Centenário de Ernest Mandel: uma biografia sistemática

05 de abril 2023 - 8:25

Neste artigo, Michael Löwy comenta a biografia “Ernest Mandel: o sonho adiado de um rebelde”, acerca do pensador revolucionário nascido a 5 de abril de 1923.

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Imagem do dcumentário "A Man Called Mandel" (dir. Frans Buyens, 1972).

Ernest Mandel: o sonho adiado de um rebelde”[1]  é a primeira biografia sistemática daquele que foi – como afirma Tariq Ali no seu prefácio – um dos pensadores revolucionários mais criativos e independentes do nosso tempo.

O autor é um historiador neerlandês – a primeira edição do livro saiu em neerlandês no ano de 2007, na cidade belga de Antuérpia – que baseou a sua investigação não apenas numa vasta bibliografia, mas também numa grande quantidade de entrevistas pessoais com antigos amigos e camaradas, e, sobretudo, no material fornecido nos arquivos pessoais de Mandel. Trata-se de um trabalho de grande qualidade, que combina o rigor do historiador, uma óbvia simpatia pela personalidade, e uma lúcida distância crítica que previne contra qualquer desvio apologético.

Os capítulos do livro são organizados em parte cronologicamente e de outra parte tematicamente. Nascido em Frankfurt am Main em 1923 no seio de uma família de judeus polacos (não praticantes) com raízes culturais alemãs a viverem em Antuérpia (Bélgica), o jovem Ezra (posteriormente Ernest) descobriu o socialismo aos 13 anos de idade ao ler “Os Miseráveis”, de Victor Hugo!  Mais tarde, afirmou: “As minhas ideias políticas foram ali constituídas, definitivamente, para o resto da minha vida”. O seu pai – de esquerda -, Henri Mandel, cresceu próximo a círculos de trotskistas alemães refugiados na Bélgica após os julgamentos de Moscovo. Em 1938, Ezra, então com 15 anos, entrou no PSR (Parti Socialiste Révolutionnaire), a secção belga da IV Internacional. Sem se deixar intimidar pela guerra e a ocupação nazia na Bélgica, juntou-se à resistência e foi preso pela primeira vez em janeiro de 1943, aproveitando-se de uma desatenção dos seus carcereiros para fugir.

Escriba regular do jornal clandestino de língua alemã “Das Freie Wort” ["A Palavra Livre"], dirigido a soldados alemães, eis o que escreveu em setembro de 1943: “Os assassinos criminosos nazis estão em vias de exterminar centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes e abandonados, considerando estes polacos, russos e judeus como “sub-humanos”… A humanidade civilizada não pode tolerar isso! Cada um de vós, soldados alemães, é cúmplice se não protestar contra estes crimes e preferir ficar em silêncio. Nenhum de vocês pode se esconder atrás de argumentos como “obediência às ordens” ou “o dever do soldado”… A vossa tarefa é parar a bestialidade nazi: os cães raivosos devem ser acorrentados!”. Preso novamente em março de 1944, deportado para a Alemanha, transportado de um campo para outro, voltou a fugir, em julho de 1944, mas foi recapturado um pouco depois e só seria libertado em março de 1945 pelo exército norte-americano. O incorrigível otimismo de Mandel, às vezes acompanhado por uma certa cegueira, ficou patente, como depois testemunhou, na sua atitude no momento da deportação: “Eu estava feliz em ser deportado para a Alemanha, porque assim estaria no centro da revolução alemã!”. Essa fé obstinada na revolução alemã – herdada do marxismo clássico – nunca seria abandonada, até 1990.

Em 1944-46, Ernest Mandel estava convencido da iminência da revolução europeia: o capitalismo teria alcançado a sua fase final de agonia, como Trotsky havia explicado tão bem em 1938. Só a pouco e pouco e conrariado é que ele iria aceitar a realidade do refluxo da onda revolucionária.

