Mais do que a resposta pronta das estruturas do Estado central, tem sido a solidariedade entre as pessoas e os meios das autarquias a tentar minorar os efeitos da depressão Kristin que varreu o país no final de janeiro e das sucessivas tempestades que causaram cheias nos últimos dias.
Os problemas começaram mesmo antes de o vento começar a soprar forte. O SMS de alerta foi enviado para todo o território com a mensagem “vento intenso até 140km/h nas próximas horas na sua região” e um conselho genérico: “Fique atento. Siga as recomendações das autoridades”. Sem instruções claras sobre o que fazer nem a determinação das zonas mais vulneráveis, o alerta serviu de pouco. Dias depois soube-se que o responsável máximo da Proteção Civil nem se encontrava em Portugal nessa altura, estando na Bélgica numa ação de formação.
A tempestade abateu-se em especial sobre o centro do país na madrugada de quarta-feira, 28 de janeiro, e ao início da manhã eram já muitos concelhos sem eletricidade e comunicações e alguns sem água. O cenário mostrava muitos milhares de telhados levantados, árvores cortadas e postes no chão. Ao apelo dos autarcas para o decretar imediato do estado de calamidade, o primeiro-ministro respondeu que era preciso primeiro fazer um levantamento da situação e para isso enviaria dois secretários de Estado à região de Leiria. Ao seu estilo, Luís Montenegro exprimiu em nome do Governo “o nosso sentimento e as nossas condolências para com as famílias daqueles que não conseguiram evitar a trágica consequência de perder a vida.” E na primeira visita às zonas afetadas, elogiou “a experiência das companhias de seguros que têm demonstrado solidariedade agilizando os mecanismos de reparação às pessoas e empresas com que têm contratos de seguros”.
Ministros na tempestade: do elogio da “invisibilidade” à caça de likes e partilhas
No dia seguinte eram já muitos os autarcas a exigir a declaração de estado de calamidade e a dizerem não terem sido contactados pelo Governo. Alguns ainda desculpavam o executivo por não terem rede no telemóvel, recorrendo à rede SIRESP dos bombeiros, que também voltou a falhar durante a catástrofe.
Foi preciso esperar até ao Conselho de Ministros de quinta-feira para se decretar finalmente o estado de calamidade e ainda outro dia para a ministra da Administração chegar ao terreno a falar em público pela primeira vez, na sexta-feira dia 30, assegurando ter estado a trabalhar “em contexto de invisibilidade, no gabinete”. Mais tarde soube-se que tinha mantido a agenda oficial de quarta-feira, quando a devastação já acontecera e se contavam as primeiras vítimas mortais. Maria Lúcia Amaral participou com o seu secretário de Estado, Paulo Ribeiro, numa cerimónia de entrega de espadas no comando da GNR em Lisboa. O mesmo secretário de Estado que ao fim da tarde de dia 28 anunciaria aos militantes do PSD/Setúbal a boa-nova da sua recandidatura à distrital do partido.
Se a ministra pode ser criticada pela busca de “invisibilidade” durante a catástrofe, o mesmo não se pode dizer de outros membros do Governo. A começar por Leitão Amaro, que desde cedo quis ser a cara mais visível do Governo a mostrar trabalho, fazendo-se filmar dentro do gabinete ao telefone e no computador, dando a aparência de estar em cima do assunto. O vídeo não durou muito nas redes sociais: o próprio ministro mandou-o apagar após ser ridicularizado pelas críticas.
O ministro Nuno Melo também viu na ocasião um bom momento para a autopromoção. Mas ao contrário de Leitão Amaro, investiu mais recursos do Estado na produção do evento, convocando um grupo de militares para limpar uma estrada rural enquanto se fazia filmar para as redes e televisões. O problema é que quando o ministro e a sua equipa de comunicação se foram embora, as televisões ficaram a ouvir os populares indignados sobre a encenação a que acabavam de assistir, enquanto os militares abandonavam também o local. Soube-se mais tarde que apenas quatro militares tinham sido formalmente mobilizados no dia 28 para acudir à tragédia.
Atraso nos apoios
Pureza aponta “falta de empatia e decência” ao ministro Castro Almeida
O estado de calamidade foi inicialmente decretado apenas até dia 1 de fevereiro, quando as previsões apontavam para a continuação das tempestades até meados do mês. Nesse dia, o Governo voltou a reunir-se para o prolongar até dia 15 e aprovar um pacote de medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros. Mas o apoio imediato às populações para reconstruir os seus telhados ficou a cargo das ações de solidariedade que mobilizaram autarcas, empresas de construção e voluntários.
Questionado sobre a urgência desse dinheiro para fazer face às despesas imediatas, o ministro Castro Almeida respondeu que “é suposto as pessoas terem recebido o salário” de janeiro. Para se candidatarem aos apoios, o Governo disponibilizou um site, ao qual as populações sem eletricidade e internet ainda hoje não conseguem aceder.
Uma semana e meia após a tempestade, as populações afetadas continuam a sentir-se abandonadas pelo poder central. Muitas ainda não viram reposta a eletricidade em casa ou continuam a sofrer cortes no abastecimento elétrico. Todas se queixam que a resposta do Governo seria diferente se a catástrofe se tivesse abatido sobre Lisboa ou Porto, mais próximo do centro do poder.
Quando foi ao terreno, a ministra Maria Lúcia Amaral disse que todos estavam em “aprendizagem” perante a situação. De facto, nesta semana e meia os afetados aprenderam que só podem contar com as redes de solidariedade que recolheram e entregaram alimentos, roupas, artigos de higiene e material de construção. Do Governo, só receberam até agora incompetência e cálculo político.