Extrema-direita

Assassinos de Alcindo no grupo que agrediu atores d’A Barraca

11 de junho 2025 - 23:10

Três dos condenados com penas mais pesadas pelo assassinato de Alcindo Monteiro no 10 de junho de 1995 integravam o grupo de neonazis que voltou a atacar passados 30 anos. 

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julgamento dos hammerskinks em Lisboa em 2022
Entrada do primeiro dia do julgamento dos hammerskinks em Lisboa em 2022. Foto Tiago Petinga/Lusa

A revista Sábado cita fontes policiais que colocam dois dos principais condenados no ataque neonazi que vitimou Alcindo Monteiro e deixou vários feridos no Bairro Alto no local do novo crime de ódio cometido em Lisboa exatamente 30 anos depois. Desta vez a vítima mais grave foi o ator Adérito Lopes, agredido quando entrava no Cinearte, no Largo de Santos, para atuar na última representação do espetáculo ‘Amor é um fogo que arde sem se ver’ no Teatro A Barraca.

Um dos apanhados nas imagens captadas após o ataque aos atores é João Martins, condenado a 17 anos e seis meses de prisão pelo homicídio de Alcindo Monteiro. O acórdão do Supremo Tribunal diz que Alcindo Monteiro já estava inanimado no chão quando João Martins “colocou um pé sobre a cabeça da vítima, levantando os braços em atitude de triunfo”. Apesar da gravidade do crime e da condenação pesada, o neonazi passou apenas nove anos e quatro meses na prisão, onde se licenciou em História.

Após a saída, prosseguiu a atividade nos círculos da extrema-direita, com a polícia a apontá-lo como um líder em ascensão. João Martins tem uma loja de piercings e tatuagens no Cacém, uma editora de extrema-direita e é colunista no jornal “Diabo”. Chegou mesmo a ver uma crónica contra a imigração publicada no Observador, que a retirou após protestos do movimento antirracista e antifascista. Em entrevista à Visão em 2019, dizia ter feito “um corte total com a delinquência e a criminalidade”. No ano seguinte, o Público noticiava a sua presença entre os convidados de um evento de artes marciais organizado em Atenas por neonazis europeus. É também um dos principais elementos da associação Portugueses Primeiro, criada em 2016.

O segundo neonazi condenado a 18 anos de prisão pelo assassinato de Alcindo Monteiro em 1995 é Nuno Themudo da Silva, que escapou a novas condenações em 2008 no processo da Frente Nacional e em 2010 no julgamento do gangue dos hammerskins que roubavam e sequestravam as vítimas que atraíam com negócios de venda de droga, ambos liderados por Mário Machado. Themudo também foi absolvido num caso de agressões no Chiado em 2007. Agora, apesar de o antigo skinhead e segurança da noite não aparecer nas imagens captadas por telemóvel, a polícia coloca-o no grupo que estava junto ao teatro A Barraca ao início da noite de terça-feira.

O jornal Público noticia a presença no grupo de um terceiro condenado pela morte de Alcindo Monteiro. Trata-se de Hugo Silva, o skinhead então condenado a 18 anos de prisão e que em 2001 aproveitou uma saída precária da prisão de Paços de Ferreira para fugir do país, sendo capturado na Bélgica, onde participava em atividades da extrema-direita, catorze meses depois. Hugo Silva pertence ao bando Blood & Honour, classificado como terrorista em vários países e cuja ameaça em Portugal constava do Relatório Anual de Segurança Interna de 2024, tendo sido retirado por razões ainda por explicar.

Entre as linhas de investigação policial está a hipótese de a agressão n’A Barraca ter sido feita como um ritual de iniciação para os novos membros do grupo. Segundo o Diário de Notícias, o autor da agressão que provocou cortes na cara do ator Adérito Lopes está associado ao Blood & Honour e tem 20 anos, pelo que não era ainda nascido na noite em que os seus acompanhantes espalharam o terror na noite de Lisboa.