A edição desta segunda-feira do Guardian traz mais pormenores sobre o bombardeamento de um resort no Sul do Líbano onde se encontravam vários jornalistas, numa zona longe dos alvos dos bombardeamentos israelitas e onde não se registavam quaisquer conflitos antes deste ataque. As duas bombas mataram os três jornalistas - dois operadores de câmara, Ghassan Najjar e Wissam Qassem, e um técnico, Mohammad Reda, que trabalhavam para duas estações televisivas consideradas próximas do Hezbollah - enquanto dormiam, tendo ferido outros três jornalistas nos alojamentos próximos do alvo atingido na madrugada de 25 de outubro.
“Tudo indica que se tratou de um ataque deliberado contra jornalistas: um crime de guerra. O sítio estava claramente identificado como um local onde se encontravam jornalistas”, afirmou Nadim Houry, advogado especializado em direitos humanos e diretor executivo da Arab Reform Initiative.
Na visita ao local, o diário britânico analisou os estilhaços encontrados no local, entrevistou o proprietário das instalações e outros jornalistas presentes na altura do ataque.
Logo após o bombardeamento, os militares israelitas anunciaram ter atingido uma infraestrutura militar do Hezbollah que alojava “terroristas”. Horas depois, quando foram conhecidas as identidades das vítimas, disseram que o ataque estava “sob análise”.
“Ghassan não era membro do Hezbollah, era jornalista. Nunca teve uma arma, nem sequer para caçar. A sua arma era a sua câmara”, disse a sua mulher ao Guardian. O jornal acrescenta que Wissam Qassem foi enterrado envolvido numa bandeira do Hezbollah, uma prática comum por parte das famílias que apoiam o grupo, e que só por si não prova que o operador de câmara dele fizesse parte.
Mas independentemente da filiação partidária, tornar jornalistas num alvo militar - desde que estes não participem em atividades militares - é uma prática que viola as leis internacionais.
“É uma tendência perigosa, já testemunhada em Gaza, o facto de os jornalistas estarem ligados a operações militares em virtude da sua presumível filiação ou inclinação política, tornando-se depois, aparentemente, alvos de ataque. Isto não é compatível com o direito internacional”, afirmou ao Guardian Janina Dill, codiretora do Oxford Institute for Ethics, Law and Armed Conflict.
As vítimas deste ataque tinham coberto nos meses anteriores as hostilidades entre o Hezbollah e as tropas israelitas na cidade de Ebl al-Saqi. Com a escalada dos ataques militares, a razão pela qual escolheram retirar-se para aquele resort considerado de luxo foi tratar-se de uma localidade de maioria drusa e sem ligações ao Hezbollah, para além de nunca ter sido alvo dos ataques de Israel, contou uma das jornalistas presentes na noite fatídica.
Israel
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Durante as semanas em que ali estiveram, relatam a presença constante de drones de vigilância israelita e o local de onde faziam as filmagens, no topo de uma colina, era visível a partir de três torres de vigilância israelitas situadas a cerca de 10 quilómetros.
Entre os destroços das bombas encontrados no local, foi possível confirmar a origem do míssil JDAM, produzido pela Boeing, e da secção interna de controlo, cujo número de série indica ter sido produzido pela Woodward, uma companhia sediada no estado do Colorado. Trata-se de uma bomba lançada com um sistema de alta precisão, o que permite concluir, a par da vigilância apertada a que o grupo foi sujeito, que aqueles três jornalistas eram o alvo do bombardeamento.
Desde 7 de outubro, Israel já matou seis jornalistas no Líbano e 129 em Gaza. Para Irene Khan, relatora especial da ONU para a promoção e proteção do direito à liberdade de expressão e opinião, esta reportagem do Guardian sobre o que aconteceu no sul do Líbano “coincide com o padrão de assassinatos e ataques das forças israelitas a jornalistas em Gaza. Os assassinatos seletivos, a desculpa de que os ataques foram dirigidos contra grupos armados sem fornecer qualquer prova para apoiar a alegação, a incapacidade de realizar investigações completas, tudo isso parece fazer parte de uma estratégia deliberada dos militares israelenses para silenciar reportagens críticas sobre a guerra e obstruir a documentação de possíveis crimes de guerra internacionais.”