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Brexit: Negociação do referendo foi um "sintoma claro" da desintegração da UE

Segundo Catarina Martins, um eventual Brexit representaria um pior equilíbrio de forças, “com uma Alemanha que manda mais”. Por outro lado, se o Reino Unido votar pela permanência na UE, “haverá cidadãos de primeira e segunda".
Foto Hugo Delgado, Lusa.

"Ainda não sabemos o resultado [do referendo], mas sabemos seguramente que a forma como foi negociado o referendo na Grã-Bretanha é um sintoma claro da degradação e desintegração da UE em qualquer dos cenários", destacou a porta-voz do Bloco durante uma entrevistada à agência Lusa.

 Segundo Catarina Martins, um eventual ‘Brexit' traduzir-se-ia numa "UE em desagregação", num "pior equilíbrio de forças, com uma Alemanha que manda mais, e assim mais avassaladora do ponto de vista dos mecanismos de retirada de soberania", por via da "governação económica", a outros Estados-membros.

 Por outro lado, se o Reino Unido votar pela permanência na UE, "o que ficou negociado é que entre outras coisas passará a ter o direito de distinguir entre cidadãos nacionais e de outros países" do espaço europeu "no que diz respeito a direitos básicos dos trabalhadores, nomeadamente o acesso ao apoio social".

 "Haverá cidadãos de primeira e segunda dentro da UE", numa "corrida para baixo nos direitos de quem trabalha", o que pode "alimentar a pior das xenofobias e dos ódios", alertou a dirigente bloquista.

 “É precisa uma outra postura, menos expectante em relação à Europa”

 Durante a entrevista, Catarina Martins defendeu ainda que a Comissão Europeia e o Conselho Europeu não demonstram "vontade de atacar os problemas financeiros graves" dos países, e Portugal deve adotar uma postura "menos expectante" face a estas instituições.

 "Seguramente não olhamos para a Europa com o otimismo com que olha o Governo", referiu a deputada.

 "É possível encontrar a curto prazo alguns mecanismos importantes do ponto de vista de proteger o país. Agora, é sabido que a nossa divergência com o Governo é sobre um passo maior que pequenas poupanças que esperamos que sejam possíveis já no próximo Orçamento do Estado", avançou a dirigente bloquista.

 Segundo Catarina Martins, “é precisa uma outra postura, menos expectante em relação à Europa, que possa começar a preparar o país para um confronto eventualmente necessário com instituições europeias sobre esta matéria".

 "Não vemos a Comissão Europeia nem o Conselho Europeu com vontade de atacar os problemas financeiros graves da Europa. Este não é só um problema português, nós sabemos. A zona euro tem quase 50% de desemprego jovem. O problema é que não podemos continuar a dizer que como é um problema global não fazemos nada no nosso país. Nós temos responsabilidade com o que se passa neste país com o emprego", advogou a deputada.

 Bloco chega com “mais responsabilidades" à sua X Convenção

 Catarina Martins referiu que o Bloco que se apresenta na Convenção deste fim-de-semana "é um Bloco um pouco diferente", não na essência da proposta política mas na sua dimensão.

 "É claramente um Bloco maior, com mais gente", numa fase de "enormes responsabilidades", por via do acordo parlamentar com o PS que viabiliza o atual Governo, avançou a deputada.

 "Temos enormes responsabilidades hoje, maiores, com o que isso tem de bom: significa que o Bloco tem mais capacidade de determinar o que acontece no país”, acrescentou, reconhecendo que há inevitavelmente "dificuldades" em todo o processo, até porque "o Governo não é do Bloco, é do PS".

 Após a aprovação do Orçamento do Estado deste ano, Catarina Martins assinalou que há agora um "debate difícil" em torno do orçamento do próximo ano, lembrando os "três pilares" do acordo firmado com o PS: recuperação de rendimentos, proteção das relações de trabalho e manutenção do estado social com travão às privatizações.

 "Há uma parte de recuperação de rendimentos que precisa de novas medidas a cada ano que passa", alertou Catarina Martins.

 "Se no orçamento anterior o que foi feito foi parar os cortes de 600 milhões de euros que a direita já tinha prometido a Bruxelas", a verdade é que "as pessoas foram protegidas de cortes mas não sentiram como é que faziam face à inflação", por isso há que "responder" aos anseios dos portugueses, nomeadamente os pensionistas, vincou.

 A X Convenção do Bloco de Esquerda, que irá realizar-se este fim-de-semana no Pavilhão do Casal Vistoso, no Areeiro, em Lisboa, é antecedida na sexta-feira à noite por uma sessão internacional com o mote "O tempo dos movimentos na Europa".

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