Holanda: Extrema-direita cresce com islamofobia

Todas as sondagens preveem que, nas próximas eleições de março de 2017, o PVV de Wilders tornar-se-á o maior partido no parlamento holandês. Este partido de extrema-direita assenta a sua política, em primeiro lugar, num discurso islamofóbico e em campanhas anti-imigração.

05 de fevereiro 2017 - 10:59
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Geert Wilders, líder do partido holandês de extrema-direita da Holanda - Partido pela Liberdade (PVV)
Geert Wilders, líder do partido holandês de extrema-direita da Holanda - Partido pela Liberdade (PVV)

PVV, um partido islamofóbico

A página1 de Geert Wilders, líder do partido holandês de extrema-direita PVV (Partido para a Liberdade), no twitter tem no top o slogan “Stop Islam”, a palavra de ordem central para a campanha eleitoral.

A escolha não é por acaso, Wilders é um líder xenófobo que faz da islamofobia e do ataque aos imigrantes o centro da sua política. Ele quer “banir todos os símbolos islâmicos, as mesquitas e o Corão2 na Holanda.

Para justificar esta política, Wilders diz que se está a viver uma “guerra contra o fascismo, contra a ideologia totalitária que é o islão”3 e que o seu partido é o único que o combate na Holanda. Wilders usa o ataque aos imigrantes marroquinos e turcos para “gritar” as suas teses e espalhar o medo4.

O governo holandês, e sobretudo o partido de Mark Rutte que o lidera, tem agravado as medidas contra os imigrantes e aprovado medidas discriminatórias de práticas e hábitos muçulmanos.

Em novembro de 2016, o parlamento holandês aprovou uma lei proibindo a utilização de burcas, que cubram o rosto, em espaços públicos como escolas, hospitais e transportes públicos. A lei prevê uma multa até 410 euros, para quem a infrinja. O primeiro-ministro Mark Rutte declarou, numa posição típica do seu partido liberal de direita, que “esta lei não tem nada a ver com religião”, mas sim com segurança. Lamentável é que a lei tenha sido aprovada por 132 votos em 150 parlamentares. Na verdade, só três agrupamentos parlamentares e 18 deputados e deputadas votaram contra a lei que proíbe o uso da burca: Democratas 66 (12), Verdes (4) e os dois deputados do novo partido Denk (2)5.

O crescimento da extrema-direita na Holanda

Este crescimento dá-se a partir de 2002, primeiro com a Lista Pim Fertuyn (LPF) e posteriormente com a criação em 2006 do PVV de Wilders.

Pim Fertuyn, professor universitário de sociologia e homossexual assumido, teve um papel essencial na elaboração da política anti-imigrante e na construção do nacionalismo islamófobo. E, sobretudo, em tornar este discurso e imagem bem diferentes da velha extrema-direita, ultrapassando um seu antigo problema e transformando o discurso tradicional em “formas mais digeríveis para a população dos respetivos países”6.

Stop à indústria do medo, imagem de manifestação na Holanda
Stop à indústria do medo, imagem de manifestação na Holanda

Pim Fertuyn foi assassinado antes das eleições de 2002, mas nessas eleições a sua LPF elegeu 26 parlamentares e ficou em segundo lugar7. Em 2004, foi também assassinado o cineasta e jornalista Theo Van Gogh, também ele xenófobo e islamófobo. Os dois assassinatos constituíram um “choque” profundo na população holandesa e tornaram esta política de extrema-direita mais “digerível” e aceitável.

O PVV, criado posteriormente, elege em 2006, na primeira vez em que concorreu, 9 deputados. Em 2010 veio a obter 24 mandatos e ficando em terceiro lugar no parlamento. Após estas eleições é constituído um governo entre os liberais do VVD e os democratas-cristãos do CDA, que foi suportado no parlamento pelo partido de Wilders. Em 2012, o PVV rompe com o governo, opondo-se a medidas de austeridade impostas pela UE e que VVD e CDA queriam impor, resultando na queda do governo e na realização de novas eleições, em que o PVV viu a sua bancada reduzir-se para 15 parlamentares.

O PVV de Wilders defende a saída da Holanda da União Europeia e a redução da idade da reforma dos 67 para os 65 anos. Ganhou credibilidade com esta sua política (assim como com o aumento dos ataques do Desh na Europa), acabando por aumentar o seu peso político.

Geert Wilders

Wilders nasceu em 1963 e aderiu ao partido VVD, direita liberal, nos anos 90. Em 1997, foi eleito deputado pelo VVD, pela primeira vez.

Em 2004, abandona os liberais e inicia a construção do PVV, que concorre pela primeira vez em 2006.

Internacionalmente, tem relações próximas com os partidos de extrema-direita, UKIP do Reino Unido, a Frente Nacional liderada por Marine Le Pen da França, Liga Norte da Itália e AfD da Alemanha. Tem também excelentes relações com o grupo político que constitui a atual administração de Trump na Casa Branca.

Geert Wilders é um defensor da política de Trump. No twitter saudou a sua vitória, escrevendo: “Uma vitória histórica! Uma revolução! Também nós devolveremos o nosso país aos holandeses”.

No dia seguinte à vitória de Trump, Wilders reuniu na Alemanha com Marine Le Pen (FN), Frauke Petry (AfD) e Matteo Salvini (Liga Norte) e declarou: “estamos a viver tempos históricos. A gente do Ocidente desperta. Liberta-se do jugo da correção política. Quer que lhe devolvam a sua liberdade, a sua soberania nacional, e nós, os patriotas da Europa, seremos o instrumento da sua libertação”. Um perigoso discurso de uma corrente política que faz da islamofobia e do ataque aos imigrantes o centro da sua política antidemocrática.


4 Em dezembro de 2016, Wilders foi condenado por ter incitado à discriminação ao ter defendido que haja “menos marroquinos” na Holanda. No final do julgamento, Wilders declarou ameaçadoramente: “Tenho uma mensagem para os juízes que me condenaram: 'vocês restringiram a liberdade de milhões de cidadãos e, por conseguinte, condenaram toda a gente. Já ninguém confia em vocês mas felizmente a verdade e a liberdade são mais fortes!'” (http://pt.euronews.com/2016/12/09/holanda-lider-de-extrema-direita-gert-wilders-condenado-por-discriminacao)

5 Denk é um partido que defende os imigrantes e foi formado por dois deputados que abandonaram o partido trabalhista (ver http://www.esquerda.net/dossier/holanda-sistema-eleitoral-e-partidario/46822)

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