Está aqui

Cinema : "Sorry We Missed You", de Ken Loach

Com esta nova história familiar, Ken Loach e o seu argumentista, Paul Lavert, dissecam cada etapa do desastre social e intimo da uberização que provoca, pela implosão de cada indivíduo, a explosão do coletivo. Por Cathy Billard.
Atores de "Sorry We Missed You"
Atores de "Sorry We Missed You", de Ken Loach.

Com esta nova história familiar, Ken Loach e o seu argumentista, Paul Lavert, dissecam cada etapa do desastre social e intimo da uberização que provoca, pela implosão de cada indivíduo, a explosão do coletivo. Cada cena, rodada ao milímetro, combina sobriamente o calor do olhar sobre os membros da família e a implacável mecânica fria do sistema que os esmaga.

Uma vida de precariedade

A história fala-nos especialmente sobre o quotidiano de muitas famílias de ambos os lados do Canal da Mancha. Uma família da classe operária que assumiu o peso de todas as evoluções do mundo do trabalho: Ricky esqueceu-se de como era trabalhar com contratos permanentes; faz trabalhos mal pagos; não hesita "atravessar a rua", mas isso é só para começar, sem fim à vista. Abby trabalha em "serviços humanos", que funciona todo o dia, porque ela tem um contrato de hora zero, pago à "tarefa". Portanto, ela resiste e encontra para levar a cada uma das pessoas ajudadas um pouco de humanidade.

O seu filho de 15 anos está em plena crise de revolta contra a situação que a sociedade está a fazer aos seus pais. Com o seu grupo, foge da escola e o futuro é bloqueado para fazer tags, em lugares improváveis, que ilustram a sua raiva e os seus sonhos de jovens adolescentes em busca de si e dos outros. Quanto à sua irmã,de 11 anos está a aprender a assumir o fardo mental qe pesa sobre as raparigas, procurando resolver qualquer coisa que ameace a sua família. A única coisa que a família tem é o carro de Abby, que lhe permite visitar o maior número possível de pessoas e não voltar para casa tarde demais para vislumbrar os seus filhos, antes de dormir.

Espiral infernal do trabalho uberizado

Então, quando Ricky se encontra esfrangalhado, encontra o patrão da plataforma de entregas que lhe propõe trabalhar para ele sem ser funcionário, "livremente" em função das "suas necessidades", ele tem um desejo irreprimível de acreditar. Ele supera a resistência de Abby, que vende o seu carro para financiar a garantia do crédito na compra de uma carrinha van, degradando imediatamente as condições já precárias do trabalho de Abby e da vida da família. Este é apenas o começo da espiral infernal do trabalho uberizado.

E não é pelo trabalho ser uberizado, mas é toda a sociedade que combina a desintegração das relações de trabalho e dos serviços públicos, reforçando o poder dos proprietários (desde que sejam novos proprietários), colocado sob vigilância de um sistema escolar inquisitorial, rebaixando cada indivíduo à sua responsabilidade individual em absoluta precariedade e a sua incapacidade de superá-la. Muitas vezes, com Ken Loach, só nos  podemos nos identificar com essa família, como e quando o filme é estridente e a raiva que aumenta. Um verdadeiro combustível para uma revolta anticapitalista.

Texto publicado em Viento Sur. Tradução:  António José André

Algumas notas do tradutor:

Aos 83 anos Ken Loach continua a fazer um cinema social imprescindível. "Sorry We Missed You" fala sobre a uberização do trabalho e os dilemas dos Cuidadores Informais. O seu título foi retirado de um panfleto deixado nas caixas de correio, quando não foi possível a entrega da encomenda.

"Sorry We Missed You" é um filme belgo-britânico-francês com a duração de 100 minutos, que foi apresentado a 16 de maio de 2019 (França). Dirigido por Ken Loach, escrito por Paul Laverty e produzido por Rebecca O'Brien. A banda sonora foi composta por George Fenton. Do elenco fazem parte: Kris Hitchen, Debbie Honeywood, Rhys Stone...

Termos relacionados Cultura
(...)