Atual governante pediu indemnização à CP sem revelar que ia para a AMT ganhar o dobro

06 de junho 2024 - 11:13

Em apenas 24 horas Cristina Dias conseguiu enviar o pedido de rescisão, vê-lo aprovado, obter o cálculo da indemnização e ainda teve direito a dispensa do tempo de serviço para a renúncia.

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Cristina Pinto Dias
Cristina Pinto Dias na tomada de posse do atual Governo. Foto Miguel A. Lopes/Lusa

O escândalo que envolve a indemnização milionária recebida pela atual Secretária de Estado da Mobilidade em 2015, quando passou da administração da CP para a da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes (AMT) em 2015, por nomeação do governo de Passos Coelho, continua a ter desenvolvimentos.

O caso foi notícia na altura por ter sido atribuída a Cristina Dias uma indemnização de cerca de 80 mil euros ao abrigo dos processos de rescisão por mútuo acordo na empresa ferroviária, processos que na altura, revelaram fontes sindicais, eram negados a muitos trabalhadores da empresa. No caso de Cristina Dias o direito a indemnização provocou indignação maior pelo facto de administradora sair da empresa para ser nomeada para outro cargo no Estado, onde passou a ganhar quase o dobro do salário que auferia na CP.

O parecer interno da CP a justificar o pagamento da indemnização nunca foi encontrado, se é que chegou a existir. E o Público confirma esta quinta-feira que na carta que escreveu ao presidente do Conselho de Administração da CP na altura, Manuel Queiró, Cristina Dias nunca refere que o motivo do pedido de rescisão é o facto de estar nomeada pelo Governo para assumir funções noutro organismo do Estado, ao contrário do que afirmou a própria governante em resposta à polémica agora regressada.

A verdade é que o processo de rescisão de Cristina Dias correu à velocidade de um TGV no circuito interno da empresa. Em apenas 24 horas enviou a carta, viu o pedido aprovado pela administração, teve as contas da indemnização calculadas pelos serviços e ainda foi decidido que não teria de cumprir o tempo de serviço para efeitos de renúncia, podendo tomar posse de imediato na AMT.

Manuel Queiró tinha dito ao Correio da Manhã que se soubesse que a razão da saída era a nomeação para a AMT "o tratamento dado à indemnização não seria o mesmo”. Mas o acordo para a rescisão só foi assinado no dia seguinte à reunião da administração que o aprovou, numa altura em que toda a gente sabia qual era o destino de Cristina Dias. E sete dias antes da saída com indemnização, o então gabinete do então ministro do CDS Pires de Lima já tinha informado o Parlamento que Cristina Dias era um dos nomes a designar para a administração da AMT.

Agora, o responsável pela tutela dos Transportes nesse governo PSD/CDS, Sérgio Monteiro, diz que o debate sobre a saída de Cristina Dias já passou “das questões da legalidade para as questões de ética“, acrescentando que estas “não são menos importantes”. Para o ex-governante, “a ética e moral ficam no juízo de cada um, eu não sou polícia, nem ético, nem moral de quem quer que seja”.