O Bloco de Esquerda juntou centenas de aderentes num almoço para comemorar os 27 anos de fundação do partido. Horas antes, os EUA e Israel bombardeavam o Irão e José Manuel Pureza dirigiu as primeiras palavras do seu discurso para “condenar de maneira clara, inequívoca, veemente, o ataque cobarde, o ataque odioso, feito esta madrugada por Israel e pelos Estados Unidos ao Irão”.
“A primeira vez que uma bandeira deste Bloco saiu à rua foi para denunciar a guerra: nem mais um soldado para os Balcãs”, recordou o coordenador bloquista, sublinhando que a luta contra a guerra “foi uma das primeiras e mais importantes bases de lançamento” do partido em 1999 e se manteve durante todo o seu percurso. Incluindo, há quatro anos, “horas depois da invasão” russa à Ucrânia, a participação na manifestação junto à embaixada da Federação Russa em Lisboa para “denunciar a invasão e os imperialismos”.
Ao longo destes 27 anos, prosseguiu Pureza, o Bloco denunciou “ataques à autodeterminação dos povos em todo o lado: dos Balcãs a Timor-Leste, do Iraque ao Sahara Ocidental, da Ucrânia à Palestina e tantos casos mais”.
“Sobre cada uma destas agressões houve sempre alguns e às vezes uns, outras vezes outros, que escolheram, em algum momento, o silêncio”, mas o Bloco “falou sempre”, acrescentou o coordenador bloquista, invocando “essa coerência de quem nunca se calou” para agora exigir ao Governo “a condenação clara deste ataque vil à República do Irão”.
Montenegro “não deixará cair a ministra dos patrões” porque o Governo é “dos patrões”
No seu discurso, o coordenador do Bloco destacou ainda a luta contra o pacote laboral, que este sábado sai às ruas de Lisboa e Porto nas manifestações convocadas pela CGTP, para sublinhar que “a unidade de todos os trabalhadores e de todos os sindicatos está a mostrar uma força como há muito não víamos”.
“Essa unidade e força são imprescindíveis para derrotar o extremismo e o autoritarismo da ministra do Trabalho, mas não nos enganemos: isolar a ministra não é suficiente. Sabemos que Montenegro não deixará cair a ministra dos patrões nem a reforma dos patrões pela simples razão de que este é um Governo dos patrões”, apontou.
Num discurso em que evocou as lutas que definiram o Bloco de Esquerda, seja pelos direitos das mulheres, pela justiça climática e pelo antifascismo, Pureza afirmou que essas lutas tornaram o Bloco no “partido mais detestado pelos chefes da direita e pelos senhores dos negócios”, que sistematicamente recorrem a “mentiras e campanhas de ódio”.
“Eles inventam de tudo e chega a ser comovente ver o tempo que perdem connosco os deputados da extrema-direita, os senhores dos negócios e os ‘spin doctors’ cuja inteligência artificial é realmente a única que têm”, afirmou.
Fernando Rosas: Bloco tem de se preparar para “lutas duras, tentativas de cancelamento e até de liquidação”
O almoço de aniversário contou com as intervenções da dirigente bloquista Anabela Rodrigues e de Fernando Rosas. O historiador e fundador do Bloco de Esquerda considerou o atual momento político que o partido enfrenta como o “mais difícil da sua curta história” e deixou o aviso de que “é bom não ter ilusões” porque “a situação vai piorar” e o Bloco tem que estar pronto para “lutas duras, tentativas de cancelamento e até de liquidação” da sua área política.
Uma aliança que já é maioritária no Parlamento e que dispõe de “uma arma nova e potente: a manipulação algorítmica e informática dos instintos primários da despolitização da iliteracia” através das redes sociais que permitem uma “intoxicação massiva, diária, constante” para explorar “o desespero, o medo e a raiva” de vários setores da sociedade e “transformar o descontentamento com os efeitos da crise do capitalismo tardio em força política cega e obscura”.
Face a esse cenário, apelou aos militantes para que “ousem ir contra a corrente” e não temer estar em minoria, “pois a minoria, muitas vezes, tem razão”. E fazê-lo com organização coletiva nas empresas, nas escolas e nos bairros, pois é necessário “ousar recrutar” e formar novos militantes perante a “aliança que paulatinamente se está a forjar em Portugal, entre a direita e a extrema-direita fascizante”.