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Colonialismo e xenofobia em Ana de Castro Osório

A figura da feminista republicana que nasceu há 150 anos tem sido mais divulgada do que as feministas socialistas ou republicanas mais progressistas mas há contradições no pensamento e ação que devem ser escamoteadas. Por Luís Carvalho.
Biblioteca pessoal de Ana de Castro Osório. Foto: Wikimedia Commons.
Biblioteca pessoal de Ana de Castro Osório. Foto: Wikimedia Commons.

Passa este ano o 150.º aniversário da feminista republicana Ana de Castro Osório.

É uma figura histórica que tem sido mais divulgada em detrimento de outras feministas da época. Como as socialistas Angelina Vidal, Lucinda Tavares e Maria O’Neill[1]. Ou republicanas mais progressistas como Maria Veleda e Adelaide Cabete.

Isto falando apenas de intelectuais, pois também houve então feministas operárias, como as costureiras que lideraram a «União das Mulheres Socialistas em Portugal», fundada em 1912.

Afinal, a história do feminismo em Portugal é mais rica e diversificada. Por outro lado, há contradições no pensamento e ação de Ana de Castro Osório que não devem ser escamoteadas.

Desde logo, a posição que tomou contra uma importante luta de mulheres protagonizada pelas operárias conserveiras de Setúbal, em 1911. Mesmo depois de uma destas operárias ter sido assassinada pela polícia.[2]

Tampouco pode ser ignorada a forma limitada e elitista com que defendeu o direito de voto apenas para uma minoria de mulheres intelectuais, excluindo operárias e empregadas do comércio, mesmo que alfabetizadas.

Não obstante ter dado um importante contributo na luta pela igualdade de género, Ana de Castro Osório representa afinal um feminismo burguês, mais conservador e vesgo perante a desigualdade de classe social.

Contradições que ficam para um próximo artigo. Aqui o foco é outro.

Colonialismo

Françoise Vergès, no seu interessante livro por «Um feminismo descolonial», observa que, naquela época, “raras foram as feministas europeias a serem resolutamente anti-racistas e anti-colonialistas”.[3]

Mas o caso de Ana de Castro Osório é o de uma declarada militante da ideologia colonialista.

Por exemplo, num dos últimos artigos que publica em vida, já em plena ditadura de Salazar, ela exalta Portugal como a “terceira potência colonial do mundo”. E insurge-se “contra os derrotistas de todas as classes que proclamavam a pequenez e a miséria decadente” do país. Contrapõe que Portugal continental era “apenas a Capital florida e linda do grande Império lusitano”.[4]

Este posicionamento não era novidade. Já em 1918, num livro dirigido a crianças, Ana de Castro Osório acusa de serem “ignorantes e malévolas” as pessoas que digam que Portugal é pequeno e fraco. Fala nos “grandes povos colonizadores como nós”, que “sempre, mais ou menos, têm os seus soldados prontos para a defesa da terra que, embora seja de colónias”, é “terra sagrada da Pátria”. E “nós”, portugueses, “temos uma enorme Pátria espalhada pelo mundo”. Mais diz que, “como temos sempre guerras coloniais para manter e defender” essas terras, “o nosso exército tem aí uma escola de energia que nos torna soldados de valor, entre os primeiros”.[5]

“As mulheres e a guerra”

Considere-se também a intervenção de Ana de Castro Osório em torno da 1.ª Guerra Mundial (1914-1918).

Tem sido mais falada a ação humanitária que desenvolve em apoio a soldados e órfãos de guerra, através da associação «Cruzada das Mulheres Portuguesas».[6] Mas há um outro papel que ela desempenha nesse mesmo contexto: o de propagandista da guerra.

Um exemplo concreto passa pelo jornal ribatejano O Debate, publicado em Santarém. É um jornal do partido dominante no regime da 1ª República, e que mais advoga a entrada de Portugal na 1ª Guerra Mundial: o «Partido Democrático», de Afonso Costa e do general Norton de Matos.

Durante a guerra, O Debate publica dois artigos de Ana de Castro Osório com destaque na primeira página.

O primeiro é uma peça de propaganda a favor da entrada de Portugal na guerra. Com um argumentário xenófobo, onde não faltam insinuações de traição e covardia para quem ousasse expressar opinião diferente.