Seguindo a orientação do “entrismo sui generis” adotada pela IV Internacional, ele aderiu ao Partido Socialista Belga em 1951, mantendo secreta a sua identidade de líder trotskista (os seus artigos brilhantes na imprensa da Internacional eram escritos sob o pseudónimo de “E. Germain”). Em 1956, ele fundou o semanário “La Gauche”, com a ajuda do sindicalista André Renard e do antigo líder socialista Camille Huysmans; entre os colaboradores estavam Pierre Naville, Maurice Nadeau, Ralph Miliband, Lelio Basso e Ignazio Silone. O jornal teve uma influência real na esquerda socialista e sindical da Bélgica ao inspirar um debate sobre “reformas estruturais” anti-capitalistas. A greve geral belga do inverno de 1960-61 – considerada por Cornelius Castoriadis como “o acontecimento mais significativo do movimento dos trabalhadores após a guerra” – foi analisada por Mandel como a precursora de uma futura radicalização das lutas na Europa. A proibição do “La Gauche” pelo Partido Socialista em 1964 obrigou-o a deixar o partido e a criar a Union de la Gauche Socialiste, que teve pouco sucesso.

Paralelamente à sua atividade na Bélgica, “E. Germain” mergulhou no trabalho teórico – o seu primeiro livro significativo, “Teoria económica marxista” (1962), foi uma tentativa, na altura rara, de ligar teoria económica com história. Ele participava nas disputas internas da IV Internacional, apoiando – com alguma distância crítica – as teses de Michel Pablo: confrontado com o “aproximar da guerra”, o entrismo em partidos de trabalhadores de massa, comunistas ou socialistas, dependendo de cada país, era necessário. A tentativa de impor a entrada no Partido Comunista à seção francesa, de modo autoritário, resultou numa cisão na França e posteriormente na Internacional. Discreto nos seus comentários, Stutje não esconde o seu espanto: “Porquê tanto centralismo excessivo? Porquê coagir?”. Na sua opinião, “Germain” preferiu sacrificar a sua própria opinião para manter a unidade com Pablo. Só em 1963, após um encontro amigável entre Mandel e James P. Cannon, o veterano líder do norte-americano SWP [Socialist Workers Party – Partido Socialista dos Trabalhadores], foi restaurada a unidade da Internacional (ao menos em parte). Durante o congresso de reunificação (em 1963) “Germain” apresentou uma tese sobre os três setores da revolução mundial – uma revolução proletária nos países do capitalismo avançado, a revolução colonial e a revolução política nos países do Leste – o que rompeu com o Terceiro Mundismo de Pablo, que estava na Argélia desde 1962.

Isso não significa que Mandel não estivesse interessado no Terceiro Mundo e em particular na América Latina. Em 1964, foi convidado para ir a Cuba, onde se encontrou com Che Guevara e escreveu uma resposta às teses de Charles Bettelheim, em defesa do planeamento centralizado contra os “mecanismos de mercado” e a predominância da lei do valor. Um segundo encontro agendado com Guevara, a pedido deste durante a sua visita à Argélia em 1965, não chegou a acontecer. Quando Mandel visitou Cuba novamente em 1967, Che já havia partido para a Bolívia. No momento do anúncio de sua morte, Mandel homenageou “um grande amigo, um camarada exemplar, um militante heroico”.

Em maio de 1968 Mandel estava em Paris e participou, na noite de 10 de maio, da construção de barricadas na rua Gay Lussac, no coração do Quartier Latin, com a sua companheira Gisela Scholtz (uma jovem ativista no alemão SDS, com quem ele se casou em 1966) e os seus companheiros franceses da JCR (Alain Krivine, Daniel Bensaïd, Henri Weber, Pierre Rousset, Janette Habel), assim como de um visitante latino-americano: Roberto Santucho, principal líder do PRT (Partido Revolucionário dos Trabalhadores), a secção argentina da IV Internacional.

