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Colonialismo português foi uma guerra permanente

Durante a apresentação do livro “As voltas do passado – A Guerra Colonial e as Lutas de Libertação”, coorganizado por Bruno Sena Martins e Miguel Cardina, Fernando Rosas defendeu que a obra “torna presente que o colonialismo português desde finais do século XIX é uma guerra colonial permanente”. Por Mariana Carneiro.
Foto Esquerda.net

Miguel Cardina e Bruno Sena Martins são investigadores do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra e estão envolvidos em projetos em torno das memórias da Guerra Colonial: Projeto CROME - Memórias cruzadas, políticas do silêncio: as guerras coloniais e de libertação em tempos pós-coloniais; e Projeto ECHOES - Historicizar Memórias da Guerra Colonial.

É do saber acumulado nesses projetos que resulta o desafio feito a dezenas de autores, “de proveniências demográficas, disciplinares e geracionais diversas para cruzar memórias da Guerra”, como referiu Miguel Cardina.

A obra parte de um conjunto de eventos que os autores consideraram importantes para se perceber aquilo que foi a dinâmica da guerra colonial e das lutas de libertação. É essa a estrutura do livro: 47 eventos, o primeiro deles o Massacre de Batepá, a 4 de fevereiro de 1953, e depois o último, em novembro de 1975, a independência de Angola.

A apresentação do livro, com chancela das Edições Tinta da China, foi efetuada no passado domingo, dia 10 de junho, por Fernando Rosas e Paula Godinho. Existiram ainda intervenções de Bruno Sena Martins e Miguel Cardina.

“Colonialismo português desde finais do século XIX é uma guerra colonial permanente”

De acordo com Fernando Rosas, a obra “é um passo importante no renovar do debate cívico e científico sobre a questão colonial e os sentidos da história colonial e da história da luta de libertação anti colonial”.

Conforme referiu o historiador e académico, “é um livro de ensaios sintéticos de cientistas sociais sobre os factos estruturantes do processo de guerra colonial e da luta de libertação, em que alguns deles referem também o conflito memorial que rodeia esses factos”.

Sublinhando a forma como a obra é capaz de articular a história e a memória, o historiador mencionou “outros contributos muito relevantes”, como o facto de a mesma suscitar “a crítica da versão reabilitadora do luso-tropicalismo e da pseudo-excecionalidade do colonialismo português”.

Segundo Fernando Rosas, a obra “discute o problema das razões do silêncio sobre as violências e os crimes das tropas e das polícias coloniais durante e também antes da guerra” e “contribui ainda para as novas opções metodológicas da nova história colonial”. “Ou seja, investe, ao convidar os autores nesse sentido, para a consideração nesta nova história colonial que está em curso por parte de uma geração, que é a geração dos autores, das múltiplas temporalidades e das análises comparativas como linha de abordagem muito importante desta nova historiografia”, frisou.

O historiador acrescentou também que o livro “torna presente que o colonialismo português desde finais do século XIX é uma guerra colonial permanente”.

"A guerra colonial vem do final do século XIX. As guerras coloniais, as chamadas guerras de ocupação efetiva. Naturalmente, a partir do pós-guerra, a resistência anticolonial toma outra característica, não tribal, não explorável pelo colonialismo, já proto-nacionalista e nacionalista, coisa que não tinha ainda a resistência anterior, mas a guerra colonial é um período longuíssimo praticamente permanente", afirmou.

Fernando Rosas salientou que "as guerras de ocupação, mesmo considerando aquelas que se desencadeiam – porque há outras que começam antes - a partir da Conferência de Berlin, e da ocupação efetiva, são um contínuo até aos anos 30". "Em 1940 ainda há campanhas de pacificação em Angola”, frisou, salientando que "entre os fins dos anos 30, princípio dos anos 40, até à guerra colonial são 20 anos".

"O colonialismo é a guerra, ainda que essa guerra tenha características e etapas diferentes ao longo da história", vincou o historiador.

Livro confronta-nos “com formatos despolitizados da memória”

Paula Godinho, investigadora do Instituto de História Contemporânea, antropóloga e professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, sinalizou que na obra “percorremos o estertor de um império que já estava muito fora de tempo quando decaiu e em relação ao qual continuamos ainda a navegar por vezes em imagens muito dúbias”.  

“As águas turvas em que navegamos são também as águas da colonialidade, e a colonialidade tem a ver com o pensamento colonizado diluído em formatos de despolitização”, avançou Paula Godinho, salientando a importância deste livro “porque, precisamente, nos confronta com esses formatos despolitizados da memória”.

“Uma história da Guerra e das Lutas de Libertação até 2018”

Miguel Cardina assinalou que procuraram, nos convites que fizeram, “uma abrangência que não é comum quando se trabalha, nomeadamente em Portugal, o tema da guerra colonial”.

“A proveniência geográfica, disciplinar e geracional dos contributos é bastante vasta. Temos autores moçambicanos, angolanos, guineenses, cabo-verdianos, franceses, brasileiros… Também a partir dessas inscrições, há um olhar próprio que elas nos trazem, que tem a ver, naturalmente, com o lugar de enunciação, mas também com o tipo de historiografia e de olhar que se tem sobre as questões da memória em diferentes territórios”, vincou.

