Contra a esquerda "tanquista

11 de março 2022 - 13:47

No "campo popular" latino-americano ainda há muito fetichismo em relação aos tanques russos... A brutalidade desta invasão é uma oportunidade para nos "destanquizarmos". Por Pablo Stefanoni.

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Putin a entrar num tanque russo.
Putin a entrar num tanque russo.

Há algum tempo, muitos se perguntam porque existe uma simpatia difusa por Vladimir Vladimírovich Putin entre figuras políticas e intelectuais da esquerda latino-americana (e em outras paragens, mas tratá-las requeriam nuances que estão além da necessidade de síntese deste tipo de artigo). Recentemente, um famoso intelectual de esquerda postou que as declarações de Putin a explicar as razões do conflito (no qual acusou a Nato de expansionismo e culpou Lenin pela existência de uma Ucrânia independente) eram "brilhantes", e que esse brilho contrastava com a mediocridade de Biden. Seguiram-se dezenas de comentários de aprovação. A mesma referência intelectual recomendou, para entender o que realmente está a acontecer na Rússia/Ucrânia, não olhar para os meios de comunicação social mentirosos mas para a Telesur (canal dirigido a partir de Caracas), a HispanTV (de Teerão) e a RT (de Moscovo). Ele nem sequer disse que tínhamos que assistir a estes para ouvir "a outra versão", mas diretamente para saber a verdade.

Vários governos e líderes de partidos de esquerda apoiaram a Rússia, de forma explicita ou culpando a Nato pelo ataque (e até mesmo falando num potencial genocídio feito pela Aliança Atlântica, mas não sobre as mortes reais às mãos do exército russo, não "vermelho" já agora). E basta percorrer as redes sociais para ver o amplo apoio a Putin por parte das pessoas da esquerda. Mesmo as fotos de Putin usando óculos escuros que enfatizam a sua estética de vilão parecem ser muito atraentes. Que presidente se propõe a envenenar seus oponentes?

Não é toda a esquerda, muitos condenaram a invasão, mas aqui não falamos deles mas de uma vertente mais "populista" e outras variantes "marxistas" (embora Marx fosse muito claro sobre a natureza do império russo, e até a exagerava). Não menciono os nomes porque todos nós sabemos de quem estamos a falar; não é uma discussão pessoal, mas uma discussão político-ideológica.

Alguns acreditam que não devemos fazer ondas dentro da nossa "família" para não alimentar o "macartismo". Não creio que a confusão ajude a esquerda. O "macartismo" também é alimentado pelas posições ambivalentes da esquerda precisamente face a problemas "sensíveis" como Cuba, Venezuela ou Nicarágua… e não creio que a solução seja continuar a tirar temas da agenda de discussão para não "brigar entre nós". A confusão está suficientemente espalhada pelo mundo para que a esquerda o possa alimentar.

Um esclarecimento: em nenhum momento isto é uma tentativa de "ocultar" o papel da Nato. As críticas à expansão da Nato para o Leste são abundantes, mesmo na grande imprensa e entre os analistas de defesa. De facto, antes da invasão, era um argumento a favor da "firmeza" da Rússia. Mas a invasão mudou as coisas: esta é uma guerra preventiva de agressão contra um país soberano e o seu povo. Santiago Alba Rico resumiu bem: "A Nato é prejudicial para a Europa e para o mundo. Cada dia do ano é um bom dia para se manifestar contra ela; todos os dias, sim, exceto este. A Ucrânia não pertence à Nato; não há soldados da Nato a lutar na Ucrânia; e certamente não há aviões da Nato a bombardear Moscovo; nem há qualquer intenção da Nato de impedir a agressão russa militarmente. A Nato pode – e deve – ser incluída num artigo analítico ou num ensaio histórico sobre a cronologia do conflito, mas não numa manifestação de protesto contra uma guerra pela qual a responsabilidade recai apenas sobre uma fonte: Putin".

É desnecessário dizer que nos países não pertencentes à Nato, na periferia da Rússia (como na Finlândia), a opção de aderir à Nato está a tornar-se maioritária. É óbvio que face ao rufia do bairro, todos, quem não se puder defender sozinho vai buscar o apoio de outro rufia para se proteger. E também é bom lembrar que a Ucrânia desistiu das suas armas nucleares no Memorando de Budapeste de 1994, em troca do respeito pela sua soberania. Hoje arrependem-se.

O que se segue são algumas hipóteses provisórias sobre os problemas das nossas esquerdas continentais para enfrentar alguns dos desafios do presente.