Pouco depois, em 1969, o 9º Congresso da IV Internacional aprovou por maioria uma resolução, apoiada por Mandel, para adotar uma estratégia de luta armada na América Latina. Stutje questiona-se se mais uma vez Mandel não teria sacrificado sua opinião pessoal em prol da unidade, dessa vez com a juventude da Liga Comunista francesa e os latino-americanos, favoráveis ao novo rumo. Tendo estado presente em tal evento, eu não compartilho desta análise (é verdade que, de 1974 em diante, Mandel distanciou-se das ilusões de tal estratégia. Eu lembro-me de uma discussão informal com ele durante o 10º Congresso Mundial onde eu defendi a orientação “político-militar” dos nossos camaradas na “Facção Vermelha do PRT” – expulsa por Santucho por trotskismo – enquanto Ernest considerou-os condenados à derrota. É claro, ele estava certo.

Ao longo desses anos, Mandel produziu alguns de seus mais importantes livros: “A formação do pensamento económico de Karl Marx” (1967) e “Capitalismo Tardio” (1972). Este último é talvez o seu livro mais influente, apesar da ausência, lamentada por vários dos seus amigos, de uma visão sintética, para além dos brilhantes capítulos sobre diferentes aspetos do capitalismo contemporâneo. Outros importantes escritos deste período incluem o debate sobre Trotsky com Nicolas Krassó nas páginas da New Left Review – o que contribuiu bastante para atrair os seus editores para o marxismo revolucionário – e “Ondas longas de desenvolvimento capitalista – uma interpretação marxista” (1980), a partir das suas prestigiadas conferências realizadas na Universidade de Cambridge.

A influência de Mandel sobre a juventude rebelde estava no seu ponto mais alto e ele foi proibido de entrar em cinco países, incluindo França, EUA e Alemanha. O Ministro do Interior da Alemanha Hans-Dietrch Genscher disse sobre a proibição: “O professor Mandel não só apoia a doutrina da revolução permanente no seu ensino, mas trabalha ativamente por ela”. Karola e Ernst Bloch – o conhecido filósofo marxista alemão – amigos próximos de Ernest e Gisela, escreveram-lhe na altura: “Deves ser mesmo um gigante se eles lhe têm assim tanto medo! És o inimigo número um das classes dominantes”. Note-se que essa proibição não o impediu de entrar clandestinamente na França em várias ocasiões, como em 1971, quando foi fazer um discurso memorável diante de 20 mil pessoas num encontro da IV Internacional no cemitério Père Lachaise por ocasião do centenário da Comuna de Paris.

A morte de seu amigo Rudi Dutschke em 1979, e sobretudo – em circunstâncias trágicas – a da sua companheira Gisela em 1982, foram duros golpes pessoais. Stutje não esconde a sua crítica da incapacidade de Mandel de comunicar com Gisela e ajudá-la a enfrentar as suas crises emocionais. Um ano depois casou com Anne Sprimont, trinta anos mais jovem que ele, cuja firmeza e independência de espírito seriam para ele uma grande ajuda. Nessa altura, a maioria dos líderes da nova geração da IV Internacional estavam convencidos de que o ciclo aberto pelo maio de 68 estava acabado, sobretudo após as derrotas da esquerda em Portugal e Espanha, mas Mandel tinha dificuldade em aceitar a nova realidade: durante o 11º Congresso Mundial (1979) ele prometera que o Congresso seguinte teria lugar numa Barcelona libertada.

Mandel sempre quis ser historiador – foi Michel Pablo que o convenceu a interessar-se por economia política – mas foi só em 1986 que ele publicou por fim o seu primeiro trabalho histórico: “O Significado da Segunda Guerra Mundial”. Embora seja sem dúvidas um trabalho inovador e inteligente, creio que não tem em conta a especificidade da Solução Final. Após receber críticas sobe este aspeto, publicou em 1990 um importante ensaio – que ele incluiu na edição alemã do livro – sobre as “Premissas materiais, sociais e ideológicas do genocídio nazi”.

