Cisjordânia

Cidadã portuguesa amarrada e espancada por colonos israelitas

17 de março 2026 - 12:31

Um violento ataque noturno de colonos israelitas contra uma comunidade palestiniana na Cisjordânia deixou feridas duas voluntárias internacionais e quatro residentes durante o fim de semana. Bloco de Esquerda quer saber se Paulo Rangel vai apresentar protesto ao embaixador e prestar assistência à vítima.

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Uma das tendas onde ocorreu o ataque dos colonos no fim de semana
Uma das tendas onde ocorreu o ataque dos colonos no fim de semana. Foto publicada pelo Haaretz

O diário israelita Haaretz noticia mais um ataque com violência protagonizado por colonos israelitas na Cisjordânia. Desta vez o alvo foi uma comunidade de famílias palestinianas em Khirbet Humsa, no norte do Vale do Jordão.

Segundo os testemunhos, o ataque começou depois da meia noite, quando dezenas de colonos com a cara tapada começaram a invado as construções precárias e tendas onde a comunidade dormia, arrastando homens, mulheres e crianças para fora e espancando-os.

Numa das tendas estavam duas ativistas internacionais dos direitos humanos, cuja presença visa aumentar a proteção destas comunidades ameaçadas. Uma delas é portuguesa e a outra, que falou ao Haaretz, veio dos Estados Unidos. Esta voluntária contou como foram amarradas e espancadas com violência: ”Acordei com a  minha amiga a gritar para nos levantarmos, antes de sermos imediatamente cercadas e encurraladas na tenda por cerca de seis colonos israelitas mascarados, armados com paus de madeira. Eles bateram-nos aos três até nos derrubarem ao chão, esmagando-nos o rosto com os punhos e os paus. Amarraram-nos as mãos e os pés com abraçadeiras e gritavam coisas como: ‘Vamos matar-vos!’”

O terceio elemento era o homem palestiniano que dormia na mesma tenda e acabou por ser sexualmente abusado pelos colonos à frente da sua família. “Eles baixaram-lhe as calças, deitaram-lhe água por cima e espancaram-no brutalmente até o atirarem para o chão. Tudo o que ele podia fazer era encolher-se em posição fetal e gritar enquanto o espancavam com os bastões. Foi uma das piores coisas que já vi”, relata a ativista estadunidense ao Haaretz.

Os colonos continuaram a agredir os membros da comunidade, incluindo as meninas em frente aos seus pais, enquanto roubavam os pertences com algum valor e soltavam o gado. As vítimas do ataque dizem ter reconhecido um dos colonos que agia com cara destapada. “Ele falava em árabe e ameaçou-nos para que partíssemos”, disseram, acrescentando que “caso contrário, voltariam, queimariam as casas, matariam as crianças e violariam as mulheres.”

O ataque durou cerca de uma hora e todos os habitantes foram amarrados. Quando os colonos partiram, os homens que conseguiam andar saíram em busca do gado, mas acabaram detidos por militares israelitas, dando tempo para os atacantes escaparem. O Crescente Vermelho evacuou seis feridos, incluindo as duas ativistas.

Este ataque “é um teste à coerência da política externa portuguesa”, diz deputado do Bloco

Num conjunto de perguntas endereçadas ao ministro dos Negócios Estrangeiros, o deputado bloquista Fabian Figueiredo quer saber se o Governo já prestou assistência à vítima portuguesa e se o ministro irá convocar o embaixador de Israel em Portugal para apresentar um protesto formal e exigir o apuramento de responsabilidades criminais dos agressores.

“A integridade física de cidadãos portugueses que atuam como observadores de direitos humanos não pode ser posta em causa sem que haja consequências diplomáticas sérias”, refere Fabian Figueiredo, acrescentando que “o silêncio ou a tibieza na resposta a este caso seriam interpretados como uma capitulação perante a política de factos consumados que Israel tenta impor na Cisjordânia, esvaziando de sentido a proteção que o Estado português deve aos seus nacionais e o seu compromisso constitucional com a justiça internacional e a autodeterminação do povo palestiniano”.

Por isso, conclui o deputado do Bloco, “este ataque, pela sua brutalidade e pelo perfil das vítimas, constitui um teste à coerência da política externa portuguesa e à sua capacidade de defender os seus cidadãos e os valores que afirma representar no concerto das nações”.