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Como a polícia britânica infiltrou a esquerda e os movimentos sociais durante décadas

Um novo relatório mostra a dimensão da infiltração num pequeno partido de esquerda, o SWP. Mas o caso envolve mais de mil organizações. Roubo de identidades de crianças mortas, manipulação de relações íntimas durante anos, tudo valeu para a espionagem político-policial. Por Carlos Carujo.
Manifestação contra a guerra em Londres. Foto de Guy Smallman/Socialist Worker.
Manifestação contra a guerra em Londres. Foto de Guy Smallman/Socialist Worker.

No verão de 2010, por mero acaso e num cenário banal, um casal de namorados em férias e uma carrinha, dá-se o ponto de partida para um dos maiores escândalos de espionagem político-policial dos nossos tempos. No porta-luvas, um passaporte vai ser o objeto que permite começar desfiar o novelo montado pela polícia britânica para infiltrar durante décadas mais de mil grupos políticos e movimentos sociais do país: partidos de esquerda, movimentos ecologistas e pelos direitos dos animais, grupos anti-guerra, anti-racistas e anti-apartheid.

A personagem central desta história é Mark Stone, um ativista ambientalista de longa data que também era conhecido por participar em grupos contra a guerra. Sem ser uma figura de destaque nesses movimentos, tinha tudo para não ser protagonista. Até que a namorada com quem tinha uma relação duradoura calhou a abrir o compartimento da carrinha onde estava um documento em que se começava a mostrar que Mark Stone era afinal só mesmo uma personagem.

Nesse passaporte, o nome que constava era o de Mark Kennedy. Sem deixar cair a personagem, Mark insistiu que se tratava apenas um álibi de uma época passada em que tinha traficado droga. A mulher, junto com vários dos seus companheiros ecologistas, não deixou a mentira passar. Investigou e acabaram por descobrir que ele era um polícia infiltrado há sete anos, casado e com dois filhos.

O caso não parou por aqui e várias das peças soltas deste puzzle começaram a juntar-se. No final de 2011, eram já oito as mulheres que tinham descoberto que tinham mantido relações íntimas de longa duração com polícias infiltrados nos movimentos em que participavam. Um ano depois, o grupo de vítimas era constituído por dez mulheres e um homem. Várias destas relações acabaram subitamente com uma fuga sem explicação e sem deixar rasto quando os superiores ordenavam o fim das respetivas missões. Pelo menos três dos “desaparecidos” desta forma deixaram filhos para trás.

As vítimas avançaram em seguida para um processo judicial contra a polícia por causa dos traumas emocionais sofridos e das sequelas psicológicas com que ficaram. Por seu turno, os chefes policiais começaram por alegar que “sob nenhumas circunstâncias” era permitido ter relações deste tipo com as pessoas alvo de investigação. Ao Guardian, Jon Murphy, porta-voz da polícia, afirmou que isto seria “grosseiramente anti-profissional” e “errado moralmente”. Passados meses, o seu discurso passou a ser que “a realidade é que de vez em quando, as pessoas desenvolvem relações que vão além do que deviam. É responsabilidade dos supervisores monitorizar de próximo e garantir que não acontece”.

Só que os relatos dos próprios infiltrados indicam que tal não seria um segredo muito grande. Um deles, apesar de declarar que nunca tinha avisado oficialmente os seus superiores sobre a relação que mantinha, considerava “irrealista” que estes a desconhecessem. Outro, Peter Black, cuja missão era infiltrar grupos anti-racistas nos anos 90, foi mais longe e disse que o sexo em vez de ser uma infração individual era uma técnica amplamente utilizada para infiltrar grupos e recolher informação. Aliás, a tentativa de desresponsabilização dos responsáveis policiais estava também seriamente comprometida pela dimensão do que se passava: oito entre nove dos infiltrados que tinham sido descobertos até 2012 estavam a ser acusados de ter mantido relações sexuais com as pessoas que espiavam.

O roubo de identidade de crianças mortas

A situação era já escandalosa mas uma nova dimensão foi acrescentada no início de 2013. Uma investigação do Guardian revelava que a Scotland Yard, por intermédio de uma unidade secreta, a Special Demonstration Squad, tinha roubado a identidade de cerca de 80 crianças mortas, emitindo documentos como falsos passaportes, cartas de condução e números da Segurança Social em seu nome para serem usados por agentes com a missão de infiltrar os grupos considerados dissidentes. Sabia-se então que toda operação terá durado entre 1968 e 1994.

Depois da comoção desencadeada por esta notícia, em 2015 foi lançada uma investigação oficial detalhada, liderada por um juiz, o Undercover Policing Inquiry. Em julho do ano seguinte, os pais de 42 das crianças falecidas foram contactados mas o juiz que na altura estava à frente desta unidade, Christopher Pitchford, reconhecia que o número poderia chegar à centena. A investigação oficial continua e lida neste momento com perto de um milhão de documentos e investiga 69 agentes da SDS dos 144 polícias infiltrados reconhecidos.

