Contracimeira de Glasgow: Resumo do dia 5

11 de novembro 2021 - 16:07

No último dia de debates da Cimeira dos Povos, a Andreia Galvão e o Miguel Martins participaram em sessões, assembleias e numa ação de rua por melhores transportes públicos.

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Ação de rua por melhores transportes ´blicos esta quarta-feira em Glasgow.
Ação de rua por melhores transportes ´blicos esta quarta-feira em Glasgow. Foto Miguel Martins.

Os quatro dias de debates da Cimeira dos Povos chegaram ao fim esta quarta-feira. Foram sessões bastante participadas por ativistas vindos de muitos países. Logo pela manhã participámos na mobilização “Glasgow Going”, que reivindicou um sistema de transportes integrados para a cidade. Falámos com sindicalistas sobre as reivindicações que unem os movimentos climático e sindical sobre os temas dos transportes e mobilidade, mas também das dificuldades no seu relacionamento.


 

No painel “Da Crise à Justiça: Como conseguiremos um Green New Deal global” realizado ao final da manhã, foram abordadas várias questões sobre a necessidade de um espaço mais radical e reivindicativo para a resolução da crise climática que a saiba ler não só como uma questão do meio ambiente e de conservação mas de disrupção da lógica sistémica que rege as nossas vidas. Vijay Prashad, do Tri-continental Institute India, afirmou que os revolucionários foram eliminados do mapa de intervenção política por ameaçarem o sistema no qual atuavam. Por entre várias intervenções brilhantes, foi abordada a necessidade de aproveitar as alianças internacionais para subverter a lógica de produção e acumulação de capital nas sociedades contemporâneas.


 

Ao início da tarde, assistimos a um painel sobre o impacto do extrativismo nas comunidades e na vida das mulheres. Foi um debate que procurou interligar as várias lutas, partindo do princípio de que a justiça climática é inerentemente feminista, pois o modelo extrativista está profundamente ligado ao sistema patriarcal.

Ouvimos o testemunho de uma oradora no Quénia acerca da desigualdade no acesso à água, uma tarefa destinada às mulheres a par do restante trabalho reprodutivo. A desigualdade de género é uma das marcas deste sistema e afeta milhões de mulheres por todo o mundo. A valorização da ligação entre o corpo e o território, a autodeterminação dos povos e dos ecossistemas foram outras das ideias saídas do debate. Por outro lado, foi sublinhado que a luta pela justiça climática é por natureza internacionalista e que é através da interseccionalidade das lutas que conseguiremos combater este sistema.

Mais tarde, uma assembleia teve como objetivo destacar a importância da acessibilidade no movimento social pela justiça climática e a luta das pessoas com deficiência na construção de uma alternativa ao atual sistema. Em relação ao primeiro aspeto, foi dado como exemplo esta contracimeira, que teve a preocupação de os oradores poderem manter a sua língua materna. Isto foi possível graças aos voluntários que se empenharam nas tarefas de tradução para os participantes, mas permitiu também sublinhar a identidade pessoal de cada uma e cada um dos oradores, ajudando a tornar a Cimeira dos Povos num espaço de igualdade. Em relação ao segundo aspeto, ouvimos testemunhos bastante emotivos de pessoas com deficiência, que afirmaram não quererem ser excluídas ou olhadas de lado por terem uma deficiência, pois estão aqui como ativistas para travar as lutas lado a lado com quem quer construir uma alternativa. Foi um espaço de reflexão, solidariedade e compreensão destas realidades que muitas vezes são ignoradas nestes contextos.

Terminámos o dia na companhia do deputado bloquista Nelson Peralta num debate em que também participou o ex-líder trabalhista inglês Jeremy Corbyn. O debate salientou a importância dos transportes públicos como forma de combate às alterações climáticas e fortalecer as economias locais. Os outros oradores eram sindicalistas da Escócia e Inglaterra, mas também o presidente da federação internacional dos trabalhadores da ferrovia, da CGT francesa. A ferrovia está inserida num modelo privatizante, em que a visão neoliberal predomina num serviço que devia ser público. Uma vez mais foi possível concluir que é através do investimento nos transportes públicas e na aliança dos trabalhadores com o movimento social que se trava a luta contra as alterações climáticas.