Bolívia

Com Rodrigo Paz, a Bolívia volta aos braços dos EUA

10 de novembro 2025 - 15:30

O democrata-cristão Rodrigo Paz assumiu a presidência da Bolívia com um governo que restabelecerá as relações a nível de embaixadores com os Estados Unidos. O anúncio coincidiu com a chegada de uma delegação de cem pessoas de Washington, liderada pelo subsecretário de Estado, Christopher Landau.

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Boris Acosta Reyes

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Rodrigo Paz e Marco Rubio.
Rodrigo Paz e Marco Rubio. Foto Departamento de Estado dos EUA.

O democrata-cristão Rodrigo Paz assumiu a presidência da Bolívia com um governo que restabelecerá as relações a nível de embaixadores com os Estados Unidos, reduzidas desde 2008 ao nível de encarregados de negócios por interferência na política interna. O anúncio coincidiu com a chegada de uma delegação de cem pessoas de Washington, liderada pelo subsecretário de Estado, Christopher Landau.

Paz assumiu o cargo neste sábado, após uma viagem a Washington na semana passada, durante a qual se reuniu com o chefe da diplomacia norte-americana, Marco Rubio. Ele venceu a primeira volta de 17 de agosto de forma surpreendente sobre o candidato de direita “Tuto” Quiroga, com 36% dos votos, e conquistou a segunda volta de 19 de outubro com quase 55% dos votos válidos para governar até 2030.

Durante a recente viagem aos Estados Unidos, Paz anunciou processos criminais por “traição à pátria” contra aqueles que impedirem que o combustível garantido chegue por motivos logísticos. “O encontro marca o início de uma nova etapa nas relações bilaterais entre os dois países, orientada a fortalecer o diálogo, a cooperação e o entendimento mútuo, em benefício dos povos da Bolívia e dos Estados Unidos”, afirmou um comunicado do gabinete do novo presidente.

No seu discurso, Paz Quiroga assegurou que o país “nunca mais” estará sujeito a “ideologias falhadas”.

A Bolívia reduziu as relações com os Estados Unidos em 2008 ao nível de encarregados de negócios, quando o ex-presidente Evo Morales expulsou o embaixador desse país, Phillip Goldberg, por interferência nos assuntos políticos internos. Os presidentes da Venezuela, Nicarágua e Cuba não foram convidados para a posse presidencial, e o colombiano Gustavo Petro, o brasileiro Lula da Silva e o presidente cessante Luis Arce faltaram com aviso prévio. Paz teve reuniões com representantes do governo de Donald Trump no início do mês e com o Banco Interamericano de Desenvolvimento e o Fundo Monetário Internacional.

No entanto, após a vitória da direita liberal nas eleições gerais de 17 de agosto passado e a derrota provocada pela divisão do bloco nacional popular, Paz, que se declarava de centro-direita, decidiu distanciar o país da Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América (ALBA) e alinhá-lo com a política do governo dos Estados Unidos.

Gasolina

Durante seu discurso na inauguração de um encontro de empresários em Santa Cruz de la Sierra, Paz insistiu que não se pode “fazer a Bolívia sofrer por causa de alguns corruptos que não permitem que a Bolívia produza e que não permitem que os bolivianos tenham seu diesel e sua gasolina”.

No início deste mês, após uma reunião de Paz no Panamá com autoridades do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe (CAF), que comprometeu um financiamento de 3,1 mil milhões de dólares para a recuperação económica no período 2025-2030. 15% estarão disponíveis a curto prazo.

“Nos sistemas de distribuição e logística, organizem-se, porque já temos gasolina e diesel. Se, por motivos logísticos, a gasolina e o diesel não chegarem (ao país) a partir deste fim de semana, preparem-se, porque vamos processá-los por traição à pátria (...)”, advertiu o dignitário.

Regresso ao colonialismo?

O novo governo inicialmente determinou a substituição da Chacana pelo escudo nacional, como nova imagem institucional. A Chacana é uma cruz quadrada com doze pontas, representa a Cruz do Sul, o seu nome vem do aimará “Jach'a Qhana”, que significa “grande luz resplandecente”, enquanto em quíchua significa escada, é um símbolo milenar dos povos indígenas andinos, da cultura inca na Colômbia, Equador, Peru, Bolívia, Chile e Argentina.

A Chakana, “ponte” entre o mundo humano e o cosmos
A Chakana, “ponte” entre o mundo humano e o cosmos

Da mesma forma, de forma dissimulada, embora à vista dos transeuntes, a Whipala foi retirada da fachada do Palácio do Governo, na praça Murillo, na cidade de La Paz, e nem o governo cessante nem o novo deram qualquer explicação sobre o facto. Este símbolo, que também representa os povos indígenas e a plurinacionalidade, foi retirado dos mastros que se encontram no último andar do chamado Palácio Quemado e substituído por outra bandeira nacional.

