Contracimeira em Glasgow: Resumo do dia 4

10 de novembro 2021 - 13:54

As sessões da contracimeira continuam com elevada participação e ao longo do dia há também ações nas ruas para denunciar a falta de respostas da cimeira oficial. A Andreia Galvão e o Miguel Martins contam o que viram esta terça-feira.

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Uma das ações de protesto de terça-feira em glasgow. Foto Oil and Gas Action Network/Twitter

Em Glasgow continua a fervilhar um mar de possibilidades para a resolução da crise climática, em que a força é a pluralidade de visões e de estratégias para pensar e ganhar consensos sociais cada vez mais fortes, que unem vários setores da sociedade. O conjunto de testemunhos, em particular das comunidades da linha-da-frente da crise climática, tem deixado evidente a urgência de mudar o sistema de exploração, em prol de soluções que defendam a Humanidade.

Em paralelo com as atividades desta Cimeira dos Povos, realizam-se  muitas iniciativas de rua contra o que se passa dentro da COP26. Desde ações do Extinction Rebellion a cortes de estrada junto de reuniões de comitivas empresariais, são muitas as ações que denunciam o “Blá blá blá” das iniciativas oficiais. Os ativistas estão a fazer frente ao discurso vazio da COP26 porque os movimentos não estão ali representados. Quem está sentado à mesa das negociações com os governos são os grupos financeiros, tal como sucedeu no Acordo de Paris.

As sessões desta contracimeira têm tido em geral grande participação e já houve várias em que tentámos mas não conseguimos entrar por terem já lotação esgotada. A organização exige que os participantes façam um autoteste Covid e o registem num portal oficial do Governo para poderem levantar uma pulseira que dá acesso às iniciativas ou apresentar a confirmação desse site à entrada das sessões. O respeito pelas medidas de proteção é ainda mais relevante pelo facto de muitos dos oradores e participantes serem originários de países onde a taxa de vacinação é muito baixa.

O painel sobre a luta dos trabalhadores pela liberdade sindical e ação pelo clima serviu para dar a conhecer aos participantes algum contexto sobre as lutas laborais na Escócia, o lugar histórico da greve dos mineiros e das suas consequências, bem como da legislação que dificultou a mobilização laboral no país. Além das campanhas para reverter essa legislação, foi ainda destacada a necessidade do movimento laboral se juntar a luta climática.

Na sessão intitulada “A civilização pos-fóssil” falou-se da necessidade de criar um espaço paralelo onde as comunidades mais afetadas da crise climática veem as suas histórias a serem contadas e onde são escutadas as suas propostas de resolução para a crise climática. Destacou-se a ideia de que o poder social construído coletivamente é a única forma de fazer face à aparente inevitabilidade de poder das grandes empresas poluentes do planeta.

Num registo bem diferente da maioria dos painéis de debate, no workshop sobre “sustentabilidade holística para as artes performativas” foi apresentado o projeto “Ecostage”, que funciona como uma rede para projetos artísticos comprometidos com justiça climática e com a implementação da sustentabilidade nas suas práticas nas artes performativas. Aqui foram apresentados vários princípios como os do bem-estar, transformação, criatividade e inclusividade, que funcionam como mote para as pessoas que aderem à iniciativa e que orientam a criação para a transformação social. E houve ainda tempo para assistir a um workshop de produção de media para ativistas, uma forma de ampliar o alcance das reivindicações do movimento por justiça climática.

Noutro workshop, discutiu-se a iniciativa por um tratado de não proliferação de combustíveis fósseis. A iniciativa é apoiada por centenas de associações, alguns municípios e centenas de milhares de pessoas. A sessão sublinhou o facto de que esta transição energética tem de ser mundial, o que exige a cooperação dos países do Norte global que dominam a produção de energia. Um jovem do movimento Fridays for Future do Bangladesh deu o seu testemunho sobre a qualidade de vida num país extremamente dependente de energias fósseis. Tal como noutras sessões, foi sublinhada a forte presença na cimeira oficial por parte das empresas de combustíveis fósseis, não para salvaguardar os interesses das pessoas, mas para garantir que os seus interesses financeiros não são afetados. Esta iniciativa tem um nome bastante semelhante ao do tratado de não-proliferação de armas nucleares e isso não é por acaso. Quando este acordo foi assinado, as armas nucleares eram (e continuam a ser) uma ameaça constante para a humanidade e para o planeta. Ora, este movimento pretende chamar a atenção para o perigo iminente que representam as alterações climáticas.

Outra das sessões de terça-feira foi um debate sobre o apartheid israelita e a crise climática, sob o prisma de que a justiça climática é sinónimo da libertação do povo palestiniano. Israel tem ocupado cada vez mais territórios palestinianos e apropria-se dos recursos deste povo, contribuindo para destruir o ambiente e restringir o acesso do povo palestino à energia. Ao racismo e a limpeza étnica, juntam-se as táticas de greenwashing para afirmar as políticas colonialistas de Israel. Por exemplo, através do Jewish National Fund, que se apresenta como associação de caridade enquanto promove o racismo e a limpeza étnica. Vende uma imagem de associação que planta árvores, mas que na realidade cobre territórios que foram ocupados por Israel, expulsando quem lá vivia. E de forma hipócrita, “batizam” estas florestas com o nome de heróis anti-fascistas. Outro projeto é o gasoduto EastMed, com mais de 900kms e que acarreta vários perigos ambientais, permitindo a Israel afirmar-se enquanto exportador de gás natural e assim legitimar o seu regime de apartheid.

Os impactos das alterações climáticas e a ineficácia das soluções apresentadas na COP 26 foram temas abordados em vários painéis, como o que contou com a participação de membros das comunidades mais vulneráveis, do Equador às Filipinas, passando pelo Bangladesh. Aqui foram salientadas as necessidades de mais estratégias de proteção social e particular atenção às questões de género para fazer face a esses impactos. Mas também que as empresas de combustíveis fósseis têm de pagar pelos crimes ambientais que cometem e os atentados aos direitos humanos que praticam. Ou que os países do Norte global têm a obrigação de compensar os do Sul pela exploração dos seus recursos.

Num workshop que teve como objetivo aproximar os participantes às experiências dos ativistas ambientais do Sul global, através da elaboração de um folheto, estive à conversa com uma ativista filipina que testemunhou os atentados aos direitos humanos e ao ambiente praticados no seu país. Foi um relato assustador sobre a perseguição por arte do regime de Duterte que inclui assassinatos, tortura e raptos, a par da instrumentalização das autoridades por parte das empresas mineiras, de forma a que as comunidades não possam contestar a presença dessas empresas. Apesar das circunstâncias, ela deixou uma mensagem de esperança e de persistência nesta luta.

Noutro debate, discutiram-se as respostas às múltiplas crises que enfrentamos, foi destacada a urgência de pensar “fora do sistema” e imaginar as alternativas pelas quais lutamos. A sessão contou com a presença do chefe indígena Ninawa Huni Kui, de uma comunidade da Amazónia ameaçada pelo avanço da agroindústria, que afirmou que “a casa do homem branco está a cair” porque os países do Norte global querem manter as suas economias como estão. Isso levanta a questão da insuficiência das pequenas reformas que são discutidas na cimeira oficial. Temos de mudar a estrutura do sistema, que levará a uma mudança no nosso estilo de vida, longe do atual ritmo acelerado. Precisamos de lutar por essa mudança em vez de assistirmos à destruição do planeta.