Assassinato de três jornalistas no Líbano pode entrar na lista de crimes de guerra israelitas

26 de novembro 2024 - 14:10

Investigação do Guardian no local onde os jornalistas foram mortos durante o sono encontrou fragmentos da bomba fabricada nos EUA.

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Ghassan Najjar foi um dos jornalistas mortos no ataque de 25 de outubro.
Ghassan Najjar foi um dos jornalistas mortos no ataque de 25 de outubro. Foto: Sana Najjar

A edição desta segunda-feira do Guardian traz mais pormenores sobre o bombardeamento de um resort no Sul do Líbano onde se encontravam vários jornalistas, numa zona longe dos alvos dos bombardeamentos israelitas e onde não se registavam quaisquer conflitos antes deste ataque. As duas bombas mataram os três jornalistas - dois operadores de câmara, Ghassan Najjar e Wissam Qassem, e um técnico, Mohammad Reda, que trabalhavam para duas estações televisivas consideradas próximas do Hezbollah - enquanto dormiam, tendo ferido outros três jornalistas nos alojamentos próximos do alvo atingido na madrugada de 25 de outubro.

“Tudo indica que se tratou de um ataque deliberado contra jornalistas: um crime de guerra. O sítio estava claramente identificado como um local onde se encontravam jornalistas”, afirmou Nadim Houry, advogado especializado em direitos humanos e diretor executivo da Arab Reform Initiative.

Na visita ao local, o diário britânico analisou os estilhaços encontrados no local, entrevistou o proprietário das instalações e outros jornalistas presentes na altura do ataque.

Logo após o bombardeamento, os militares israelitas anunciaram ter atingido uma infraestrutura militar do Hezbollah que alojava “terroristas”. Horas depois, quando foram conhecidas as identidades das vítimas, disseram que o ataque estava “sob análise”.

“Ghassan não era membro do Hezbollah, era jornalista. Nunca teve uma arma, nem sequer para caçar. A sua arma era a sua câmara”, disse a sua mulher ao Guardian. O jornal acrescenta que Wissam Qassem foi enterrado envolvido numa bandeira do Hezbollah, uma prática comum por parte das famílias que apoiam o grupo, e que só por si não prova que o operador de câmara dele fizesse parte.

Mas independentemente da filiação partidária, tornar jornalistas num alvo militar - desde que estes não participem em atividades militares - é uma prática que viola as leis internacionais.

“É uma tendência perigosa, já testemunhada em Gaza, o facto de os jornalistas estarem ligados a operações militares em virtude da sua presumível filiação ou inclinação política, tornando-se depois, aparentemente, alvos de ataque. Isto não é compatível com o direito internacional”, afirmou ao Guardian Janina Dill, codiretora do Oxford Institute for Ethics, Law and Armed Conflict.

As vítimas deste ataque tinham coberto nos meses anteriores as hostilidades entre o Hezbollah e as tropas israelitas na cidade de Ebl al-Saqi. Com a escalada dos ataques militares, a razão pela qual escolheram retirar-se para aquele resort considerado de luxo foi tratar-se de uma localidade de maioria drusa e sem ligações ao Hezbollah, para além de nunca ter sido alvo dos ataques de Israel, contou uma das jornalistas presentes na noite fatídica.

Durante as semanas em que ali estiveram, relatam a presença constante de drones de vigilância israelita e o local de onde faziam as filmagens, no topo de uma colina, era visível a partir de três torres de vigilância israelitas situadas a cerca de 10 quilómetros.

Entre os destroços das bombas encontrados no local, foi possível confirmar a origem do míssil JDAM, produzido pela Boeing, e da secção interna de controlo, cujo número de série indica ter sido produzido pela Woodward, uma companhia sediada no estado do Colorado. Trata-se de uma bomba lançada com um sistema de alta precisão, o que permite concluir, a par da vigilância apertada a que o grupo foi sujeito, que aqueles três jornalistas eram o alvo do bombardeamento.

Desde 7 de outubro, Israel já matou seis jornalistas no Líbano e 129 em Gaza. Para Irene Khan, relatora especial da ONU para a promoção e proteção do direito à liberdade de expressão e opinião, esta reportagem do Guardian sobre o que aconteceu no sul do Líbano “coincide com o padrão de assassinatos e ataques das forças israelitas a jornalistas em Gaza. Os assassinatos seletivos, a desculpa de que os ataques foram dirigidos contra grupos armados sem fornecer qualquer prova para apoiar a alegação, a incapacidade de realizar investigações completas, tudo isso parece fazer parte de uma estratégia deliberada dos militares israelenses para silenciar reportagens críticas sobre a guerra e obstruir a documentação de possíveis crimes de guerra internacionais.”