O facto da legalização da venda da canábis para uso recreativo ter coincidido com o Ano Novo deu um impulso substancial às vendas no estado norte-americano do Colorado. Mas o efeito novidade de ser possível agora adquirir canábis no mercado legal, com garantia de qualidade e impostos incluídos no preço, não demoveu os consumidores de pagarem mais do que pagariam na semana passada no mercado negro: mais de cem mil encheram as lojas durante a semana e compraram canábis avaliada em cerca de cinco milhões de dólares, de acordo com a estimativa da imprensa local.
O relato de uma proprietária de uma das lojas que vendia canábis medicinal - sujeita a prescrição médica - é elucidativo da sua primeira experiência com a legalização. “Há muito tempo sonhei que abria a minha loja e não tinha concorrência. Não fazia ideia que seria um pesadelo”, disse Robin Hackett ao Denver Post. Várias lojas esgotaram os stocks de canábis e todas foram obrigadas a estabelecer um teto de compra bem abaixo do estabelecido por lei. “Nenhum de nós estava preparado para isto. Sabíamos que ia haver muita procura, com filas enormes. Mas ninguém esperava o que aconteceu na última semana”, refere por seu lado Nick Brow, proprietário de outra das lojas.
Economistas debatem efeitos da legalização
O blogue da Bloomberg faz o ponto da situação das previsões económicas para este mercado da venda da canábis para uso recreativo, que será alargado ao estado de Washington no fim de fevereiro, após referendo no mesmo sentido.
A questão da reação dos consumidores à evolução do preço em relação ao mercado negro é um dos pontos que irá concentrar mais atenção. Para já, o mercado legal vende a grama de canábis a cerca de 10 euros, que inclui dois impostos no valor de 10% e 15%. O valor cobrado é o dobro do que pagam os consumidores com receita médica pela canábis medicinal. No mercado negro, diz um editor da Bloomberg citando a Narcotic News, o preço mínimo é à volta de 4 euros por grama.
Para o economista de Harvard Jeffrey Miron, mesmo que o preço venha a baixar nas lojas após a pressão inicial sobre os stocks, “as pessoas continuarão dispostas a pagar mais por produtos de qualidade”, pelo que não é de prever que haja uma diferença grande no preço praticado em relação ao mercado negro. A diferença está na receita fiscal, que em Washington resultará de taxas de 25% sobre cada uma das fases do processo e de 8,75% sobre a venda. As estimativas apontam para que a fatia de impostos acrescente 37% ao preço pago pelo consumidor a partir de fevereiro.