Bote Expiatório

por

Diogo Russo

21 de fevereiro 2026 - 12:10
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Quando observamos um repórter mergulhar-se numa tempestade colocando-se numa posição de risco, normalizamos este comportamento e incentivamos a que qualquer outro trabalhador saia de casa numa situação meteorológica de risco.

Cheias no Mondego
Cheias no Mondego. Imagem Esquerda.net

Povoações devastadas, rios transvazam, diques rompem, estradas são cortadas, famílias são realojadas e os recursos são mobilizados tarde e insuficientemente. Neste cenário, a comunicação social mantém-se à tona para filmar o desespero. Seja qual for a gravidade da situação, a máquina mediática capitaliza sempre. Num contexto global de enorme incerteza e preocupação, as notícias antecipam a desgraça, tocam na ferida e registam a dor e o sofrimento, impiedosamente.

Quando observamos um repórter mergulhar-se numa tempestade colocando-se numa posição de risco, normalizamos este comportamento e incentivamos a que qualquer outro trabalhador saia de casa numa situação meteorológica de risco. Não são novidade as mortes de civis causadas por uma tentativa de gravar um determinado fenómeno de perto. É necessário que a mensagem de resguardo seja passada primeiro que a mensagem da catástrofe.

A comunicação social e os media são responsáveis pelo enquadramento de um determinado tema na opinião pública. Devem cumprir e, acima de tudo, apelar ao cumprimento das regras e normas de segurança pública. Não obstante, a realidade apresenta-nos o oposto. Os meios de comunicação social apresentam-se numa situação de “exclusividade” ou “impunidade” face ao risco e avisos. Para além disso, procuram chegar próximo às populações afetadas numa ótica de capitalizar o seu sofrimento e, muitas vezes, sem consentimento dos próprios.

Estamos perante os efeitos das alterações climáticas. A natureza é absolutista nas suas vontades. Só nos cabe obedecer às suas exigências e respeitar o limite. Esta consciencialização deveria ser uma prioridade, ao invés do forçoso relato em soluços da chuva intensa onde o repórter se encontra, sem guarda-chuva e ao relento. Não existe qualquer fundamento educativo ou informativo nesta ação.

Posteriormente, as redes sociais assumem o papel de extrapolar o sensacionalismo. As campanhas de recolha de bens, ajuda às populações afetadas e todo esse escudo social para proteger as vítimas da tempestade é engolido por imagens do repórter a ser levado pela corrente ou a desafiar o mar. Perde-se o sentido ético de uma notícia quando a sua transmissão é inconsequente. Isto serve de combustível para que a narrativa permaneça voltada para os problemas ao invés das soluções, o que se traduz numa política populista, teatral e ambígua no seu verdadeiro propósito e missão.

O oportunismo político é uma praga que não olha a meios para atingir os fins. Vale tudo. A solidariedade só acontece se a câmara estiver a filmar. As imagens são adulteradas a posteriori para encenar um ato heroico que, ao fim e ao cabo, trata-se de um dever cívico e moral. As televisões agradecem e as audiências disparam. É uma depressão que diverge em dois sentidos: meteorológica e mediática.


Diogo Russo é mestrando em Ciência Política.