Centeno defende aumento das taxas de juro, restrição dos salários e dos apoios

04 de novembro 2022 - 9:33

Numa entrevista ao Público, o ex-ministro das Finanças e atual governador do Banco de Portugal defendeu o aumento das taxas de juro por parte do Banco Central Europeu e pediu "contenção do nível salarial" e da despesa pública.

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Mário Centeno, governador do Banco de Portugal. Foto: eu2018at/Flickr
Mário Centeno, governador do Banco de Portugal. Foto: eu2018at/Flickr

Apesar das crescentes dificuldades enfrentadas pela maioria das pessoas face à escalada dos preços, o Banco Central Europeu (BCE) não recuou na inversão da política monetária e anunciou uma nova subida acentuada dos juros, da ordem dos 0,75 pontos percentuais.

Numa entrevista ao Público, Mário Centeno veio defender a opção do BCE em subir os juros para conter o aumento dos preços. O ex-ministro das Finanças e atual governador do Banco de Portugal (BdP), cargo que lhe dá um lugar nas reuniões do conselho de governadores do BCE, disse que “a inflação é uma perturbação significativa para o crescimento económico quando é superior a 2%. Esse fenómeno inflacionista por si só, se não estiver controlado, gerará um comportamento negativo da economia e trará recessão.”

Na perspetiva de Mário Centeno, “manter taxas de inflação elevadas tem um custo recessivo maior do que aquele que o aumento das taxas de juro provoca”. No entanto, o governador do BdP não explicou em que dados é que se baseia para afirmar que é preferível aumentar os juros agora, mesmo sabendo que a consequência mais provável é uma recessão acompanhada de um aumento do desemprego e de uma quebra dos rendimentos.

Salários não devem subir e governos devem gastar menos

Apesar da crise que as economias da Zona Euro atravessam, Centeno considera que é importante travar algumas das “pressões” que identifica sobre os preços. A primeira é a dos salários: o governador do BdP pede “contenção do nível salarial”, que considera “essencial para conter a inflação”. Contudo, os salários reais têm caído a pique nos países da Zona Euro, contrariando a ideia de que são responsáveis pela subida dos preços.

A segunda pressão é a das empresas, às quais Centeno pede “um grau de conservadorismo” na definição das margens de lucro, embora não especifique de que forma se poderia atuar para o garantir e acabe por dizer que o aumento dos lucros das empresas após o choque da pandemia é algo que nos deve deixar “otimistas”.

Por fim, a terceira pressão é a da despesa pública. “A política orçamental e a capacidade que tenhamos de ser focada naqueles que mais sofrem com a inflação, não ter medidas transversais que podem elas próprias ser fatores de sustentação dos aumentos dos preços e de prolongamento deste estado de aceleração da inflação”, diz Centeno. Por outras palavras, os governos deveriam apertar o cinto e reduzir a despesa com medidas de apoio.

No Twitter, Mariana Mortágua reagiu às declarações de Centeno: “A inflação é do lado da oferta mas solução está lado da procura, porquê? Porque o aquário de dogmas em que vive não o permite ver mais longe.” A deputada bloquista concluiu que a contenção salarial e o empobrecimento são a marca dos “orçamentos mais à esquerda” do PS.