Está aqui

Angola: Ativistas desaparecidos foram assassinados pelos serviços de segurança

Dois conhecidos ativistas angolanos, raptados após uma manifestação de ex-militares, foram assassinados pelo Serviço de Inteligência e de Segurança do Estado depois de terem sido torturados. O caso está a escandalizar o país e a colocar a nu o violento sistema repressivo do regime de José Eduardo dos Santos.
Foi tentando um acordo de cavalheiros a fim de se abafar o caso. Porém, a divulgação do escândalo pelo Club-K, detalhando o assassinato dos dois ativistas colocou o plano em causa. Foto: José Eduardo dos Santos, Presidente de Angola e do MPLA

Os ativistas Alves Kamulingue e Isaías Sebastião Cassule, raptados a 27 e 29 de maio do ano passado, no seguimento de uma manifestação de ex-militares, veteranos e desmobilizados, que exigiam a atualização do valor das suas pensões, foram executados pelos serviços de segurança angolanos segundo um documento a que o portal angolano Club-K teve acesso.

O documento revela a forma como as autoridades executaram os dois cidadãos e torna claro que o ex-militar Alves Kamulingue foi detido por volta das 14 horas, nas mediações no Hotel Skyna, por tropas da UGP - Unidade da Guarda Presidencial - e que o entregaram na esquadra da Polícia Nacional da Ingombota.

Alves Kamulingue ficou sob responsabilidade do chefe de departamento da investigação criminal daquele departamento, Manuel Miranda, também conhecido por “Chefe Miranda”.

Isaías Sebastião Cassule, conhecido ativista e organizador de protestos não compareceu nesta manifestação de antigos combatentes, mas é informado que o seu amigo Alves Kamulingue teria sido levado por militares. Em solidariedade, Cassule avança com contactos para fazer denúncias sobre a detenção do rapto e programa uma entrevista à Rádio Eclésia.

No dia 29 de Maio, Isaías Sebastião Cassule é atraído por um telefonema de alguém que se identifica por “Tunga” que lhe diz ter informações sobre o rapto de Kamulingue e que inclusive pretendia fazer-lhe chegar um suposto vídeo do amigo a ser levado. Ao anoitecer, Isaías Cassule e um amigo Alberto António dos Santos vão ter com o suposto “Tunga”.

Para ser mais facilmente identificado, o suposto “Tunga” apareceu vestido com uma camisola que dizia “32 é muito”, igual aos dos jovens revolucionários. Logo a seguir, cinco elementos cercam os dois ativistas. Isaías Cassule é raptado enquanto Alberto Santos escapa e denuncia como o amigo foi raptado.

Desde então, Alberto António dos Santos, ex-mecânico da UGP, tomou medidas de prevenção com medo de que pudesse ser alvo dos raptores. No dia 27 de Março do deste, encontrava-se num mercado em Luanda e através do seu telemóvel, elementos da DNIC - Direção Nacional de Investigação Criminal -, identificaram a sua localização e detêm-no por “participação no sequestro” de Isaías Cassule.

Nos interrogatórios é questionado sobre com quem terá desabafado acerca do rapto do amigo. No entanto, o chefe do Departamento de Crimes contra Pessoas da DNIC, Fernando Recheado, e o instrutor do processo, Armindo César, pediram a Alberto os Santos para dizer que um partido da oposição lhe deu dinheiro para sequestrar os próprios colegas. Fernando Recheado ameaçou-o de que se não dissesse que a UNITA tinha ordenado os sequestros, seria preso por muito tempo.

Alberto dos Santos foi posto em liberdade, em finais de Setembro, depois de passar mais de seis meses na comarca de Viana de Luanda, sem culpa formada.

Os assassinatos

Logo após ter sido detido, Isaías Sebastião Cassule, foi levado para a esquadra da polícia, mas terão sido elementos do aparelho de segurança que o terão ido buscar para ser transportado para outro local. Cassule foi brutamente espancado durante dois dias seguidos, acabando por morrer. O seu cadáver foi atirado ao rio Dande, na província de Bengo, precisamente, numa área onde há jacarés.

Um elemento conhecido por “Cheu”, tido como o homem de ligação com o gabinete do governador provincial de Luanda, Bento Francisco Bento terá confessado tudo sobre  Isaías Cassule e atribuiu as culpas aos elementos da delegação de Luanda, do Serviço de Inteligência e Segurança de Estado (SINSE).

Alves Kamulingue foi também alvo de “treinos”, expressão usadas pelos operacionais da DNIC, para definir torturas. O mesmo terá sido executado com um tiro na cabeça. Os disparos terão sido feitos por um oficial da esquadra da ingombotas, identificado “Kiko”, suposto sobrinho da Ministra do Ambiente, Fátima Jardim.

Autoridades angolanas tentaram abafar o caso

No seguimento de um interrogatório, o autor dos disparos revelou que apenas cumpriu ordens do seu superior, “Chefe Miranda”. Este por sua vez, ao ser interpelado referiu que também cumpriu supostas ordens do diretor provincial da investigação de Luanda (DPIC), António Pedro Amaro Neto, que entretanto foi ouvido na passada quarta-feira.

Com base nas revelações, a Direção Nacional de Investigação Criminal (DNIC), enviou para as referidas matas oficiais identificados por David, Benchimole, Jesus e Fernando Recheado, a fim de fazerem a reconstituição do crime.

 Estes encontraram as supostas ossadas de Alves Kamulingue, e levaram consigo as suas sapatilhas e roupa encontradas no local. As autoridades decidiram manter o assunto da descoberta como “top secret”, para evitar com que o tema viesse a público como execução.

Quando se sucederam as referidas mortes, o diretor-geral do SINSE, Sebastião José António Martins era também o ministro do Interior e encontrava-se fora do país, na sequência da autorização do Presidente José Eduardo dos Santos para dar seguimento a um tratamento de saúde.

Bento Francisco Bento, o governador de Luanda teria entretanto sido informado, sobre o que aconteceu, por intermédio de um elemento de ligação junto ao seu gabinete que participara na operação.

Ao regressar do exterior, Sebastião Martins tomou conhecimento do assunto. Mesmo assim, foi tentando um acordo de cavalheiros a fim de se abafar o caso. Porém, a divulgação do escândalo pelo Club-K, detalhando o assassinato dos dois ativistas colocou o plano em causa.

Assim, as autoridades através da Procuradoria-Geral da República viram-se obrigadas a sair a público e ordenar as detenções dos envolvidos no desaparecimento dos dois cidadãos.  Por seu lado, José Eduardo dos Santos exonerou Sebastião José António Martins de diretor do SINSE, nomeando para o seu lugar o seu adjunto Eduardo Filomeno Leiro Octávio.

Artigos relacionados: 

Termos relacionados Internacional
Comentários (1)