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Coreia do Sul: naufrágio de “ferry” provoca renúncia do primeiro-ministro

Demissão de Chung Hong-won, que procurou aplacar um pouco a fúria contra o governo, põe em evidência o contraste entre a sua atitude e a de Passos Coelho ou de Mariano Rajoy.
Tragédia e impopularidade do primeiro-ministro Chung Hong-win provocou a renúncia. Foto de World Travel & Tourism Council
Tragédia e impopularidade do primeiro-ministro Chung Hong-win provocou a renúncia. Foto de World Travel & Tourism Council

O primeiro-ministro sul-coreano Chung Hong-won anunciou a renúncia neste domingo. O motivo foi o naufrágio de um ferry que fazia a rota entre Seul e a ilha turística de Jeju, no qual morreram, provavelmente, mais de 300 pessoas, na sua maioria crianças e professores da Danwon High School, de Ansan, nas proximidades de Seul, que faziam a famosa excursão. A ilha de Jeju é uma das principais atrações turísticas da Coreia do Sul.

Ocorrido no dia 16 de abril, com 476 pessoas a bordo, o naufrágio provocou uma profunda comoção na sociedade coreana e cuja repercussão se alastrou em países vizinhos, como o Japão, onde esta noticia e o seu acompanhamento continua a ter grande destaque. Foi um dos mais graves acidentes marítimos do país nos últimos 21 anos.

O acidente continua a ser investigado, mas a causa principal parece ter sido o excesso de carga que o ferry “Sewol” transportava, o que o levou ao naufrágio quando executou uma manobra de rumo. Segundo os registos, a carga máxima recomendada para a embarcação era de 987 toneladas, mas, no momento do desastre, o ferry transportava 3600 toneladas, entre contentores, carros e bagagens de passageiros. Mais de três vezes o peso da carga recomendada.

Um aspeto bastante criticado do acidente foi a postura do capitão, Lee Joun-seok, que abandonou a embarcação deixando os passageiros à sua própria sorte. Os estudantes receberam ordens de se manterem nas suas cabines enquanto o ferry afundava.

Desastres de ferry são comuns na Ásia, em particular em países como as Filipinas, arquipélago onde são meios de transporte imprescindíveis e, no geral, não causam grande comoção. Num mundo onde tragédias maiores são frequentes, é de se perguntar por que tanto barulho em torno de um caso que parece ser tão corriqueiro. Pode parecer corriqueiro para os leitores e ouvintes dos noticiários internacionais, mas, certamente, não o é para as famílias das vitimas. Qualquer de nós que fosse pai dos estudantes mortos, teria motivos de sobra para se revoltar, mesmo porque desde que ocorreu o acidente, passaram vários dias até que o primeiro corpo fosse resgatado do barco naufragado e, até o momento, o numero de corpos resgatados é diminuto. No momento do acidente estavam a bordo 325 membros da instituição de ensino, estudantes (júnior school) e dezenas de professores. Kang Min-Kyu, vice-diretor da escola, resgatado do ferry, cometeu suicídio dias depois.

Um aspeto bastante criticado do acidente foi a postura do capitão, Lee Joun-seok, que abandonou a embarcação deixando os passageiros à sua própria sorte. Os estudantes receberam ordens de se manterem nas suas cabines enquanto o ferry afundava. Após a tragédia, Lee, cuja responsabilidade começara a ser questionada, desapareceu, sendo preso nos dias seguintes, assim como outros tripulantes, acusados de negligência.

A justiça, durante uma operação de investigação, apreendeu documentos do proprietário do ferry, Yoo Byung-un, mas este ainda não foi incriminado no acidente, como é comum em acidentes na área de transporte, onde os primeiros acusados são os motoristas, pilotos e capitães. Mas poucos proprietários são responsabilizados pela negligencia ou falta de manutenção dos meios de transporte. Cabe lembrar que o desastre do “Sewol” ocorreu na esteira do desaparecimento em pleno voo do MH 370, da Malaysia Airlines, no dia 8 de marco na rota Kuala Lumpur -Pequim, com 239 passageiros, cujo paredeiro permanece desconhecido e ainda hoje ninguém foi responsabilizado pela tragédia.

