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Banksy: será possível triturar a exposição não autorizada do artista em Lisboa?

A exposição Banksy: Génio ou Vândalo está na Cordoaria Nacional até 27 de outubro. O evento não é reconhecido pelo autor que se opõe à comercialização da sua obra. E o estatuto do artista gera uma disputa simbólica entre a omnipotência da normalização mercantil e a possibilidade de subversão.

Génio ou Vândalo. Pode-se começar pelo mais fácil. A questão que dá o título à exposição de Banksy em Lisboa não é genial ou sequer minimamente interessante para compreender a sua obra ou para pensar o mundo em que se move e nos movemos.

O fake-vândalo introduzido nesta falsa dicotomia não chega a ser irónico numa operação que pirateia a subversão enunciada pelo autor e se apropria do seu valor para transformá-lo à revelia em exposição mainstream.

Mas o facto é que a obra de Banksy, ativista político que é simultaneamente artista anónimo e estrela maior da arte mundial, chegou a Lisboa.

Arte ou Negócio. Chegou e promete assentar arraiais como grande acontecimento cultural da capital portuguesa. Esta exposição é realizada no país por uma empresa promotora de eventos, a Everything is New de Álvaro Covões que se dedica sobretudo à organização de festivais e de grandes concertos. No domínio da arte, já tinha realizado outras grandes exposições como a de Joana Vasconcelos ou a “Prado em Lisboa” no Museu Nacional de Arte Antiga.

Covões assume-se como um empresário da “indústria do entretenimento”, considera que o Estado é um empecilho e queixa-se que este “não tem uma visão empresarial” e, no auge da recente crise financeira, defendia “reduzir o número de trabalhadores na função pública em cem mil”.

Antes de Lisboa, este pouco vândalo Banksy tinha passado por Moscovo, São Petersburgo e Madrid. A organização internacional da exposição é da responsabilidade do gestor geórgio Alexander Nachkebiya, da IQ Art Management Corporation, que acena com o número de 600 mil pessoas que terão até agora visto a exposição. Na Rússia, algumas das maiores empresas do país patrocinaram o evento.

Não se pode saber o que pensaria Banksy dos pontos de vista de Covões ou dos patrocínios arrecadados por Nachkebiya, mas o que sabe é que se opõe à exposição, uma vez que afirmou explicitamente que nunca cobraria nada para as pessoas verem as suas obras de arte. Com a exceção da sua Dismaland, uma vez que a experiência aí era a de entrar num anti-parque de diversões. Ainda assim preferiu reagir com ironia já que “de certeza” que não é “a melhor pessoa para se queixar de pessoas que expõem imagens sem obter permissão.”

No seu site adverte, contudo, que todas as recentes exposições sobre a sua obra “foram inteiramente organizadas sem o conhecimento ou envolvimento do artista. Por favor tratem-nas como tal”, apela sem nunca concretizar o que isso significa.

Banksy ou Banksy. Enquanto ativista, para além de um conjunto de causas concretas, Banksy tem colocado em causa os mecanismos do capitalismo em geral e do mercado da arte em particular. Do outro lado, encontram-se os mercados e a “indústria do espetáculo”, uma realidade que não se pode apagar ignorando-a, e que tem normalizado o fenómeno Banksy a cada momento e imposto as suas regras de valor para além da sua vontade.

Daí que a questão que vem à superfície com esta exposição e outros fenómenos comerciais que cercam o autor é não tanto a disputa entre quem gaba a autenticidade subversiva do autor e quem acusa a sua inevitável cedência ao sistema mas a disputa simbólica entre quem crê na omnipotência da normalização mercantil, face à qual toda a desobediência está destinada a falhar ou a ser obliterada, e quem acredita na possibilidade, seja ela qual for, de uma subversão produtiva.

Certamente que quem quiser ver as 70 obras expostas em Lisboa pagará, no mínimo, 13 euros mas irá deparar aí com qual Bansky se estiver a pagar para procurar um génio?

Certamente que Banksy pode protestar com a exposição e ganhar com o protesto, ficar calado e ganhar na mesma com a exposição, mas mesmo não sendo um vândalo conseguirá, para além da denúncia ou da ironia, meter algum pauzinho na engrenagem da comercialização absoluta?

Ficou célebre a destruição, através de uma trituradora escondida na peça, do stencil de Girl With Balloon durante um leilão, o que gerou este mesmo tipo de debates (entre outros). Pode-se triturar uma obra que foi reduzida ao dinheiro que o capitalismo cultural passará a cobrá-la (e a ganhar com isso) pelo acontecimento. Terá o lucro triturado assim a criatividade?

Não se espera que um Banksy-vândalo surja numa superperformance artística para triturar toda a exposição patente na Cordoaria. Mas ao menos tem por onde passa levantado a questão: e o sistema, pode-se triturar?

Sobre o/a autor(a)

Professor.
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