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Campo de concentração do franquismo começa a revelar a sua história

Uma equipa de arqueólogos encontrou vestígios ósseos e inúmeros artefactos no campo de Albatera, o "mais significativo" de Espanha. Estas descobertas são um passo importante para o resgate da memória dos crimes franquistas, até porque os campos de concentração espanhóis são um tema praticamente inexplorado.
Foto publicada no site da Asociación por la Recuperación de la Memoria Histórica de Aragón

As escavações permitiram ainda, até ao momento, delimitar a localização do campo e localizar toda a extensão na planta de um dos barracões. Munições, insígnias militares, um pequeno pingente religioso, que se supõe ter pertencido a um prisioneiro, e muitas latas de sardinhas, o único alimento que, juntamente com lentilhas, se dava aos presos, são alguns dos artefactos que estão a ajudar a contar a história do campo de concentração.

Conforme explicou à Europa Press Felipe Mejías, que encabeça o grupo de arqueólogos, este é um dos campos "mais significativo de Espanha". Para lá foram encaminhadas pessoas que se tinham refugiado em Alicante mas que não puderam escapar no navio Stanbrook. Entre elas deveriam figurar pessoas próximas e cargos relevantes da cúpula do governo republicano.

Os trabalhos para estudar o campo de Albatera desde um ponto de vista arqueológico começaram há cerca de mês e meio, mediante a garantia de uma subvenção do Departamento de Participação, Transparência, Cooperação e Qualidade Democrática. A equipa é composta por 13 pessoas, entre o grupo de arqueólogos, uma antropóloga forense e investigadores da Universidade de Cádiz. Os resultados são tão animadores que os responsáveis pela escavação solicitaram ajuda ao Institut Valencià de Cultura (IVC) para filmar um documentário científico que mostre o trabalho técnico e, simultaneamente, "um ponto de vista com componente lírico".

"Somos pessoas e emocionamos-nos", comentou Felipe Mejías, sublinhando as histórias humanas que estão por detrás das descobertas que vão fazendo. "Estamos a escavar uma espécie de lixeiras, os poços onde os prisioneiros deitavam lixo, só sardinhas e lentilhas que é o que recebiam, e de facto, muitos morriam de fome". Alguns reutilizavam as latas para cozer erva e outros alimentos que conseguiam. "Agora estamos a encontrá-las".

Estas descobertas são um passo importante para o resgate da memória dos crimes franquistas, até porque os campos de concentração espanhóis são um tema praticamente inexplorado. Mejías assinalou que já passou uma década desde que uma equipa do Conselho Superior de Investigações Científicas levou a cabo escavações arqueológicas no campo de concentração de Castuera (Badajoz), uma intervenção "pioneira", e que, desde então, pouco mais se fez.

"É uma questão por trabalhar. É um tema delicado, que ainda levanta resistências, já que há quem interprete a memória de uma perspetiva errónea; não se trata de abrir feridas, senão de as fechar”.

No horizonte está transformar o campo de Albatera num lugar da memória e fazer um itinerário com paragem em vários locais associados à ditadura franquista.

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