Bispo admite que padres acusados de abusos continuam no ativo

26 de outubro 2022 - 12:54

Após a cerimónia de entrega do prémio APAV 2022 à comissão independente que tem recolhido denúncias de abusos sexuais na igreja católica, o bispo auxiliar de Lisboa considerou "preocupante" haver padres denunciados e que não foram afastados de funções.

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Américo Aguiar, bispo auxiliar de Lisboa. Foto Arlindo Homem/Patriarcado de Lisboa/Flickr

Citado pelo Jornal de Notícias, o bispo auxiliar de Lisboa, Américo Aguiar, reconheceu que há padres acusados de abusos sexuais e que continuam em funções, o que considera "preocupante".

"Após uma denúncia e uma conversa do sacerdote com o bispo da sua diocese o normal seria que acontecesse essa decisão [de afastamento]. Não tendo conhecimento do conteúdo das denúncias posso aceitar que existam decisões diferentes, mas o normal é que a decisão fosse o afastamento das funções", afirmou Américo Aguiar na terça-feira.

"Estaria mais descansado se houvesse uma partilha permanente das denúncias a cada diocese pela Comissão Independente, mas compreendo que pudesse causar nas vítimas desconforto ou desconfiança. Se calhar é por isso que não partilham, mas depois não se pode fazer coincidir essa boa vontade que eu acho que seria positiva", prosseguiu Américo Aguiar após a entrega do Prémio APAV 2022 à Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica. O coordenador da Comissão, Pedro Strecht, encarregou o bispo auxiliar de ser o "guardião" do prémio e de o mostrar ao papa Francisco quando vier a Portugal.

Miguel Guedes
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O não afastamento dos padres denunciados também é condenado pelo presidente da APAV. "Independentemente da instituição onde sejam detetados esses casos, a própria instituição tem de ter medidas de suspensão, de fazer com que a pessoa abusadora não esteja perto das vítimas enquanto decorrem outro tipo de abordagens internas", afirmou João Lázaro ao JN.

Ao receber o prémio da APAV com outros elementos da comissão, Pedro Strecht dedicou-o "às vítimas que nos contactaram, a todos e todas que, ao longo destes meses, ousaram dar voz ao silêncio para revelarem situações traumáticas que sofreram enquanto crianças". Mas lembrou que “a Comissão Independente é uma comissão de estudo, criada para funcionar num tempo definido, e não se constitui nem pode constituir-se como estrutura quer de apoio jurídico quer de investigação criminal, quer ainda como equipa de saúde mental”, destacando o papel da APAV no apoio às vítimas em geral e em particular às vítimas de abuso sexual enquanto crianças.

A comissão independente recebeu mais de quatro centenas de testemunhos e faz um derradeiro apelo a que mais gente se possa juntar na denúncia dos abusos cometidos no seio das instituições católicas até ao final da semana.

Segundo o portal 7 Margens, até ao dia 31 de outubro a Comissão receberá testemunhos de vítimas que queiram depor (através do telefone 917 110 000, do endereço eletrónico [email protected] ou do inquérito disponível na página da Comissão www.darvozaosilencio.org). Depois daquela data, continuará a receber testemunhos que eventualmente apareçam, mas que apenas serão referidos estatisticamente no relatório e já não estudados. O relatório final e as recomendações serão apresentadas no dia 31 de janeiro de 2023.