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Bancos portugueses investiram nas “bombas de carbono” russas

Os megaprojetos de combustíveis fósseis russos receberam em 2021 quase dois milhões de dólares do BCP e do Novo Banco.
Queimar dinheiro. Imagem publicada pelo Lingo.
Queimar dinheiro. Imagem publicada pelo Lingo.

O projeto “Deixe os combustíveis fósseis no solo”, Lingo, do inglês Leave it in the ground, publicou uma lista dos investidores nos projetos chamados “bombas de carbono” da Rússia, os megaprojetos de exploração de carvão, petróleo ou gás fóssil com capacidade para emitir mais de uma gigatonelada de CO2.

Em tudo mundo existirão 425 projetos deste tipo, listados aqui, um terço dos quais em fase de preparação, ainda não tendo começado a extração. Travá-los seria essencial, segundo ambientalistas e cientistas. O mesmo não pensa quem lucra com eles e os financia, sobretudo fundos de investimento e bancos internacionais.

Uma investigação académica publicada o Energy Policy Journal, denominada Bombas de Carbono – Mapeando os principais projetos de combustíveis fósseis” conclui que “desarmar as bombas de carbono deve ser uma prioridade para a política de mitigação das mudanças climáticas”.

Na lista dos países que lideram o megaextrativismo da indústria do carbono quatro países se destacam: China, Estados Unidos da América, Rússia e Arábia Saudita. Portugal não aparece na lista das empresas que implementam estes projetos. Mas aparece na lista das que os financiam, neste caso as russas.

No seguimento da invasão da Ucrânia, o Lingo fez duas listas sobre esta tema. A primeira, a das 41 “bombas de carbono” russas, 23 das quais ainda não começaram a extração. Prevê-se que no total tenham o potencial para emitir 100 gigatoneladas de emissões de CO2. E algumas têm a participação de empresas ocidentais como a francesa Total ou a britânica Evraz. A segunda, a dos investidores neste projetos. Se o critério for o país de origem, os maiores financiadores das “bombas de carbono” de empresas como a Gazprom, a Lukoil ou a Rosneft, são os EUA, o Qatar e o Reino Unido. Se olharmos concretamente para as empresas, destacam-se a Autoridade de Investimentos do Qatar e fundos de investimento norte-americanos como o Vanguard, o Capital Group e o BlackRock, para além do Fundo Norueguês de Investimentos, o Schroeders do Reino Unido, o BNP francês e o Deutsche Bank alemão.

Nesta lista de financiadores constam ainda dois bancos portugueses. O Banco Comercial Português, em 2021, investiu em três destes projetos, da Lukoil, da Gazprom e da Novatec, tendo desembolsado, respetivamente, 0,695, 0,648 e 0,307 milhões de dólares. No mesmo ano, o Novo Banco investiu numa “bomba de carbono” da Gazprom 0,185 milhões de dólares. O total é de quase dois milhões de dólares.

Os ambientalistas apelam aos clientes para “enviar um nota amável” pedindo a estas instituições para “deixaram de apoiar a guerra e a crise climática”, escreve o diretor da Lingo, Kjell Kühne, sublinhando que até a Agência Internacional de Energia recomendou que se deixem debaixo de terra as reservas de gás natural e petróleo de forma a combater o aquecimento global.

Em maio, mais de 70 organizações não governamentais juntaram-se numa rede internacional chamada “Desarmar as bombas de carbono”. Para além de partilharem informação e recursos, as organizações juntam-se à volta de plataformas sobre cada um dos projetos ou grupos de projetos.

Uma destas plataformas é a que se dirige às “bombas de carbono” russas, chamado “Desabasteçam a Guerra da Rússia” que também criou uma lista de todas as empresas que continuam a negociar com gás, petróleo ou carvão com esta proveniência.

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