(1) "Campismo": avaliação puramente geopolítica de qualquer tipo de conflito global (e até mesmo local). O mundo está dividido em campos e se estás na "zona de sacrifício" pela causa anti-imperialista, vai-te lixar. Isto substitui a solidariedade internacionalista por uma visão que despreza populações inteiras em nome de uma suposta (e muitas vezes fantasiosa) mudança nas relações internacionais de poder, em detrimento do imperialismo norte-americano. Muitos nos Estados Unidos chamam isso de "tanquismo" devido ao apoio à invasão da Hungria por tanques russos em 1956. Mas se na Guerra Fria o campismo respondia à defesa de um suposto sistema alternativo ao capitalismo (vamos deixar de lado o debate sobre o socialismo real), agora serve apenas para defender autocratas como Assad ou Putin. Sem a URSS, o tal campismo acaba por rimar com "vermelho-acastanhado" [uma aliança da esquerda com os fascistas]. O próprio PC da Federação Russa evoluiu nesse sentido: hoje é uma força que mistura a nostalgia soviética com o nacional-bolchevismo. Não é coincidência que Diego Fusaro tenha sido oficialmente convidado para a Bolívia e aplaudido nas suas intervenções públicas massivas por militantes e aderentes do MAS, sem que ninguém veja nada de estranho num discurso que, a partir do marxismo, assume explicitamente valores de extrema-direita (é por isso que defende a "família", critica a "esquerda arco-íris" e se liga diretamente a espaços de extrema-direita, como CasaPound ou outros neofascistas). Citações de Marx e Gramsci foram-lhe úteis para vender vários clichés "vermelho-acastanhados". Mas isso aconteceu porque havia uma sensibilidade difusa compartilhada por aqueles que o escutavam.

(2) Todo o imperialismo fora dos EUA é invisível. Derivado do exposto acima: há uma total incapacidade de analisar os imperialismos regionalizados. É óbvio que para qualquer país da periferia russa, o "imperialismo" é a Rússia. E é óbvio, depois do que aconteceu na Ucrânia, que a adesão à Nato parece hiper-racional. A expansão da Nato, como diz meio mundo, e nós já assinalamos, foi um desastre. Mas a invasão da Ucrânia não é apenas um reflexo defensivo. Não há necessidade de escavar muito fundo, disse-o o próprio Putin que justificou a invasão com razões imperiais Grã-Russas (a Ucrânia é parte da Rússia). Quando a China invadir Taiwan (se acabar por fazê-lo) ouviremos a mesma cassete (apesar de já não haverem cassetes). Só que, quando isso aconteça, as redes sociais vão-se encher com fotos de Mao. Um exemplo dos efeitos da proximidade com esses impérios regionais (embora a China já tenha passado para outra divisão) são os laços do Vietname – inclusive militares – com os Estados Unidos. Os vietnamitas sabem melhor do que ninguém até que ponto o imperialismo americano pode ser impiedoso. Mas eles também conhecem bem e têm os chineses como vizinhos.

(3) Factos alternativos: a esquerda latino-americana também trabalha com os seus próprios factos alternativos. Muitas vezes sem o menor esforço para ir mais longe e tentar informar-se. É notável a quantidade de pessoas que compram a "desnazificação" (basta olhar para fotos de bandeiras nazistas na Ucrânia para confirmar isto!). Nisso não há muita diferença com o que faz o QAnon à direita. É claro que existem milícias neonazis na Ucrânia. E também que a extrema-direita tem menos votos que na França ou na Espanha. Quanto peso têm e onde, quanta influência têm na política local? Quão infiltradas estão as forças de segurança? É o mesmo agora que em 2014? Para combatê-las é preciso invadir, bombardear e destruir um país e culpar coletivamente o povo ao "estilo antigo"? Quanto o próprio expansionismo russo desempenhou um papel no seu fortalecimento? Alguns parecem acreditar que o próprio Hitler governa a Ucrânia. Mas o presidente é um ex-comediante judeu de língua russa.

(4) Anti-liberalismo: tal como o anti-comunismo era muito mais do que "não ser comunista", o anti-liberalismo é mais do que "não ser liberal". É uma identidade que tem o outro polo como seu interlocutor e obsessão. Assim como os anti-comunistas da Guerra Fria subordinavam qualquer princípio à derrota do comunismo – e poderiam massacrar metade do mundo em nome da liberdade – os anti-liberais acabam por desconfiar da própria democracia e, em vez de lutar por uma espécie de iluminismo radical e crítico, acabam por defender explícita ou implicitamente qualquer alternativa à "democracia liberal" que geralmente é um álibi para o poder dos autocratas ou cliques cleptocráticas. No seu tempo, a "democracia direta" de Kaddafi e o seu Livro Verde eram a expressão mais pura disso. Mas hoje a simpatia que vemos por Putin entre parte da esquerda latino-americana deveria ser um alerta para estas derivações. Se os conservadores liberais são inconsistentes e hipócritas, talvez nós devêssemos ser mais consequentes e não usar a hipocrisia dos outros como justificativa para a nossa própria.

Mas no "campo popular" latino-americano ainda há muito fetichismo em relação aos tanques russos... A brutalidade desta invasão é uma oportunidade para nos "destanquizarmos".


Pablo Stefanoni é chefe de redação da revista Nueva Sociedad. Foi correspondente dos jornais Página 12 e Clarín em La Paz e diretor da edição boliviana de Le Monde Diplomatique.

Texto publicado originalmente no El Diário argentino. Traduzido pela Insurgência. Adaptado para português de Portugal pelo Esquerda.net.