A Coreia do Sul, um dos tigres asiáticos e quarta economia da região, tem conseguido importantes avanços, como a atual presença da indústria automobilística no mercado mundial, através da Hyundai, ou do impressionante avanço que a marca Samsung teve nos últimos anos. O atual desastre coloca em evidencia o descompasso entre o avanço económico e as regras de segurança para mediar essa evolução.

Segundo a agência de noticia Reuters, ao renunciar o primeiro-ministro afirmou: “Existem muitas irregularidades e más praticas em partes da nossa sociedade que nos têm acompanhado por tanto tempo, e eu espero que sejam corrigidas para que acidentes como este não ocorram outra vez.” Apesar da renúncia do primeiro-ministro, cujo objetivo foi aplacar um pouco a fúria contra o governo, a presidente, Park Geun-hye, dias atrás, optara por lançar um violento ataque contra o capitão do ferry, tentando desviar, assim, a atenção sobre a própria responsabilidade do seu governo durante o episódio. Imediatamente após o naufrágio, as autoridades afirmaram que todos os passageiros tinham sido resgatados.

O contraste entre democracia e democracia

O que salta a vista neste episódio, para os leitores ocidentais, é que o primeiro-ministro Chung Hong-win tenha renunciado. A Coreia do Sul está muito longe de ser uma democracia. Nesse pais da península Coreana, os ativistas políticos são violentamente perseguidos, em particular os ativistas sindicais. Durante as ultimas semanas, a Confederação Coreana de Sindicatos realizou uma campanha pela libertação do sindicalista metalúrgico Kim Jungwoo que se encontrava preso pelas suas atividades sindicais. No dia 2 de abril, a Confederação Coreana fez um agradecimento publico a todos aqueles que em todo mundo apoiaram a campanha pela libertação de Kim Jungwoo, colocado em liberdade nesse dia, sob fiança. Mas, mesmo não gozando de liberdade política, como muitos imaginam, a renúncia do primeiro-ministro Chung Hong-win demonstra a força da opinião publica, que se manifestou em diversos protestos, como a vigília com velas, ou a recente manifestação organizada em Seul pela Confederação Coreana de Sindicatos, no dia 26, em homenagem aos trabalhadores mortos no acidente do “Sewol” e pelas demais vitimas. Durante a manifestação de pesar, foi levantada a necessidade de se lutar por uma sociedade com mais segurança para os trabalhadores e para que não ocorram mais mortes nos locais de trabalho. Apesar da criticável atitude do capitão Lee Joon-seok, do ferry “Sewol”, muitos tripulantes morreram durante o trabalho, tentando apoiar os passageiros nesse momento derradeiro.

A renúncia do primeiro-ministro Chung Hong-win demonstra a força da opinião publica, que se manifestou em diversos protestos, como a vigília com velas, ou a recente manifestação organizada em Seul pela Confederação Coreana de Sindicatos.

No Japão, apesar do papel reacionário que cumpre no sistema imperialista, a bastarda democracia onde se mantém a figura do imperador tem obrigado os governos das últimas décadas a renunciar sistematicamente quando a sua popularidade cai nas sondagens. É muito pouco provável que alguém se lembre de quantos gabinetes existiram nos últimos anos e os nomes dos primeiros-ministros desses governos, já que todos, sem exceção, foram tombados pela opinião pública.

O contraste entre a renúncia do primeiro-ministro sul-coreano e a postura de governantes europeus entre os quais se pode destacar o português Passos Coelho e o espanhol Mariano Rajoy fica evidente. No caso, esses dois dirigentes não são responsáveis pelo naufrágio de nenhuma embarcação, mas, em contrapartida, têm afundado os seus respetivos países. E entre mortes diretas e indiretas dos seus respetivos governos, todos sabemos que o número é bem superior a 300 pessoas. No caso espanhol, a situação é mais grave ainda, já que, desde o início do governo Rajoy, dezenas de desesperados cidadãos têm cometido suicídio ao verem as suas moradias sendo tomadas pelos bancos, já que o crescente desemprego é o principal responsável pela impossibilidade de pagarem as prestações dos seus imóveis.

Mesmo com manifestações multitudinárias, de mais de um milhão de pessoas, que exigem a sua renúncia, tanto Passos Coelhos quanto Mariano Rajoy se mantêm aferrados ao cargo, demonstrando, por um lado, o desprezo que têm pelas aspirações democráticas e, por outro, a enfermidade democrática que assola esses países, já que a opinião publica, que é a que deveria prevalecer, é completamente ignorada.

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