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Ameaças de morte estão a marcar a campanha das regionais madrilenas

A carta com uma faca aparentemente ensanguentada recebida esta segunda-feira pela ministra socialista da Indústria e a recusa da extrema-direita em condenar as anteriores ameaças aumentam a polarização para as eleições de 4 de maio.
Carta com ameaças e quatro balas enviadas para Pablo Iglesias
Carta com ameaças e quatro balas enviadas para Pablo Iglesias. Foto publicada na sua conta Twitter.

A região de Madrid vai a votos na próxima semana para escolher o parlamento e o governo regional que estará em funções até 2023, na sequência das eleições antecipadas convocadas pela atual presidente regional Isabel Diaz Ayuso, do PP.

Até há poucas semanas, Ayuso confiava que o seu golpe político - convocou eleições por temer que o Ciudadanos, à semelhança do que fez na região de Murcia, retirasse o apoio parlamentar ao seu governo - lhe garantiria uma reeleição mais folgada. Mas o clima político degradou-se rapidamente com uma sequência de ameaças de morte dirigidas a governantes do Podemos e do PSOE.

A carta com balas recebida por Pablo Iglesias, o vice-presidente do Governo que abandonou o cargo para entrar na corrida a Madrid e tentar recuperar a votação do Podemos na região - ultrapassado nas últimas eleições pelo Más Madrid, partido do fundador e dissidente do Podemos Iñigo Errejón - passou a dominar a campanha eleitoral a partir do momento em que a candidata do Vox se recusou a condenar a ameaça, endossando responsabilidades a Iglesias. Ante essa recusa, o ainda líder do Podemos abandonou o debate radiofónico entre candidatos e anunciou que não participaria em mais debates com a extrema-direita.

Quem passou a estar debaixo de críticas foi Díaz Ayuso, que ao contrário do líder do PP, Pablo Casado - que condenou explicitamente as ameaças “sem matizes e sem acrescentar nem uma palavra” -, optou por desvalorizá-las, ao dizer que todos os responsáveis políticos as recebem mas não vêm a público comentá-las. Ayuso aproveitou ainda para criticar o Governo central por não conseguir controlar a segurança das suas instalações, permitindo que os envelopes com objetos perigosos cheguem aos destinatários.

Depois de Pablo Iglesias, do ministro do Interior Fernando Grande-Marlaska e da diretora-geral da Guardia Civil, María Gámez, receberem cartas com ameaças contendo balas, esta segunda-feira foi a vez da ministra do Turismo, Comercio e Indústria, Reyes Maroto - que acabara de anunciar a sua disponibildiade para integrar o próximo governo madrileno em caso de vitória socialista - receber no seu gabinete um envelope contendo uma carta com ameaças e uma navalha aparentemente ensanguentada. A Polícia Nacional identificou um suspeito pelo envio e disse a imprensa ser um homem que sofre de problemas psiquiátricos.

Nas redes sociais, Iglesias voltou a insurgir-se na segunda-feira contra a manipulação e intoxicação da opinião pública feita a partir de programas televisivos matinais de grande audiência. Desta vez, a popular apresentadora Ana Rosa voltara a acusá-lo de, enquanto ministro, ser o responsável pela gestão dos lares e ter impedido que os idosos fossem transferidos para hospitais, quando essa responsabilidade pertencia a Diaz Ayuso, cujo governo regional detém essas competências. Foi essa mesma acusação falsa, repetida vezes sem conta nas tertúlias televisivas, que estava na carta com balas enviada a Iglesias.

Sondagem coloca maioria nas mãos do PP e Vox

Enquanto isso, o líder do Vox, Santiago Abascal, insiste que tudo isto “cheira a montagem” por parte do Podemos, enquanto aguarda que a polarização favoreça o seu partido, com o objetivo de se tornar indispensável à formação de uma maioria absoluta com o PP de Ayuso em Madrid.

A última sondagem publicada esta segunda-feira pelo jornal La Razón confirma esse cenário, ao colocar o PP a 9 lugares da maioria absoluta, com 60 deputados, e o Vox com 12. A soma da esquerda ficaria a 5 lugares da maioria, com o PSOE (33), Más Madrid (20) e Podemos (11), de acordo com esta sondagem que coloca o Ciudadanos fora do Parlamento, ao não alcançar a barreira mínima dos 5%. O inquérito foi feito depois do tempestuoso debate na Cadena Ser que acabou com a saída de Iglesias e em relação à semana anterior o bloco da direita perde um deputado (do PP) e o da esquerda ganha um (do Más Madrid, cuja candidata, Monica Garcia, tem sido apontada com a vencedora dos debates, depois de um mandato em que liderou a oposição a Diaz Ayuso no parlamento regional).

Pedro Sánchez diz que o Vox é “um perigo para a democracia”

A polémica em torno das ameaças veio descentrar o debate da gestão do PP na região, que dura desde 1995. O principal argumento à esquerda é o do perigo de um eventual governo de extrema-direita PP/VOX que institucionalize a política do ódio. O primeiro-ministro Pedro Sánchez apelou à mobilização dos socialistas na campanha e deu o exemplo no comício de domingo em Getafe, ao afirmar que o Vox é “um perigo para a democracia”.

Para Sánchez, as suspeitas lançadas pelo Vox sobre a veracidade das ameaças “mudam tudo”. “O Vox ultrapassou uma linha e esta será a última linha que cruza” se os democratas forem votar no dia 4, apelou o primeiro-ministro, por entre críticas à normalização da extrema-direita, referindo-se às tertúlias televisivas em que os seus representantes “espalham o veneno do ódio”. As críticas a Ayuso ficaram para o candidato socialista às regionais, Angel Gabilondo, criticando-a pela “equidistância e indiferença” quanto às ameaças. “É cumplicidade, o fascismo precisa de cúmplices”, acusou Gabilondo, antes de apontar o PP como uma “organização criminosa” pelos sucessivos escândalos de corrupção ao longo dos seus 26 anos de governo na região.

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