Angola: moto-taxistas mobilizam-se contra a subida do preço da gasolina

15 de junho 2023 - 11:14

Há dezenas de presos e não se sabe quantas pessoas ficaram feridas na repressão policial dos protestos em Moçâmedes. Este sábado, há manifestação nacional contra a subida do preço dos combustíveis, o fim da venda ambulante e a nova lei das ONG.

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Manifestação em Huíla este fim de semana. Foto de Movimento Cívico Mudei - Angola/Facebook.
Manifestação em Huíla este fim de semana. Foto de Movimento Cívico Mudei - Angola/Facebook.

Não se sabe ao certo quantos moto-taxistas ficaram feridos na sequência de um protesto esta segunda-feira em Moçâmedes, província do Namibe, contra a subida do preço da gasolina em Angola. Dezenas de pessoas foram presas durante os protestos.

O governo angolano aumentou a 2 de junho o preço da gasolina para cerca do dobro, retirando parcialmente o subsídio estatal aos combustíveis. O litro deste combustível custava 160 kwanzas (0,25 euros) e passou a custar 300 kwanzas (0,48 euros).

De fora do aumento ficariam, supostamente, taxistas e moto-taxistas devidamente licenciados, que iriam receber cartões de acesso a um desconto. Só que os cartões ainda não chegaram.

Os taxistas decidiram não fazer greve, acreditando na promessa de que estes cartões chegariam em breve, mas os moto-taxistas daquela região decidiram sair às ruas e fazer greve a partir de segunda-feria.

A Deutsche Welle falou com um manifestante que diz que a polícia usou força excessiva: “A polícia só poderia intervir caso houvesse confusão, mas não houve confusão. A polícia veio e começou a disparar”. Houve também tiros e “um adolescente terá sido atingido por uma bala da polícia, relatou uma testemunha, que também pediu para não ser identificada, por medo de represálias”, escreve aquele órgão de comunicação social que acrescenta que esta pessoa disse que “parecia ser uma bala de borracha, mas o mesmo estava caído no chão e a jorrar sangue”.

A polícia confirma o lançamento de gás lacrimogéneo contra os manifestantes, acusando-os de “indisciplina” e de “algumas arruaças”, na versão do porta-voz do comando provincial do Namibe da Polícia Nacional, Ernesto Calianguila. A polícia informa a existência de “dezenas” de detidos por alegada vandalização de bens.

Cinco mortos nos protestos de dia 5 no Huambo

Este não é o primeiro protesto contra esta subida do preço da gasolina nem será o último. A Lusa refere que na semana passada tinham existido manifestações no Lubango (Huíla) e no Huambo, onde a polícia admitiu a existência de cinco mortos e oito feridos. No domingo, no Huíla voltaram a existir protestos.

Manifestações no fim de semana à escala nacional

Para o próximo sábado está marcada uma manifestação nacional, que junta ao protesto contra a subida do combustível, contra o fim da venda ambulante e a lei das Organizações Não-Governamentais. De acordo com organização, os protestos estender-se-ão pelo menos a treze províncias de Angola.

A Lusa cita o manifesto divulgado na página de Facebook do Movimento Cívico Mudei Angola que apela a manifestações pacíficas para combater as “injustiças”: “vamos à luta por todas e por todos, nas ruas, com buzinas, com cartazes, com música, com paz, mas firmes na defesa dos nossos direitos”.

Sobre os motivos do protesto, justifica-se escrevendo que que “as zungueiras [vendedoras ambulantes] estão impedidas de zungar, os taxistas não receberam a isenção anunciada ao aumento do preço da gasolina (o que terá efeitos na vida de todos nós), os professores e os médicos continuam sem ter resposta às suas reivindicações de muitos anos, os profissionais da comunicação social sofrem censura e outros tipos de pressão, os trabalhadores vão ser impedidos de exercitar o seu direito à greve e mesmo os polícias e agentes da autoridade recebem ordens que os colocam entre a espada e a parede, obrigados a violar o seu juramento de defender a legalidade e a democracia, por medo de perderem os empregos”.

Critica-se ainda o governo “que recorre à repressão e à violação explícita de direitos fundamentais quando as vozes cidadãs se fazem ouvir”.

E considera-se que o novo regulamento das Organizações Não Governamentais “para além de inconstitucional, vai reprimir, asfixiar e, eventualmente, extinguir as múltiplas organizações cívicas que, em Angola, trabalham onde o executivo se demite das suas responsabilidades e obrigações”.

Dito Dali, porta-voz do protesto e coordenador da Associação Laulenu, reforçou em conferência de imprensa, citada também pela DW, que a lei das ONG “além de ser antidemocrática, visa também controlar e manietar” o seu funcionamento e organização. O “regime quer criar agendas para as ONG o que não concordamos e vamos lutar até ao fim”.