As reformas de Gorbachev na URSS fizeram renascer grandes esperanças em Mandel e a expetativa de uma iminente “revolução política”; a possibilidade de restauração do capitalismo não foi levada em consideração. O seu entusiasmo seria ainda maior durante as grandes manifestações de novembro de 1989 em Berlim oriental que levariam à queda do muro, que ele testemunhou. Ele acreditava que se tratava da renovação da revolução alemã, derrotada pelo assassinato de Rosa Luxemburgo, e em qualquer caso o “maior movimento na Europa desde maio de 1968, senão desde a revolução espanhola”. Acabaria desiludido após 1990, com a reunificação alemã e o restabelecimento do capitalismo no Leste.

Apesar dessa desilusão, Mandel iria novamente publicar alguns livros significativos: “Poder e dinheiro – uma teoria marxista da burocracia” (Verso, Londres 1991), uma análise das origens sociais da burocracia, e “Trotsky como alternativa” (Verso, 1995), ambos reconhecendo a legitimidade da crítica de Rosa Luxemburgo aos bolcheviques e o desvio “substitucionista” de Trotsky em 1920-21. Durante os seus anos finais, Mandel substituiu o clássico dilema “socialismo ou barbárie” pelo apocalítico “socialismo ou morte”; o capitalismo dirigir-se-ia à destruição da humanidade através da guerra nuclear ou a destruição ecológica. Ao contrário de Stutje, eu não penso que isso se devesse a um “messianismo fanático”, mas sim a uma apreciação lúcida dos perigos.

Stutje afirma, corretamente, que Mandel tinha uma tendência de separar corpo e espírito, e levou um estilo de vida nada saudável: demasiada comida, nenhum exercício. Depois de um ataque cardíaco em 1993, ele teve de reduzir suas atividades. No entanto, concordou – contra o conselho dos seus amigos – em participar em um debate em Nova Iorque, em novembro de 1994, com uma seita “trotskista”, a Liga Espartaquista, cuja especializada era atacar a IV Internacional, e publicou uma longa resposta às suas diatribes. Stutje cita uma carta que eu enviei a Ernest nessa altura: “Essa obscura seita americana permanecerá somente na memória do movimento operário por causa da tua polémica”. A sua última aparição política foi no 14º Congresso da IV Internacional em junho de 1995. Um pouco depois, em julho, ele morreu de um novo ataque cardíaco. A sua cerimónia fúnebre, ocorrida em setembro no Père-Lachaise, juntou muitas pessoas vindas de todo o mundo.

Na sua conclusão, Stutje presta homenagem às excecionais qualidades intelectuais e literárias de Ernest Mandel, e sua confiança ilimitada na criatividade e solidariedade humanas. Ele cita os meus comentários acerca do seu “otimismo antropológico”, a sua confiança na capacidade dos seres humanos de resistir à injustiça. Mas a biografia não leva em conta, parece-me, o meu comentário seguinte: o otimismo da vontade não foi sempre compensado, em Mandel, pelo pessimismo da razão (Veja Michael Löwy, “O humanismo revolucionário de Ernest Mandel” em “O legado de Ernest Mandel”, editado por Gilbert Achcar, Verso, 1999).

De qualquer forma, podemos concluir com o autor deste belo trabalho que Mandel permanecerá um exemplo para as futuras gerações, pela sua obstinada rejeição do fatalismo e da resignação.


Artigo publicado em outubro de 2009 na revista International Viewpoint. Traduzido por Luís Branco para o Esquerda.net
 

Nota:

[1] Ernest Mandel: A Rebel’s Dream Deferred, de Jan Willem Stutje, Londres, 2009, Verso (traduzido por Christopher Beck e Peter Drucker)