Em 2017, um novo relatório da investigação avançava outro dado fundamental: os grupos espiados seriam mais de mil. Apesar da pressão de muitas organizações, a lista não foi tornada pública.

Da desculpabilização às indemnizações

Rebatida completamente a tese de que a cadeia de comando nada teria que ver com as condutas de agentes insubordinados, 2015 foi também o ano em que a Polícia Metropolitana de Londres, a famosa Scotland Yard, pediu desculpas individualmente e começou a pagar indemnizações a sete das mulheres que foram manipuladas. Para além destas mulheres, o filho de uma delas recebeu uma indemnização. O pai era um agente infiltrado que o tinha abandonado aos dois anos de idade com o fim da sua missão de espionagem política.

Tal como “Mark Stone”, também “Bob Lambert” estaria longe de ser suspeito nos meios em que se movia. Nos anos 80, passava por anarquista, era ativista de Frente de Libertação Animal e da Greenpeace de Londres. Tinha namorada e um filho com dois anos quando, subitamente, desapareceu. Uma carta de despedida enviada de Valência, em que Bob dizia estar a ser perseguido pelas autoridades, dava a justificação para esse fim abrupto da relação.

Foi só aos 26 anos que, ao ler uma das reportagens do caso no Guardian, o jovem descobriu que o seu pai era um polícia chamado Bob Lambert que tinha tido a missão de espiar Charlotte, a sua mãe, e outros ativistas das causas em que ela estava empenhada. Hoje em dia, Bob Lambert é um professor universitário cuja especialidade é espionagem e atividades anti-terroristas. Também Lambert era casado e com dois filhos na época em que estava infiltrado.

Menores espiados e o caso “orwelliano” do SWP

Passados mais de dez anos, o caso continua a fazer correr tinta e o inquérito oficial parece longe de terminar. Os últimos episódios foram conhecidos a semana passada com a divulgação da extensão da espionagem feita a um pequeno partido trotskista, o Socialist Workers Party e com a revelação de que os chefes do MI5, o Serviço de Segurança Interna do Reino Unido, tinham requerido à polícia a vigilância de menores.

Em 1975, a polícia britânica dedicava-se assim a recolher informações como a de que um rapaz de 17 anos passava “muito do seu tempo livre” em casa da namorada ou a de que outros dois, de 14 e 16 anos, eram “efeminados”. Os vigiados tinham algum envolvimento político, nomeadamente em grupos anti-fascistas como o School Kids Against Nazis, o que era considerado como sendo “atividades subversivas nas escolas”. Também se pediam informações de professores que estivessem a “tentar converter alunos ou a tornar a instalações escolares disponíveis para organizações subversivas”.

Um dos agentes que participou na operação e fez relatórios sobre o SKAN foi Paul Gray, agente infiltrado no SWP e na Anti-Nazi League durante quatro anos. Reconheceu perante a Comissão de Inquérito que havia crianças a serem seguidas porque eram “membros ativos do SWP que participavam em manifestações”.

Precisamente esse partido foi notícia a semana passada. Uma entre mil organizações, o SWP foi alvo de uma atenção peculiar. Entre os poucos milhares de membros, podem contar-se pelo menos 24 agentes policiais que para esse caso estavam destacados. Normalmente estas missões duravam quatro anos.

A infiltração foi até 2007 e da informação recolhida constavam detalhes como a aparência física de membros do partido, o que faziam nas férias, os seus casamentos ou a sua sexualidade, ou documentos sobre as finanças do partido, listas de sindicatos e dos membros do partido que neles participavam, bem como das instituições escolares a que estavam ligados, relatório sobre as conferências anuais do SWP, alguns com mais de uma centena de páginas como a de 1978 ou o de 1980 que foram tornados públicos. O comício anual desse ano do partido também foi infiltrado, com a polícia a recolher nomes e moradas de mais de mil apoiantes.

Lindsey German, uma das dirigentes deste grupo, considera a escala da investigação “orwelliana” e sublinha que muita da informação era “trivial e sem relevância”, sobre eventos públicos, e que era “fácil aderir ao partido”. Poderia parecer que não seria assim tão fácil chegar à sua liderança. Contudo, a investigação mostrou ainda que a polícia tinha um infiltrado “permanente e bem colocado” na organização.

A dirigente partidária critica a vigilância sobre detalhes pessoais e relações e também sobre uma organização que “exercia o direito democrático a organizar-se, protestar, fazer campanhas e educar. Isto não devia ser uma razão para sermos tratados como criminosos”, sublinha.

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