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Conflito diplomático reforça regime turco e xenofobia na Holanda

Governo holandês proibiu um comício com membros do governo turco em território holandês e impediu a entrada da Ministra dos Assuntos Familiares do governo turco. O efeito imediato é um reforço reacionário tanto do regime de Erdogan como do conflito social e político na Holanda.
"Não entrem! Este é o nosso país!", um cartaz de Geert Wilders exposto em frente à embaixada da Turquia na Holanda, por Robin van Lonkhuijsen, EPA/Lusa
"Não entrem! Este é o nosso país!", um cartaz de Geert Wilders exposto em frente à embaixada da Turquia na Holanda, por Robin van Lonkhuijsen, EPA/Lusa
Se dúvidas havia sobre o domínio que Geert Wilders mantém sobre a política na Holanda em plena campanha eleitoral para as legislativas de 15 de março, a decisão do primeiro-ministro Mark Rutte em proibir a entrada da Ministra dos Assuntos Familiares da Turquia em território holandês demonstra bem em que terreno se faz a disputa eleitoral. 
 
Recep Tayyip Erdogan, primeiro-ministro (e agora Presidente) da Turquia desde 2003, marcou um referendo constitucional para 16 de abril de 2017 com o objetivo declarado de concentrar poder na presidência, anulando a capacidade de supervisão do parlamento e submetendo os tribunais e os militares ao seu controlo direto. 
 
A Holanda tem a maior comunidade de cidadãos turcos imigrados do mundo, com 3,5 milhões de naturalizados dos quais metade com direito de voto no referendo de abril. 
 
Fatma Betül Sayan Kaya, Ministra dos Assuntos Familiares do governo turco, marcou por isso um comício em Roterdão para 11 de março, quatro dias antes das legislativas na Holanda. E esse parece ser o principal motor que levou o governo holandês a proibir o comício no passado dia 3, invocando “razões de segurança” e perigo para a “ordem pública”. 
 
Bert Koenders, Ministro dos Negócios Estrangeiros holandês e membro do Partido Trabalhista (congénere do Partido Socialista português), considerou mesmo “inaceitável” a iniciativa, declarando que “as pessoas são livres de organizarem comícios, mas um ministro turco fazer campanha no nosso país sobre um referendo turco e falar sobre os cidadãos turcos é pouco desejável”.  
 
Para termo de comparação, é comum qualquer líder partidário ou membro de governo de Portugal deslocarem-se a Paris para realizar comícios com a comunidade portuguesa em momentos eleitorais.
 
Em desafio, a Ministra turca aterrou na Alemanha e tentou deslocar-se para Roterdão de carro, tendo a polícia holandesa obrigado a caravana automóvel a voltar para trás impedido o comício de se realizar.
 
Paradoxalmente, o efeito imediato é um reforço reacionário tanto do regime de Erdogan como do ambiente social e político na Holanda, provocando um ambiente de insegurança que alimenta a mensagem xenófoba da extrema-direita de Geert Wilders com a caução de todos os partidos atualmente no governo holandês - os liberais do VVD; os Cristãos Democratas do CDA; e o Partido Trabalhista (PcdA). 

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