Povoações devastadas, rios transvazam, diques rompem, estradas são cortadas, famílias são realojadas e os recursos são mobilizados tarde e insuficientemente. Neste cenário, a comunicação social mantém-se à tona para filmar o desespero. Seja qual for a gravidade da situação, a máquina mediática capitaliza sempre. Num contexto global de enorme incerteza e preocupação, as notícias antecipam a desgraça, tocam na ferida e registam a dor e o sofrimento, impiedosamente.
Quando observamos um repórter mergulhar-se numa tempestade colocando-se numa posição de risco, normalizamos este comportamento e incentivamos a que qualquer outro trabalhador saia de casa numa situação meteorológica de risco. Não são novidade as mortes de civis causadas por uma tentativa de gravar um determinado fenómeno de perto. É necessário que a mensagem de resguardo seja passada primeiro que a mensagem da catástrofe.
A comunicação social e os media são responsáveis pelo enquadramento de um determinado tema na opinião pública. Devem cumprir e, acima de tudo, apelar ao cumprimento das regras e normas de segurança pública. Não obstante, a realidade apresenta-nos o oposto. Os meios de comunicação social apresentam-se numa situação de “exclusividade” ou “impunidade” face ao risco e avisos. Para além disso, procuram chegar próximo às populações afetadas numa ótica de capitalizar o seu sofrimento e, muitas vezes, sem consentimento dos próprios.
Estamos perante os efeitos das alterações climáticas. A natureza é absolutista nas suas vontades. Só nos cabe obedecer às suas exigências e respeitar o limite. Esta consciencialização deveria ser uma prioridade, ao invés do forçoso relato em soluços da chuva intensa onde o repórter se encontra, sem guarda-chuva e ao relento. Não existe qualquer fundamento educativo ou informativo nesta ação.
Posteriormente, as redes sociais assumem o papel de extrapolar o sensacionalismo. As campanhas de recolha de bens, ajuda às populações afetadas e todo esse escudo social para proteger as vítimas da tempestade é engolido por imagens do repórter a ser levado pela corrente ou a desafiar o mar. Perde-se o sentido ético de uma notícia quando a sua transmissão é inconsequente. Isto serve de combustível para que a narrativa permaneça voltada para os problemas ao invés das soluções, o que se traduz numa política populista, teatral e ambígua no seu verdadeiro propósito e missão.
O oportunismo político é uma praga que não olha a meios para atingir os fins. Vale tudo. A solidariedade só acontece se a câmara estiver a filmar. As imagens são adulteradas a posteriori para encenar um ato heroico que, ao fim e ao cabo, trata-se de um dever cívico e moral. As televisões agradecem e as audiências disparam. É uma depressão que diverge em dois sentidos: meteorológica e mediática.
Diogo Russo é mestrando em Ciência Política.