“Foi na lógica de promover diálogos e cruzamentos a este nível também, que contemple aquilo que o Fernando Rosas aqui chamava à atenção, que este é também um livro de história, um livro que nos traz o enquadramento destes 47 eventos, mas procura ainda perceber como é que esses eventos se foram repercutindo no tempo a seguir a 74 e 75”.

“No fundo, se quisermos, é uma história da guerra e das lutas de libertação até 2018. De alguma maneira foi este o repto que fizemos e é este o resultado que agora se condensa aqui nesta obra”, afirmou.

“Colonialismo é guerra, nas suas diferentes manifestações”

Para Bruno Sena Martins, este livro, “independentemente dos méritos que nele possamos encontrar”, inscreve-se “num olhar que é importante e urgente para o lugar da guerra colonial e das lutas de libertação enquanto um período, um evento, uma tensão histórica que é fundadora e constitutiva das sociedades em que vivemos”.

“No caso português, é muito interessante percebermos este descompasso entre a centralidade que a guerra colonial teve, não só do ponto de vista histórico, da constituição de uma democracia, da produção de um espaço revolucionário, mas também do confronto a que assistimos entre muitas memórias, não só dos ex-combatentes mas de muitas famílias que, de forma indireta, participaram em tudo aquilo que foi essa vaga que promoveu a guerra colonial e como elas foram afetadas, como foram impactadas, e como é que essas experiências foram sendo, de alguma forma, encostadas ao silêncio, ao espaço privado, à memória traumática”, vincou.

O investigador considera que “é muito importante a possibilidade de reconhecermos todo esse espaço social e também as comunidades de memória que agora reclamam e veem a guerra colonial não apenas como uma guerra que os portugueses fizeram em África, não apenas como uma guerra que haveria de abrir caminho ao 25 de Abril, nos termos em que se deu, mas também como parte da violência colonial. Como parte, como dizia o Fernando Rosas, de uma longa história de violência colonial, porque colonialismo é guerra, nas suas diferentes manifestações”.

“E é importante termos hoje comunidades de memória que lembram que as relações de poder que se estabeleceram na sociedade portuguesa, e das quais fazem parte o racismo, o privilégio, são também constituídas pelos termos que produziram um país que, na sua longa história, dependeu ou se inscreveu fortemente na negação, na recusa da humanidade, da dignidade humana de povos racializados e da constituição de toda uma ideia de Nação que, até hoje, precariamente recorda esse passado e precariamente se reconhece enquanto o herdeiro paradoxal, o herdeiro, porventura, ilegítimo, como muitos de nós nos consideramos, dessa memória”, acrescentou.

“Olhando um pouco mais para os países que estiveram na Guerra enquanto luta de libertação”, Bruno Sena Martins fez referência à “ideia de que os Estados nacionais constituem ainda as instâncias privilegiadas de constituição de uma memória pública”.

“Não podemos pensar nenhum dos momentos que aqui estão no livro, nenhuma das datas da Guerra, sem os termos de comparar com a relação de poder que resulta do modo como cada um dos Estados recuperou essa data, esse evento, ou como património fundador da nação ou como memória incómoda”, vincou.

De acordo com o investigador, “é muito significativo” que a guerra não tenha acontecido no território português.

“O simples facto de existir essa distância territorial cria um distanciamento possível. Já nos territórios que a viveram, nos territórios que foram cenário e palco dessa violência, a guerra constitui-se sempre em termos que são mais inescapáveis, por um lado, mas igualmente tensos, e igualmente inscritos nas lutas de legitimidade, de legitimação, que, no fundo, compõem aquilo que se pretende de alguma forma neste livro, que é reconhecer as lutas pela democratização do passado e o reconhecimento das comunidades de memória que tentam recuperar para si um passado que seja menos marcado pelas formas de legitimação constituídas pelos Estados ou pela memória europeia que continua a não inscrever suficientemente a violência colonial enquanto sua”, rematou.

O livro “As voltas do passado – A Guerra Colonial e as Lutas de Libertação” conta com textos de Aida Freudenthal, Albert Farré, Aniceto Afonso, André Caiado, Amélia Neves de Souto, Ângela Campos, Ângela Benoliel Coutinho, Bruno Sena Martins, Carlos de Matos Gomes, Celeste Fortes, Cláudia Castelo, Cláudio Alves Furtado, Diana Andringa, Elsa Peralta, Fidel Reis, Gerhard Seibert, Helena Wakim Moreno, Inês Nascimento Rodrigues, Isabel Maria Cortesão Casimiro, José Neves, José Pedro Monteiro, Julião Soares Sousa, Justin Pearce, Leonor Pires Martins, Leopoldo Amado, Manuel Loff, Marcelo Bittencourt, Margarida Calafate Ribeiro, Maria Benedita Basto, Maria da Conceição Neto, Maria José Lobo Antunes, Maria Paula Meneses, Michel Cahen, Miguel Bandeira Jerónimo, Miguel Cardina, Miguel de Barros, Mustafah Dhada, Nélida Brito, Odete Semedo, Paulo Lara, Raquel Ribeiro, Redy Wilson Lima, Rita Rainho, Rui Bebiano, Sílvia Roque, Sheila Khan, Susana Martins, Teresa Cruz e Silva, Tiago Matos Silva, Vasco Martins e Verónica Ferreira.

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do trabalho
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