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Até domingo, o Porto volta a receber a Mostra Internacional de Cinema Anti Racista

Para além das obras cinematográficas que serão exibidas, a MICAR enriquece-nos, já a partir desta sexta-feira, com “os debates e as reflexões que elas suscitam”. Joana Santos, do SOS Racismo, falou com o Esquerda.net sobre o propósito da iniciativa e a programação deste ano. Por Mariana Carneiro.

“O objetivo desta Mostra é proporcionar, num espaço central, público, e a todas as pessoas, o debate das questões antirracistas, e contra a discriminação e a xenofobia, através do cinema, tendo em conta que o Porto tem alguma tradição de festivais de cinema de qualidade”, explicou Joana Santos.

Para além das obras cinematográficas que serão exibidas, a MICAR enriquece-nos, já a partir desta sexta-feira, com “os debates e as reflexões que elas suscitam”. Ou seja, para além do cinema, serão três dias de debate antirracista, protagonizado por David Pontes, Paula Guerra, José Falcão, Joseph da Silva, Piménio Ferreira, Emicida, Marta Lança, Mamadou Ba, Gisela Casimiro, por elementos dos coletivos Bagabaga e Bataclan 1950 e, claro, por todas aquelas e todos aqueles que se queiram juntar a esta iniciativa.

De acordo com Joana Santos, acaba por existir, todos os anos, alguma temática que vai guiando a pesquisa dos filmes. Este ano essa temática é as Artes, e o “seu papel na transformação social”.

E por isso é que a Mostra este ano exibe “tantos filmes que falam de escritoras e escritores que pertencem a minorias ou que lutaram contra a discriminação”, ou que nos transportam para a música, com artistas menos conhecidos, como o coletivo Bataclan, de Chelas, ou o Emicida, que vai estar no Rivoli a apresentar o seu filme “Amarelo”.

O SOS Racismo fez ainda “uma pequena chamada de trabalhos colaborativos para uma mostra que tem alguns posters no foyer, a que chamámos ativismo visuais”, avançou Joana. Ou seja, a MICAR este ano conta com trabalhos de ilustradores e designers, que também vieram enriquecer o caderno Micar, que é a publicação que acompanha a iniciativa.

“A arte tem um poder que outros meios não têm, chega a outras pessoas, a nichos”. A abertura da MICAR reflete isso mesmo: “Hoje vamos abrir com o White Riot e a ideia de que nos anos 70 o punk estava a lutar contra o racismo em Inglaterra. Isso é muito interessante”, enfatizou.

A ativista antirracista assinalou que, “embora exista a expressão artística oficial e dos Estados”, as expressões artísticas são “também das pessoas e das comunidades que as criam”.

Com a pandemia, a MICAR perdeu uma vertente que lhe é muito cara: “a articulação com as escolas”. Em 2020, e agora também em 2021, não foi possível dar continuidade à Micarzinha, dedicada aos filmes para crianças. Mas esta é uma vertente que o SOS Racismo e a Mostra, especificamente, continuarão a valorizar. “Esse trabalho nas escolas é importante”, não só no que respeita a trazer as crianças ao teatro como a “debater os filmes com elas na sala de aula antes ou depois dos filmes”, defendeu Joana.

O próprio formato da Mostra, e o facto de ser tudo feito com trabalho militante, não havendo uma estrutura, uma produtora por trás, representa alguns desafios no que respeita a “explorar outras vias”. Mas, para o ano, “talvez existam novidades nessa matéria, com mais espaços para o cinema no Porto”, adiantou a ativista do SOS Racismo. “E nós estamos a procurar ocupá-los também”, vincou.

Certo é que a MICAR já é crescidinha, contando em 2021 com a sua oitava edição: “Sentimos que esta Mostra já marca a cidade do Porto, e que já existem muitas pessoas, para além de nós, para além do movimento associativo, que sabem o que é a MICAR, e que sabem que acontece em outubro”.

E a afluência à sessão de abertura desta sexta-feira é reflexo da urgência de continuarmos a aprofundar o debate, e o combate, em torno do racismo estrutural e institucional que continua a grassar a nossa sociedade.

A MICAR – Mostra Internacional de Cinema Anti Racista é a única mostra de cinema do género em Portugal. O evento é promovido pelo SOS Racismo com apoio da Câmara Municipal do Porto e Teatro Municipal Rivoli e, ao longo das 8 edições consecutivas, com o suporte de diversos parceiros institucionais.

Durante os três dias do evento são exibidas obras cinematográficas que focam a temática do racismo, da imigração e das minorias étnicas; várias sessões são complementadas por um debate sobre o tema abordado, para o qual contam com alguns convidados especiais.

Todos os filmes e eventos têm entrada gratuita.

Programa da 8ª edição da MICAR – Mostra Internacional de Cinema Anti Racista:

Sexta-feira | 08 de outubro

Sessão de Abertura | 21:30 – White Riot | Rubika Shah | Reino Unido | 2019 | Documentário | 1h20 | M/12

Inclui apresentação da exposição “Activismos Visuais” por Luís Camanho e debate no final com David Pontes e Paula Guerra

Sábado, 09 de outubro

15:00 – Olhares sobre o Racismo | Bruno Moraes Cabral, Eddie Pipocas e Dércio Tomás Ferreira | Portugal | 2020 | Documentário | 31m | M/12

Inclui debate no final com a presença de José Falcão, Joseph da Silva e Piménio Ferreira

17:30 – The Circle | Lanre Malaolu | Reino Unido | 2019 | Curta | 15m | M/12

 Chelas Nha Kau | Bagabaga, Bataclan 1950 | Portugal| 2020| Documentário| 57m| M/12

Inclui debate no final com de elementos dos coletivos Bagabaga e Bataclan 1950

21:30 – AmarElo – É tudo pra ontem | Um filme de Emicida, dirigido por Fred Ouro Preto | Brasil | 2020 | Documentário | 1h29 | M/12

Inclui debate no final com Emicida

Domingo, 10 de outubro

15:00 – Edouard Glissant: One World in Relation | Manthia Diawara | EUA | 2010 | Documentário | 50m | M/12

Inclui debate no final com Marta Lança e Mamadou Ba

17:30 – Audre Lorde – os anos de Berlim 1984-1992 | Dagmar Schultz | Alemanha | 2012 | Documentário | 1h21 | M/12

Inclui debate no final com Gisela Casimiro

21:30 – Papusza | Joanna Kos-Krauze e Krzysztof Krauze | Polónia | 2013 | ficção | 2h11 | M/12

Sobre o/a autor(a)

Socióloga do Trabalho, especialista em Direito do Trabalho. Jornalista do Esquerda.net. Mestranda em História Contemporânea.
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