Costa do Marfim: forças de Ouattara tomam a residência de Gbagbo

05 de abril 2011 - 13:37

Com a ajuda do Exército francês e da ONU, os apoiantes do presidente eleito, Alassane Ouattara, conseguiram esta madrugada tomar o controlo do palácio presidencial e da casa privada do Presidente cessante, Laurent Gbagbo, que permanece agarrado ao poder e cujo paradeiro é agora desconhecido.

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Alassane Ouattara foi reconhecido pela ONU como o vencedor das eleições de 28 de Novembro passado, contudo os resultados eleitorais deixaram dúvidas por esclarecer.

Helicópteros da Missão das Nações Unidas na Costa do Marfim (ONUCI) e da força francesa no país atacaram em Abidjan posições das forças do Presidente cessante, Laurent Gbagbo, que não aceita a derrota eleitoral e recusa deixar o cargo. O palácio presidencial, a residência do chefe de Estado, e os campos militares de Akouédo e Agban foram os alvos.

“Lançámos a operação para proteger as populações, inutilizando as armas pesadas usadas pelas forças especiais de Laurent Gbagbo contra as populações e contra os capacetes azuis da ONU”, disse à AFP Hamadoun Touré, porta-voz da ONUCI. A acção foi desencadeada nos termos do mandato e da resolução 1975 aprovada na semana passada pelo Conselho de Segurança das Nações Unidas, acrescentou o porta-voz. Um comunicado divulgado em Paris pela Presidência francesa indica que “o secretário-geral das Nações Unidas pediu o auxílio das forças francesas” para as acções.

Paralelamente, o Presidente americano Barack Obama exortou Gbagbo a respeitar a vontade dos seus compatriotas e “cessar de reivindicar a presidência”.

A primeira reacção do campo de Gbago partiu de um conselheiro em Paris, Toussaint Alain, segundo o qual os ataques foram “actos ilegais” e uma “tentativa de assassinato”.

A ONUCI (missão da ONU na Costa do Marfim) tem cerca de dez mil efectivos na Costa do Marfim, entre capacetes azuis e polícias, e a França quase duplicou o seu contingente desde o final da semana passada, aumentando-o de 900 para 1650 homens. O número de franceses residentes no país é superior a 12 mil, 7300 dos quais com dupla nacionalidade. No domingo 170 estrangeiros partiram para Lomé (Togo) e Dacar (Senegal) e na segunda-feira 250 seguiram o seu exemplo.

Segundo o Presidente francês Nicolas Sarkozy, os militares franceses estão a intervir em conjunto com as forças da ONU presentes neste país africano. "É a primeira vez na história que se verificam num país ataques conjuntos da ONU e de uma antiga potência colonial", comenta esta terça-feira o jornal francês "Libération".

O ataque da ONUCI ocorreu segunda-feira à tarde, pouco depois de as forças que apoiam Alassane Ouattara, reconhecido pela comunidade internacional como vencedor das presidenciais de Novembro, terem anunciado uma nova ofensiva contra os bastiões do Presidente cessante.

A ONU alerta para situação humanitária dramática na Costa do Marfim

O Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos descreve um cenário onde falta quase tudo. A maior parte dos hospitais não funciona, as ambulâncias não andam e as que conseguem fazê-lo são atacadas a tiro. Falta oxigénio e os problemas de segurança impedem o acesso à população civil.

Em conferência de imprensa, o porta voz da Alta Comissária para os Direitos Humanos disse ainda que na rua há corpos espalhados no chão. A ONU fala em dezenas de mortos, mas não avança qualquer número.

Mais de 1500 pessoas morreram desde que, no início de Dezembro, eclodiu a violência pós-eleitoral, que nos últimos dias se traduziu num regresso da guerra civil de 2002-2003. No final da semana passada foram conhecidos massacres em grande escala em Duékoué, no Oeste, onde morreram centenas de pessoas – 800, segundo a Cruz Vermelha, 330 de acordo com as Nações Unidas.