.

Também Seth Flaxman, outro dos autores, do Imperial College London, frisou que “a pandemia oculta da orfandade é uma emergência global e não podemos esperar até amanhã para agir. Epidemias de covid-19 fora de controlo alteram abrupta e permanentemente a vida das crianças que ficam para trás”.

 

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