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“BAAN”: Leonor Teles quis “procurar Lisboa na Ásia, procurar a Ásia em Lisboa”

Dentro de Lisboa “existem outras cidades que nós nunca chegamos a habitar, nem sequer a conhecer (…) e acho que há uma dimensão asiática em Lisboa que é muito viva, muito forte, e se calhar muito ignorada”, diz a realizadora Leonor Teles numa entrevista ao Público.
BAAN, de Leonor Teles
"BAAN" (2023), de Leonor Teles - Produzido por: Uma Pedra no Sapato

Estreada a 8 de fevereiro nas salas de cinema nacionais, “BAAN” é a primeira longa-metragem de ficção da realizadora, depois do documentário “Terra Franca” (2018) e das curtas-metragens “Balada de um Batráquio” (2016) e “Cães que Ladram aos Pássaros” (2019).

“BAAN”, que em tailandês significa “casa”, conta a história de L (Carolina Miragaia), uma jovem arquitecta, que conhece K (Meghna Lall), uma rapariga de origem tailandesa com perfil de “nómada digital”. O filme acompanha os desafios da vida adulta, a carreira profissional e os traumas dos relacionamentos tornam-se avassaladores.

Baseando-se na sua experiência pessoal, Leonor Teles estreia-se na ficção com uma história de cidades (Lisboa e Banguecoque) que deixam de ser casa para as duas personagens, sobre o presente e futuro de uma geração que sente na pele a crise da habitação, a que se juntam outras camadas sociais como a gentrificação e a multiculturalidade que se sente nos grandes centros urbanos.

Já em “Cães que Ladram aos Pássaros” (2019), um híbrido entre documentário e ficção, Leonor explorava o território de uma família que é obrigada a sair da casa no centro do Porto por causa da especulação imobiliária que se agravou em 2018.

Ao Público, Leonor diz que em “BAAN” “queria entrar a fundo na ficção”. “E ver o que podia fazer com as ferramentas que tinha disponíveis, tendo sempre a ideia de tentar não me repetir: o que já fiz já fiz, agora quero seguir uma ideia diferente.”

Leonor faz o desenho de uma cidade mesclada, onde Lisboa e Banguecoque se fundem, mas muito real. “Mesmo dentro da cidade que nós conhecemos existem outras cidades que nós nunca chegamos a habitar, nem sequer a conhecer”, diz Leonor, “e acho que há uma dimensão asiática em Lisboa que é muito viva, muito forte, e se calhar muito ignorada”. “Tinha muita vontade trabalhar o espaço, de trabalhar a criação de um espaço cinematográfico, e de juntamente com isso trabalhar um lado emocional.”

Sobre as dinâmicas da imigração e das bolhas de privilégio, Leonor diz ao Público que “cada círculo social tem as suas próprias questões, e todos eles estão inseridos numa sociedade capitalista que faz toda a gente andar na roda, quer queira quer não”. E não anatemiza: “Temos a mania de ter certezas, mas sabemos lá o que é que se passa na casa e na vida das pessoas. E mesmo todos estes estrangeiros que vivem actualmente em Lisboa, só temos acesso a uma pequena parte da vida deles.”

Filmado em 16mm na Tailândia, e com direção de fotografia da própria realizadora, a estética do filme inspira-se no cinema do cineasta chinês Wong Kar-Wai, em filmes como “Felizes Juntos” (1997) ou “Chungking Express” (1994): “É a minha grande referência estética, toca-me fundo, e nem sequer encontro nenhuma razão lógica, é algo sobretudo emocional.”

Da produtora Uma Pedra no Sapato, Leonor Teles assina também o argumento deste filme que é produzido pela Filipa Reis e protagonizado por Carolina Miragaia e Meghna Lall. Depois da estreia mundial na última edição do Festival de Locarno, o filme encontra-se em exibição nas salas de cinema portuguesas em 22 cidades.

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