“São 30 mil”. O número estava presente um pouco por todo o lado nas manifestações do último domingo na Argentina. Em nome da “memória” e da “unidade” e contra o esquecimento, pretendia-se assinalar o 43º aniversário do golpe militar que levou uma brutal junta militar, liderada por Jorge Videla, ao poder. 30 mil é o número estimado das vítimas que deixou para trás.
Em Buenos Aires, as avós, as mães e filhos da Praça de Maio, que continuam a protestar pelo “desaparecimento” dos seus familiares assassinados pelos militares golpistas, não deixaram esquecer, para além do número, as caras, os nomes e os afetos destas pessoas. Uma faixa gigantesca tinha impressas muitas dessas caras a preto e branco. E Estela Carlotto, presidente das Avós da Praça de Maio, lembrou que “continuam a faltar cerca de 300 homens e mulheres que estão entre nós: são trabalhadores, pais, mães, colegas de fábrica, de trabalho, vizinhos, professores dos nossos filhos e filhas (…), estão entre nós, como suas famílias, que os procuramos desde há quatro décadas.” A ativista condenou “os discursos que impulsionam o esquecimento e justificam os delitos contra a humanidade”.
Durante la lectura del documento, Estela pide que aparezcan lxs nietxs que faltan y pide por lxs bisnietxs, que hasta tanto sus padres no sepan su #identidad también ven vulnerada la suya #Abuelas #24MPorLaMemoria #Son30000 pic.twitter.com/1LAjtlpaO1
— Abuelas Plaza Mayo (@abuelasdifusion) 24 de março de 2019
Mas não foi uma manifestação só voltada para passado. Ouvia-se gritar “fora Macri” e, na convocatória assinada por várias organizações de defesa dos direitos humanos, podia ler-se: “manifestamo-nos contra a subjugação quer o governo de Mauricio Macri gera todos os dias: despedimentos massivos, miséria planificada, entrega do país aos abutres, perseguição dos povos originários, perseguição a militantes, as presas e presos políticos, a grave ingerência do governo sobre o poder judicial, retrocessos na Memória, Verdade e Justiça, violência institucional, repressão do protesto social, censura à imprensa, negacionismo.”
Os manifestantes acusaram o governo de “encarceramento arbitrário e ilegal de dirigentes políticos, de grémios e dirigentes sociais”, de “uso indiscriminado da prisão preventiva” utilizada para “deter opositores”, criminalizando quem “questiona as políticas de fome e saque que o governo de Mauricio Macri implementa”.
Dizem que “quando um governo transforma o cárcere num espaço central da política, a democracia está em perigo.”