A coordenadora do Bloco de Esquerda foi entrevistada para a edição desta sexta-feira do semanário Expresso. As negociações para o próximo Orçamento do Estado (OE) não começaram, mas Catarina avisa que “qualquer OE para ser viabilizado à esquerda tem de determinar as condições do emprego e defender o SNS. É inaceitável o discurso de que cabe à esquerda aprovar o OE do PS, mesmo que o PS não faça um orçamento de esquerda nem o negoceie com a esquerda”.
Questionada sobre o cenário de uma crise política, agitado pelo PS em vésperas de negociação orçamental desde que em 2019 decidiu não renovar os acordos que estiveram na base da “geringonça”, Catarina responde que “não tem de haver nenhuma crise política”, pois “uma esquerda firme em matérias como o trabalho, o SNS ou o sistema financeiro pode conseguir orçamentos que dão soluções muito importantes para o país”.
Nessa negociação, o Bloco afirma ter “toda a disponibilidade negocial para encontrar soluções, que não são, necessariamente, as nossas, porque o Bloco ainda não é Governo”. Mas para já, Catarina vê o Governo “muito concentrado nas questões da presidência europeia” e diz esperar que “em breve, também se concentre num problema enorme, que é dar resposta à crise do país”.
Quantos às linhas de negociação bloquista, não há surpresas: “o reforço dos profissionais do SNS, formas de reforçar a Segurança Social, de combater a precariedade do trabalho, de alterar o sistema financeiro” e também a legislação do trabalho, cuja fragilidade ficou ainda mais exposta com a pandemia.
“O primeiro-ministro considerou um dos maiores erros não ter reforçado os direitos laborais antes da pandemia e reconheceu a precariedade como um dos maiores problemas. Então, porque não fazer um acordo sobre trabalho? O mundo do trabalho vai ter de mudar e é precisa uma resposta da esquerda”, defende Catarina.
“Direita incapaz decidiu apoiar projetos de política de ódio e dar-lhes visibilidade”
Nesta entrevista, Catarina Martins afirmou ainda que “do ponto de vista da disputa da governação, a direita não conta para nada”, dada a falta de peso eleitoral ou de projeto para o país. Mas identifica um problema: “Esta direita incapaz decidiu apoiar projetos de política de ódio e dar-lhes visibilidade. E isso é muito grave porque legitima discursos de ódio”. Para enfrentar essa direita do ódio é preciso responsabilidade e dar respostas ao país, com políticas que façam a diferença na vida das pessoas, pois “o ódio cresce sempre do desespero”, prosseguiu.
Quanto ao facto de esta direita fazer do Bloco o seu principal alvo, Catarina encara-o como “natural”. “A extrema-direita vive de atacar direitos e liberdades de parte da população para tirar vantagens económicas. E não há dúvida de que somos o partido que mais defende direitos e liberdades e, simultaneamente, que mais denuncia os poderes económicos”, afirma a coordenadora bloquista, acrescentando que o alvo é “toda a esquerda”.