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As cartas do cárcere de Nadezhda Tolokonnikova, das Pussy Riot, para Slavoj Zizek

Leia a correspondência entre Tolokonnikova, que atualmente cumpre pena num hospital da Sibéria, e Slavoj Zizek. Artigo publicado em Carta Maior.
Nadezhda Tolokonnikova, da banda russa de punk Pussy Riot, atualmente cumpre pena num hospital da Sibéria.

Nadezhda Tolokonnikova, da russa banda de punk Pussy Riot, atualmente cumpre pena num hospital da Sibéria. Ela, juntamente com mais duas integrantes da banda Pussy Riot, foi condenada por “vandalismo motivado por ódio religioso”, após uma performance da sua banda na catedral ortodoxa Cristo Salvador, em Moscovo, fevereiro de 2012 -elas cantaram uma "oração" punk pedindo à Virgem Maria que protegesse a Rússia de Vladimir Putin.

O seu aprisionamento levou ao noticiário internacional a crueldade e a arbitrariedade da justiça e do sistema prisional russos, ambos constragedoramente obedientes ao Kremlin no caso Pussy Riot.

Nadezhda mantém correspondência com o filósofo esloveno Slavoj Zizek. Eles discutem táticas anticapitalistas, a política russa, Marx, o machismo, o imperialismo. As cartas, originalmente publicadas na Philosophie Magazine, encontram-se traduzidas por Rodrigo Giordano.

Aqui, a primeira carta de Zizek a Tolokonnikova.

2 de janeiro de 2013

Querida Nadezhda,

Espero que você tenha conseguido organizar a sua vida na prisão através de pequenos rituais que tornam essa experiência tolerável, e que você tenha tido tempo de ler. Segue o que penso acerca da situação que você está a passar.

John Jay Chapman, um ensaísta político americano, escreveu sobre radicais em 1900: "Eles estão a dizer sempre a mesma coisa. Eles não mudam; todas as outras pessoas mudam. Eles são acusados dos crimes mais incompatíveis, de egoísmo e sede de poder, indiferença ao destino da sua causa, fanatismo, trivialidade, falta de humor e de irreverência. Mas eles têm algo a dizer, é o poder prático dos radicais persistentes. Aparentemente, ninguém os segue, mas todos acreditam neles." Não é uma boa descrição do efeito das performances das Pussy Riot? Apesar de todas as acusações, vocês tem algo a dizer. Pode parecer que as pessoas não as seguem, mas secretamente, elas acreditam em vocês, elas sabem que vocês estão a dizer a verdade, ou ainda mais, que vocês estão a defender a verdade.

Mas o que é a verdade? Por que as reações com as performances do Pussy Riot são tão violentas, não apenas na Rússia? Todos estavam a torcer por vocês enquanto vocês eram tidas como mais uma versão de protesto democrático-liberal contra o Estado autoritário. No momento em que ficou claro que vocês rejeitavam o capitalismo global, a relação com as Pussy Riot ficou muito mais ambígua. O que é mais perturbador para o olhar liberal é que vocês deixam visível a continuidade escondida entre Stalinismo e o capitalismo global contemporâneo.

Desde a crise de 2008, essa falta de confiança na democracia, antes limitada aos países de economia em desenvolvimento, vai ganhando espaço em países ocidentais. Mas e se essa falta de confiança for justificada? E se apenas especialistas puderem nos salvar?

Mas a crise nos forneceu provas de que esses especialistas não sabem o que estão a fazer. Estamos a ver na Europa ocidental que a elite dominante sabe cada vez menos como governar. É só ver como estão a lidar com a Grécia.

Não é difícil de entender, portanto, que as Pussy Riot deixam todos desconfortáveis - vocês sabem muito bem o que vocês não sabem, e não fingem ter respostas rápidas ou fáceis, mas estão a dizer-nos que os que estão no poder também não as possuem. A vossa mensagem é que na Europa atual, cegos estão a liderar cegos. Por isso é tão importante que vocês persistam. Da mesma forma que Hegel, após ver Napoleão a cavalgar por Jena [cidade da antiga Prússia], escreveu que é como se ele tivesse visto o "Espírito do Mundo" em cima de um cavalo, vocês não são nada menos do que a consciência crítica de todos nós, sentadas numa prisão.

Saudações do camarada Slavoj

Leia o resto da correspondência em Carta Maior: aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

Tradução de Rodrigo Giordano para Carta Maior

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