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Carta aberta exige linhas vermelhas para o resgate à aviação

A iniciativa #SavePeopleNotPlanes já reuniu 70 mil assinaturas dirigidas a treze chefes de governo, entre os quais António Costa. Os subscritores exigem que se aproveite o momento atual para transformar o setor da aviação em favor das pessoas e do clima.

“Numa altura em que a TAP pressiona para um resgate do governo, a ATERRA, ZERO, GAIA, Campo Aberto, Habita, Morar em Lisboa, Casa da Horta, Rede para o Decrescimento, Climáximo, Greve Climática Estudantil e 2degrees artivism, entre 300 organizações de todo o mundo, exortam o governo a resistir a qualquer lóbi para se precipitar em salvamentos injustos da aviação - um setor que fez fortuna nas últimas décadas, isento de vários impostos, enquanto contribuiu severamente para a crise climática” lê-se num comunicado divulgado pela organização em Portugal.

Trezentos cientistas e investigadores, entre os quais Viriato Soromenho-Marques, Gil Penha-Lopes, Anabela Carvalho e Manuel Tão, também subscreveram esta carta aberta, dinamizada pela rede Stay Grounded e que tem ganho visibilidade nos media internacionais.

No documento, exigem que o governo ponha as pessoas em primeiro lugar e apoie os trabalhadores, não os acionistas e os executivos; transforme o setor dos transportes de forma ecológica, reduzindo a procura de transportes aéreos e reforçando alternativas com baixas emissões, como o transporte ferroviário, bem como substituindo postos de trabalho da aviação por empregos para o clima; e ponha termo às isenções fiscais da aviação, instituindo simultaneamente um imposto sobre o querosene e taxas progressivas sobre os voos frequentes.

Os ativistas portugueses deixam o alerta:

“Se é possível agir coletivamente de forma a parar milhares de mortes pelo Covid19, também é possível travar a crise ecológica e efetuar uma transição energética justa, formar trabalhadoras da aviação para uma economia sustentável e resgatar a ferrovia. O regresso à normalidade não pode ser uma opção”, destaca Alexandre Perteguer, da campanha ATERRA.

Francisco Ferreira, presidente da ZERO e investigador do Centro de Investigação em Ambiente e Sustentabilidade da Universidade Nova de Lisboa, lembra que, “antes da crise em março, as emissões de gases de efeito de estufa da aviação atingiram um recorde”, defendendo que “é fundamental que as companhias aéreas tenham contrapartidas que evitem a enorme subsidiação atual".

"Enquanto vemos a enorme perda de direitos e rendimentos sofrida por milhões de trabalhadores, a indústria híper poluente da aviação faz exigências de resgate aos governos, requerendo o dinheiro de contribuintes. Dizemos não ao resgate de quem destrói o nosso planeta. Sim à garantia dos meios de subsistência de quem trabalha: sim à justiça climática, e sim à justiça social", avança, por sua vez, Gil Rodrigues, da Greve Climática Estudantil.

Hans Eickhoff, representante da Rede Para o Decrescimento, adverte que “não podemos retomar uma economia de crescimento infinito, baseada na queima de combustíveis fósseis, e incompatível com os limites biofísicos dos ecossistemas planetários”.

“Precisamos de colocar o bem-estar das pessoas e a mitigação da crise ecológica no centro da nossa ação política, em vez de apoiar uma indústria que já é responsável por perto de 10% de todas as emissões", destaca.

“É necessário limitar o transporte aéreo ao verdadeiramente essencial"

Pedro Jorge Pereira, da Associação Cultural Casa da Horta, sediada no centro histórico do Porto, lembra as consequências da “massificação do turismo”, que tem levado “a um impacto pesadíssimo nas comunidades locais”.

“É necessário limitar o transporte aéreo ao verdadeiramente essencial e é urgente definir limites de sustentabilidade também para a atividade turística", diz.

Em tempo de crise pandémica, Fabiana Pavel, do movimento Morar em Lisboa, considera que temos perante nós “uma janela de oportunidade para a reflexão e ação da cidadania por um outro modelo de cidade: um modelo urbano de decrescimento e sustentabilidade económica, social e ambiental".

A recusa da inevitabilidade é reforçada por Ana Rodrigues, do coletivo 2degreesartivism: "Salvar a aviação sem qualquer tipo de condições é condenar o futuro à repetição de um passado em que a aviação se encaminhava a passos largos para ser a maior fonte de emissões de gases com efeito de estufa”, vinca.

“Não permitiremos que isso aconteça, porque não é inevitável vivermos para sempre numa crise climática que condena milhões à morte. Outro mundo é possível, e com este tipo de mobilização poderemos torná-lo real", acrescenta.

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