Cimeira dos BRICS: expansão e independência face ao dólar

28 de agosto 2023 - 15:58

Esta cimeira sinalizou ao mundo a importância estratégica destas economias ao defender uma nova forma de alianças diplomáticas e governação internacional. Mas a unidade geopolítica ainda está longe já que os membros têm posições distintas face ao ocidente e a vários conflitos.

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Cimeira de Joanesburgo. Foto de 15th BRICS SUMMIT/Flickr.
Cimeira de Joanesburgo. Foto de 15th BRICS SUMMIT/Flickr.

De 22 a 24 de agosto decorreu em Joanesburgo a cimeira do grupo de economias emergentes conhecida pelo acrónimo BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul). Os chefes de Estado destes países dialogaram sobre o reforço da cooperação de segurança, energética, comercial, económica, social.

BRICS passam a pesar mais de um terço do PIB mundial

Na quinta-feira, o Presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, anunciou a entrada da Argentina, Egito, Etiópia, Irão, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos. Serão membros de pleno direito e efetivos a partir de 1 de janeiro do próximo ano.

O Financial Times sublinha que este novo grupo alargado ultrapassa a dimensão e o peso da riqueza global do G7 – composto por Canadá, França, Alemanha, Itália, Japão, Reino Unido, EUA e a União Europeia como membro não enumerado.

O G7, se não se incluir a UE, contabiliza 9,8% da população mundial e 29,8% do PIB mundial quando calculado em paridade de poder de compra (PPP). Já o novo grupo BRICS representa 47% da população e 37% do PIB mundial em PPP. Para além disso, este grupo detém a fatia de leão das reservas mundiais de petróleo e gás, bem como outros recursos naturais.

Martin Schirdewan, co-presidente do grupo parlamentar A Esquerda no Parlamento Europeu, comentouA expansão dos países BRICS mostra que o mundo está a mudar rapidamente. Se quisermos transformar isto numa oportunidade para a democracia e a paz, a UE deve afastar-se da confrontação com o bloco e ultrapassar o travão da dívida para que possa investir no futuro”, referindo-se à atual revisão das regras orçamentais da UE.

BRICS querem diminuir a sua dependência ao dólar

Para além do seu alargamento, os BRICS pretendem diminuir a dependência externa à moeda norte-americana e consolidar a importância das suas moedas locais.

O Novo Banco de Desenvolvimento, criado em 2015 e conhecido como o “banco dos BRICS”, é atualmente dirigido por Dilma Rousseff, com mandato até 2025. Em entrevista ao Financial Times, esta defendeu a utilização de moedas locais nos empréstimos de forma a encorajar a utilização de alternativas ao dólar nas transações comerciais e financeiras. Esta alteração permite aos mutuários evitarem o risco cambial e as variações nas taxas de juro dos EUA.

O banco planeia começar a emprestar nas moedas sul-africana e brasileira (rands e reais), pensa fazer o mesmo com a moeda indiana (rúpia), sendo que já o faz em moeda chinesa (renmibi).

O presidente Lula da Silva frisou também a criação de uma “moeda de comércio exterior” que permita fazer negócios sem "precisar de uma moeda de outro país". "Porque eu preciso de ter dólar para fazer negócios com a China? O Brasil e a China têm tamanho suficiente para fazer negócios nas suas moedas ou em outras unidades de conta que a gente possa fazer", argumentou.

Defendeu que esta criação de moeda para facilitar trocas entre os membros do bloco não seja feita com pressa, mas insistiu na sua importância para “criar uma certa paridade em trocas comerciais”.

Sul global” exige lugar à mesa nas negociações internacionais

Esta cimeira, conhecida agora como Joanesburgo II, sinalizou ao mundo a importância estratégica destas economias, defendendo uma nova forma de alianças diplomáticas e governação internacional.

No seu discurso, Lula da Silva reiterouO que está em jogo aqui não é a pessoa do governo, é o país, é a importância do país(...) Pelo menos com garantia que [o bloco] vai ser tratado em igualdade de condições e não com a prepotência do senhor de engenho contra o escravo”.

Insistiu na ideia de integrar o Brasil, África do Sul e Índia entre os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Neste momento esse órgão das Nações Unidas é composto apenas por EUA, Reino Unido, França, Rússia e China.

Na declaração tornada pública depois da cimeira, também Pequim salientou a reforma das instituições internacionais saídas do sistema de Bretton Woods de forma a conceder mais poder às economias emergentes. Tradicionalmente, o Banco Mundial é presidido por um cidadão norte-americano e o FMI por um europeu.

Alguns analistas salientam que a unidade geopolítica do bloco é enganosa, uma vez que os países membro têm posições distintas face à relação com as democracias ocidentais e relativamente à guerra na Ucrânia, tal como noutros conflitos no Sudão, Haiti ou Palestina.