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Holanda: Extrema-direita cresce com islamofobia

Todas as sondagens preveem que, nas próximas eleições de março de 2017, o PVV de Wilders tornar-se-á o maior partido no parlamento holandês. Este partido de extrema-direita assenta a sua política, em primeiro lugar, num discurso islamofóbico e em campanhas anti-imigração.
Geert Wilders, líder do partido holandês de extrema-direita da Holanda - Partido pela Liberdade (PVV)
Geert Wilders, líder do partido holandês de extrema-direita da Holanda - Partido pela Liberdade (PVV)

PVV, um partido islamofóbico

A página1 de Geert Wilders, líder do partido holandês de extrema-direita PVV (Partido para a Liberdade), no twitter tem no top o slogan “Stop Islam”, a palavra de ordem central para a campanha eleitoral.

A escolha não é por acaso, Wilders é um líder xenófobo que faz da islamofobia e do ataque aos imigrantes o centro da sua política. Ele quer “banir todos os símbolos islâmicos, as mesquitas e o Corão2 na Holanda.

Para justificar esta política, Wilders diz que se está a viver uma “guerra contra o fascismo, contra a ideologia totalitária que é o islão”3 e que o seu partido é o único que o combate na Holanda. Wilders usa o ataque aos imigrantes marroquinos e turcos para “gritar” as suas teses e espalhar o medo4.

O governo holandês, e sobretudo o partido de Mark Rutte que o lidera, tem agravado as medidas contra os imigrantes e aprovado medidas discriminatórias de práticas e hábitos muçulmanos.

Em novembro de 2016, o parlamento holandês aprovou uma lei proibindo a utilização de burcas, que cubram o rosto, em espaços públicos como escolas, hospitais e transportes públicos. A lei prevê uma multa até 410 euros, para quem a infrinja. O primeiro-ministro Mark Rutte declarou, numa posição típica do seu partido liberal de direita, que “esta lei não tem nada a ver com religião”, mas sim com segurança. Lamentável é que a lei tenha sido aprovada por 132 votos em 150 parlamentares. Na verdade, só três agrupamentos parlamentares e 18 deputados e deputadas votaram contra a lei que proíbe o uso da burca: Democratas 66 (12), Verdes (4) e os dois deputados do novo partido Denk (2)5.

O crescimento da extrema-direita na Holanda

Este crescimento dá-se a partir de 2002, primeiro com a Lista Pim Fertuyn (LPF) e posteriormente com a criação em 2006 do PVV de Wilders.

Pim Fertuyn, professor universitário de sociologia e homossexual assumido, teve um papel essencial na elaboração da política anti-imigrante e na construção do nacionalismo islamófobo. E, sobretudo, em tornar este discurso e imagem bem diferentes da velha extrema-direita, ultrapassando um seu antigo problema e transformando o discurso tradicional em “formas mais digeríveis para a população dos respetivos países”6.

Stop à indústria do medo, imagem de manifestação na Holanda
Stop à indústria do medo, imagem de manifestação na Holanda

Pim Fertuyn foi assassinado antes das eleições de 2002, mas nessas eleições a sua LPF elegeu 26 parlamentares e ficou em segundo lugar7. Em 2004, foi também assassinado o cineasta e jornalista Theo Van Gogh, também ele xenófobo e islamófobo. Os dois assassinatos constituíram um “choque” profundo na população holandesa e tornaram esta política de extrema-direita mais “digerível” e aceitável.

O PVV, criado posteriormente, elege em 2006, na primeira vez em que concorreu, 9 deputados. Em 2010 veio a obter 24 mandatos e ficando em terceiro lugar no parlamento. Após estas eleições é constituído um governo entre os liberais do VVD e os democratas-cristãos do CDA, que foi suportado no parlamento pelo partido de Wilders. Em 2012, o PVV rompe com o governo, opondo-se a medidas de austeridade impostas pela UE e que VVD e CDA queriam impor, resultando na queda do governo e na realização de novas eleições, em que o PVV viu a sua bancada reduzir-se para 15 parlamentares.

O PVV de Wilders defende a saída da Holanda da União Europeia e a redução da idade da reforma dos 67 para os 65 anos. Ganhou credibilidade com esta sua política (assim como com o aumento dos ataques do Desh na Europa), acabando por aumentar o seu peso político.

Geert Wilders

Wilders nasceu em 1963 e aderiu ao partido VVD, direita liberal, nos anos 90. Em 1997, foi eleito deputado pelo VVD, pela primeira vez.

Em 2004, abandona os liberais e inicia a construção do PVV, que concorre pela primeira vez em 2006.

Internacionalmente, tem relações próximas com os partidos de extrema-direita, UKIP do Reino Unido, a Frente Nacional liderada por Marine Le Pen da França, Liga Norte da Itália e AfD da Alemanha. Tem também excelentes relações com o grupo político que constitui a atual administração de Trump na Casa Branca.

Geert Wilders é um defensor da política de Trump. No twitter saudou a sua vitória, escrevendo: “Uma vitória histórica! Uma revolução! Também nós devolveremos o nosso país aos holandeses”.

No dia seguinte à vitória de Trump, Wilders reuniu na Alemanha com Marine Le Pen (FN), Frauke Petry (AfD) e Matteo Salvini (Liga Norte) e declarou: “estamos a viver tempos históricos. A gente do Ocidente desperta. Liberta-se do jugo da correção política. Quer que lhe devolvam a sua liberdade, a sua soberania nacional, e nós, os patriotas da Europa, seremos o instrumento da sua libertação”. Um perigoso discurso de uma corrente política que faz da islamofobia e do ataque aos imigrantes o centro da sua política antidemocrática.


4 Em dezembro de 2016, Wilders foi condenado por ter incitado à discriminação ao ter defendido que haja “menos marroquinos” na Holanda. No final do julgamento, Wilders declarou ameaçadoramente: “Tenho uma mensagem para os juízes que me condenaram: 'vocês restringiram a liberdade de milhões de cidadãos e, por conseguinte, condenaram toda a gente. Já ninguém confia em vocês mas felizmente a verdade e a liberdade são mais fortes!'” (http://pt.euronews.com/2016/12/09/holanda-lider-de-extrema-direita-gert-wilders-condenado-por-discriminacao)

5 Denk é um partido que defende os imigrantes e foi formado por dois deputados que abandonaram o partido trabalhista (ver http://www.esquerda.net/dossier/holanda-sistema-eleitoral-e-partidario/46822)

(...)

Resto dossier

Amsterdam, Holanda - Foto de Hansphoto/flickr

Eleições na Holanda: da tolerância à extrema-direita?

A 15 de março têm lugar as eleições parlamentares na Holanda. Todas as sondagens preveem que o partido de extrema-direita de Wilders vença as eleições e que os partidos do atual governo, liberais de direita de Mark Rutte e trabalhistas de Dijsselbloem sejam derrotados. Dossier organizado por Carlos Santos.

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Sondagens apontam derrota dos partidos do governo e subida da extrema-direita

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Tweed Kamer - O parlamento da Holanda tem 150 deputados

Holanda: sistema eleitoral e partidário

11 partidos têm atualmente representação parlamentar na Holanda. Os governos são normalmente formados por coligações de dois ou mais partidos. Ao longo de décadas os governos têm sido liderados por democratas-cristãos (CDA), trabalhistas (PvdA) e, na última década, liberais de direita (VVD).

Geert Wilders, líder do partido holandês de extrema-direita da Holanda - Partido pela Liberdade (PVV)

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