Neste sábado, três bandeiras tricolores estavam no Palácio e não deixaram nenhum vestígio da Whipala, que também representa milenarmente os indígenas e povos andinos, principalmente de vários países, não apenas da Bolívia.

Para alguns analistas, este facto não representa apenas um regresso ao colonialismo, mas uma violação da Constituição Política do Estado Plurinacional que, no seu artigo 6.º, parágrafo II, indica: “Os símbolos do Estado são a bandeira tricolor vermelha, amarela e verde; o hino boliviano; o escudo de armas; a wiphala; a escarapela; a flor da kantuta e a flor do patujú”.

Para os setores sociais, a determinação de pretender anular esses símbolos culturais da imagem do Estado representa não apenas um desrespeito e uma afronta principalmente aos povos indígenas, mas também uma gritante ignorância histórica.

À mudança da Chacana e à retirada da escarapela soma-se também o regresso da Bíblia e do crucifixo para juramentos na Assembleia Legislativa Plurinacional, apesar de a CPE estabelecer que na Bolívia existe liberdade de culto.

“A grande questão é”, apontou o analista Hugo Moldiz, “se a gestão de Rodrigo Paz será o encerramento de um processo de transição que começou antes de 2019 ou será o prolongamento desse processo de transição. Estou a falar mais do que de governos de ciclos estatais», acrescentou. «Se o processo de mudança foi um parêntesis na longa história de dominação colonial e burguesa imperial no país, ou se o governo de Rodrigo Paz é simplesmente, como foi o de Áñez, um parêntesis dentro do processo de mudança”.

O analista Rafael Bautista apontou que o triângulo do lítio já não é mais um fator de soberania e “o que resta da nossa riqueza é o preço do ‘apoio’ de Washington ao novo governo”, custo de uma ajuda que a Bolívia pagará por gerações. Na Bolívia, a política do ódio, legitimada pelo racismo senhorial da sociedade urbana, nos devolveu à contradição permanente de um país que se recusa a reconhecer-se na terra que lhe dá alimento, medicina, tradição e até identidade”, acrescentou o autor de “Pensar Bolivia del Estado colonial al Estado plurinacional” (Pensar a Bolívia do Estado colonial ao Estado plurinacional).

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Bautista afirmou que “as ligações com o narcotráfico dos barões da política e a narrativa de um país em falência serão, agora, a chantagem ideal de que Washington precisava para acabar com o Estado plurinacional. A direita tem, graças também ao MAS e ao evismo que lhe deu 2/3 no Congresso, o pretexto ideal para violar todas as exigências. Assim acaba a esquerda: dilacerando outro processo popular, folclorizando uma nova ideia de Estado, e tudo em nome dos indígenas, desacreditando o próprio poder e a própria utopia dos ninguém”.

Com Milei

O presidente ultradireitista argentino Javier Milei e seu homólogo boliviano mantiveram um encontro informal no qual conversaram e manifestaram apoio mútuo. “Sei o que você está a receber e posso dizer isso por experiência própria. No que achar que podemos ajudar, à disposição”, disse o líder do La Libertad Avanza. O líder do Partido Democrata Cristão agradeceu: “Bons conselhos serão dados e nós somos bons em receber conselhos. À disposição também. Somos a favor de mudar a Bolívia e acho que isso é muito importante para todos”.

No final do encontro, eles combinaram de programar a viagem de Paz Pereira à Argentina. “Já lhe ligarei. Em algum momento, terei que ir visitá-lo para retomar uma agenda comum. Já se passaram 20 anos e esta é uma nova etapa”, disse o boliviano. Milei concluiu: “Você é bem-vindo. Eles vão coordenar entre os ministros das Relações Exteriores e faremos uma bela reunião”. A aliança com a Bolívia é fundamental para o governo libertário argentino, que procura fortalecer-se na região. Juntamente com Paz Pereira e Peña, eles integram o bloco da direita no Mercosul, frente à dupla Yamandú Orsi – Lula da Silva. Além disso, à nova onda da extrema direita na América Latina somam-se Daniel Noboa no Equador, Nayib Bukele em El Salvador e José Jerí no Peru. Todos sob a proteção e os desejos de Donald Trump.


Boris Acosta Reyes é sociólogo e jornalista boliviano, colaborador do Centro Latino-Americano de Análise Estratégica. Artigo publicado no site do CLAE.

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