Para Ana de Castro Osório, o interesse de Portugal está em combater ao lado dos aliados, “povos da nossa raça”, da civilização greco-latina. Refere-se à aliança entre França e Inglaterra, à qual também pertence a Rússia dos czares. Mas diz sentir-se “bem ao lado da Rússia, autocrática e bárbara”, alegando que a guerra lhe trará um “alvorecer de liberdade”.

Mais diz que contrariar esta posição é “uma traição de lesa-pátria”, que só merece o seu “desprezo individual e o castigo, que juridicamente se dá aos traidores”.

A responsabilidade da guerra, essa, a seu ver, é só da Alemanha. E aqui não se refere apenas ao Kaiser e ao seu governo, mas ao conjunto do “povo alemão, que há quarenta anos preparava à raça latina esta ratoeira, armando-se até aos dentes como um bandido”.[7]

Como se os governos e classes dominantes em Inglaterra e França não tivessem feito basicamente o mesmo, com a mesma cobiça de grande potência, só que mais adiantados na rapina de colónias, fontes de matérias-primas e mercados. Numa mútua “rivalidade imperialista”, como lhe chama Marc Ferro.[8]

“A paz é a traição”

O segundo artigo de Ana de Castro Osório no jornal O Debate é uma crítica ao então arcebispo de Braga, Manuel Vieira Matos[9], por este ter mandado rezar pela paz na sua diocese.

Reiterando a insinuação de traição, a feminista republicana contrapõe ao arcebispo de Braga que “o que nós queremos não é a paz, é a victória”, com o “triunfo da nossa raça” e da “civilização latina a que pertencemos”.

Às mães dos soldados, Ana de Castro Osório diz: “que não chorem seus filhos mortos no campo da luta, mas sim os devem chorar criaturas miseráveis, enfraquecidas e hesitantes, escondendo-se covardemente” – referência aos soldados que desertam ou que se recusam a combater e se rebelam coletivamente contra a carnificina.

Para ela, preces devem ser “não pela paz que seria a derrota”, mas “pela vitória que vá até ao fim”. E diz mais que, nesse quadro, advogar “a paz é a traição”![10]

A nível internacional, Rosa Luxemburgo apontaria que esta dicotomia, “vitória ou derrota”, era afinal “a palavra de ordem lançada pelo militarismo dominante em cada um dos países beligerantes”.[11]

No contexto português, a propaganda colonialista, xenófoba e belicista, desenvolvida por Ana de Castro Osório, enquadra-se na linha política do «Partido Democrático». E não apaga, de forma alguma, o contributo desta feminista republicana na luta pela igualdade de género.

Mas sublinhamos que, no Portugal da época, existiram outras feministas e com ideias mais avançadas. Cuja memória importa resgatar e valorizar.

Luís Carvalho é investigador.


Notas

[1] Sobre Maria O’Neill: “Maria O’Neill, uma mulher socialista na 1ª República”, in O Setubalense (2022), e ”A feminista Maria O’Neill”, in A Voz do Operário.

[2] Ana de Castro Osório publicou um livro a fundamentar a sua posição: «As operárias das fábricas de Setúbal e a greve – resposta de Ana de Castro Osório ao “Germinal”» (1911). Este “Germinal” era um jornal setubalense de índole anarquista e republicana, com influência no operariado local.

[3] Vergès (2019), Un féminisme décolonial, Paris: La Fabrique éditions, p.31.

[4] “150 anos de Ana de Castro Osório: a sua colaboração no O Setubalense”, in O Setulense (2022).

[5] Osório (1918), De como Portugal foi chamado à guerra, Lisboa: edição «Para as crianças», p.3

[6] Sobre a ação de Ana de Castro Osório na «Cruzada das Mulheres Portuguesas»: Luís Sá et al. (2016), Cruzada das Mulheres Portuguesas, Lisboa: Biblioteca Nacional, livro produzido a partir de uma exposição inaugurada nesse ano de 2016.

[7] “O Debate, 20/01/1916, p.1..

[8] Sobre o “carácter imperialista” de ambas as alianças em conflito na 1ª Guerra Mundial: Marc Ferro (2002), A Grande Guerra 1914-1918, Lisboa: «Edições 70», pp. 35, 37-9 e 71.

[9] Sobre o arcebispo Manuel Vieira Matos, nota biográfica no portal da Diocese de Braga

[10] O Debate, 31/05/1917, pp. 1 e 2.

[11] Luxemburgo, Rosa (1974), A crise da Social-democracia, Lisboa: Editorial Presença, p.163.


Texto publicado originalmente no Mais Ribatejo a 11 de setembro de 2022.

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