Boa parte do investimento direto estrangeiro em Portugal afinal vem… de Portugal

31 de março 2022 - 15:35

O Banco de Portugal alterou a metodologia de cálculo e passou a considerar o país de residência do investidor final. FMI diz que um terço dos fluxos deste investimento passam por "empresas-fantasma" sediadas sobretudo no Luxemburgo e Países Baixos.

PARTILHAR
Foto Jernej Furman/Flickr

O Banco de Portugal (BdP) alterou a metodologia de cálculo das posições de investimento direto estrangeiro (IDE) no país. O investimento direto é o que uma entidade residente num determinado país realiza com o objetivo de controlar ou influenciar a gestão de uma empresa sediada noutro país. O novo método de análise do BdP passou a ter em conta o investidor final em vez do imediato, o que significa, por outras palavras, que considera o país de residência do investidor efetivamente responsável pelo investimento, e não o do responsável nominal.

Com esta alteração, noticiada pelo jornal Expresso, conclui-se que Espanha foi o país de com maior percentagem de investimento direto em Portugal. A China surge agora como o 5º país com mais IDE em Portugal (antes, aparecia apenas no 9º lugar). O IDE chinês totalizou 10,6 mil milhões de euros em 2021, bem acima dos 2,9 mil milhões que eram reportados de acordo com o critério anterior. O que explica esta diferença é o facto de boa parte dos investimentos chineses em Portugal passar pelo Luxemburgo (41%) e por Hong Kong (22%), ao passo que apenas 28% do IDE se materializa através de fluxos diretos entre os dois países. Nos últimos dois anos, o investimento direto chinês cresceu 762 milhões de euros, sobretudo devido ao peso crescente que tem adquirido no sector energético do país.

Em sentido contrário, há países que caem nesta lista: o Luxemburgo passa de terceiro país com uma maior posição de IDE em Portugal para décimo e os Países Baixos caem de segundo para sexto lugar.

Portugal passa a ser o 2º país desta lista, o que significa que, a seguir a Espanha, é segundo local onde reside maior parte dos responsáveis pelo investimento direto no país. Como é que isto é possível? Neste caso, os investidores finais são residentes no país em que o investimento ocorre (Portugal), mas os fluxos podem passar por outros territórios. Isto significa que há uma parte significativa do investimento proveniente de outros países que, na verdade, corresponde a investidores portugueses.

O BdP explica que este fenómeno, denominado “round tripping”, está associado à “passagem do investimento com origem e destino em Portugal por entidades intermediárias residentes nos Países Baixos e no Luxemburgo (59% e 17%, respetivamente).” É muito provável que estes movimentos estejam associados ao facto de os investidores quererem beneficiar dos regimes fiscais mais favoráveis nos países onde estabelecem estes intermediários.

Há duas implicações deste fenómeno. Por um lado, neste caso, o país não está verdadeiramente a atrair investimento estrangeiro nem a obter os benefícios que normalmente se associam a este. Por outro lado, estará a perder receita fiscal para países que oferecem taxas efetivas de imposto mais baixas e estimulam o planeamento fiscal agressivo dos investidores.

Recorde-se que uma investigação recente de economistas do FMI e da Universidade de Copenhaga estimou que mais de um terço dos fluxos de Investimento Direto Estrangeiro (qualquer coisa como 15 biliões de dólares) “passam por empresas-fantasma” que não têm qualquer “atividade empresarial real”. Sem grande surpresa, os dois principais países por onde passam estes fluxos são precisamente o Luxemburgo e os Países Baixos.

Fonte: Financial Times.