O comité especial da ONU que investiga as práticas de guerra de Israel em Gaza declarou nesta quinta-feira que estas “são consistentes com as características de genocídio”. Até agora as instâncias das Nações Unidas raramente têm mencionado abertamente o termo genocídio, mas desta vez este surge oficialmente.
O Estado sionista é acusado num comunicado de imprensa por este comité de “utilizar a fome como um método de guerra” e assinala as “baixas civis em massa e as condições de risco de vida impostas intencionalmente aos palestinianos”.
Sublinha-se ainda que “desde o início da guerra, responsáveis israelitas têm apoiado publicamente políticas que retiram aos palestinianos as necessidades necessárias para manter a sua vida – comida, água e combustíveis”. Isto junto com “a interferência sistemática e ilegal da ajuda humanitária, deixam clara a intenção de Israel de instrumentalizar os abastecimentos vitais para ganhos políticos e militares”.
Relatório da Human Rights Watch conclui que há crimes contra a humanidade
Uma investigação divulgada pela Human Rights Watch também esta quinta-feira conclui que Israel está a cometer crimes de guerra e crimes contra a humanidade desde outubro de 2023 em Gaza.
O documento de 154 páginas, intitulado “‘Hopeless, Starving, and Besieged’: Israel’s Forced Displacement of Palestinians in Gaza” [“Desesperados, à fome e cercados: o deslocamento forçado de palestinianos em Gaza”], analisa as estratégias empregues pelas autoridades israelitas e que forçaram a fuga de mais de 90% da população do território, para além das mortes e da destruição sistemática de infraestrutura civil. Esta é descrita como “deliberada” e acontece mesmo nas áreas designadas como “corredores de segurança” ou “zonas tampão”.
Conclui-se não haver “nenhuma razão militar plausível” que possa justificar esta expulsão que em muitos casos incide sobre as mesmas pessoas em diferentes zonas.
Para fazer o relatório analisou-se o sistema de evacuação implementado por Israel, incluindo 184 ordens de evacuação, recorreu-se a imagens de satélite e a vídeos e fotografias verificados de ataques nas “zonas seguras” e nas vias designadas para evacuação e foram entrevistados 39 palestinianos.
As provas demonstram que as forças armadas sionistas têm “atacado repetidamente” as “zonas seguras” e vias de evacuação, espalhando deliberadamente “medo e ansiedade”. Estas ordens têm, afirma-se, sido “inconsistentes, imprecisas e frequentemente não comunicadas aos civis com tempo suficiente para permitir as evacuações, ou não foram mesmo comunicadas”. Israel não tem ainda em conta a realidade de pessoas com deficiência ou com dificuldade de mobilidade que não podem sair sem assistência.
Os ataques israelitas “danificaram e destruíram recursos de que as pessoas necessitam para se manterem vivas, incluindo hospitais, escolas, infraestruturas de água e energia, padarias e terrenos agrícolas”. Apesar de ter supostamente a obrigação de garantir o regresso dos deslocados, tem também destruído “intencionalmente” ou “danificado severamente” habitações e infraestrutura necessária à sobrevivência.
O facto desta destruição ser “substancial” indica a “intenção de deslocar muitas pessoas permanentemente”. O nível dos deslocamentos forçados implica que há uma “política de Estado” “sistemática” neste sentido. Dado o facto de as vítimas serem de outra etnia e de tudo isto ser planeado, trata-se assim de uma limpeza étnica, afirma o relatório.
Nadia Hardman, investigadora de direitos dos refugiados e migrantes da Human Rights Watch, sublinha que o governo israelita “não pode afirmar que mantém os palestinianos em segurança quando os mata ao longo das rotas de fuga, bombardeia as chamadas zonas seguras e corta o acesso a alimentos, água e saneamento”. Isto, assegura, viola descaradamente a sua obrigação de garantir que os palestinianos possam regressar a casa, arrasando praticamente tudo em grandes áreas.”
Para ela, “a transferência de mais armas e assistência a Israel pelos Estados Unidos, Alemanha e outros é um cheque em branco para serem cometidas mais atrocidades”.
A HRW defende assim que os Governos devem condenar estes crimes contra a humanidade e pressionar para o seu fim, de acordo com as ordens do Tribunal Internacional de Justiça. Devem ainda adotar sanções e outras medidas, nomeadamente revendo acordos que tenham com Israel.
Chefe da diplomacia da União Europeia defende suspensão de conversações com Israel
Esta quarta-feira, numa reunião com embaixadores, Josep Borrell, representante da política externa da União Europeia, defendeu que, devido às violações dos direitos humanos e do direito internacional, o diálogo político com Israel seja suspenso.
Recordou também que o Acordo de Associação UE-Israel contém disposições juridicamente vinculativas em matéria de direitos humanos e estas não estarão a ser cumpridas.
O ainda alto responsável comprometeu-se, segundo a Euronews e agência noticiosa EFE, a levar a questão à reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da próxima segunda-feira, em Bruxelas, onde dificilmente seria aprovada. Até porque implicaria unanimidade entre os Estados-membros.
A Euronews cita um responsável da União Europeia que, sob anonimato, diz que Borrell não acredita na aprovação de tal proposta mas espera obrigar os vários Governos a tomar posição. Para além disso, “trata-se, antes de mais, de um sinal político de que algo não está bem na relação” e “ao mesmo tempo, seria uma forma de forçar Israel a explicar e justificar finalmente as suas ações”.
Os ataques sionistas continuam nas várias frentes
Estes documentos são conhecidos quando a nova grande ofensiva israelita sobre o norte da Faixa de Gaza continua e quando o seu exército continua a bombardear o Líbano, tendo atingido os subúrbios do sul de Beirute, Shuaifat al-Omrousiya e al-Ghobeiry. Desde terça-feira houve pelo menos seis séries de ataques sobre estas zonas. Os últimos destes mataram pelo menos seis civis e feriram mais 15.
O exército sionista reivindica ter atacado nas últimas 24 horas mais de cem alvos só no sul do Líbano e na Faixa de Gaza.
O Governo do Líbano contabiliza até ao momento mais de 3.365 pessoas assassinadas por Israel, 200 das quais crianças, e 14.344 feridas. Em Gaza, o número de mortes atingiu pelo menos 43.736 com perto de 103.370 feridos.