“Boom” da construção para turismo por um lado. Crise habitacional por outro. O eurodeputado José Gusmão e a distrital de Faro do Bloco de Esquerda foram este domingo a Vilamoura realçar a contradição gritante da monocultura do turismo que “não abre perspetivas nem para o Algarve nem para o país”.
O jornal Barlavento dá conta das posições do dirigente bloquista sobre o fenómeno. Gusmão diz que se “agrava uma contradição entre o que é o discurso oficial sobre a economia do Algarve e o que deveriam ser as prioridades das políticas públicas para a região, sem se tirar lições do passado”. Enquanto Governo, autarquias e Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional “afirmam que é necessário diversificar a economia e minorar a monocultura do turismo” não é isso que se vê no terreno.
O eurodeputado liga este “excesso de construção” ao financiamento das autarquias “que está desproporcionalmente dependente de receitas associadas ao Imposto Municipal Sobre as Transmissões Onerosas de Imóveis e ao Imposto Municipal sobre Imóveis”. O partido tem propostas para mudar a situação que está “a prejudicar as Câmaras que têm políticas urbanísticas responsáveis e a beneficiar as que deixam a construção avançar desenfreadamente, sem qualquer tipo de impedimento”.
Para além disso, a “especulação imobiliária puxa pelos preços das casas”. O Algarve, explica, já é a segunda região mais cara do país” e “durante os próximos anos é bem capaz de vir a ser a mais cara de Portugal”. E “apesar destes volumes astronómicos de construção, o problema da habitação não é resolvido”.
O modelo económico vigente é de um “turismo massificado e desqualificado”, de “salários baixíssimos, de dumping económico e social”, de investimento em “setores de baixíssimo valor acrescentado” que “não abre perspetivas nem para o Algarve nem para o país”.
Para além disso, trata-se de um “modelo de relacionamento subalterno do nosso país com outras economias da União Europeia”. Remete-se a região a exportar produtos agrícolas não transformados, a manter-se como uma “atividade industrial incipiente que não investe em fileiras produtivas de alto valor acrescentado e que mesmo na energia, onde existe um potencial extraordinário, exporta bens energéticos elementares”. E até o turismo, ”que poderia ser uma atividade orientada para segmentos mais interessantes e criadora de emprego mais qualificado, é promovido na sua versão mais pobre e mais desqualificada”.
Um dos cicerones desta iniciativa foi Tiago Grosso, dirigente local do partido e ex-candidato à Câmara Municipal de Loulé. Também ele denunciou ao mesmo jornal a construção massiva de casas que na “maior parte” “não estão nem serão habitadas”, o que fomenta “um território que serve apenas a especulação imobiliária” e “os interesses das grandes construtoras e dos fundos de investimento com aprovações sem visão global.
Ao passo que os resorts e construções de luxo rendem muito dinheiro à autarquia local, são “um grande problema para quem aqui vive porque a Câmara nunca vai resolver os trabalhos sazonais de baixos rendimentos, a falta de habitação para as pessoas nem a perda de acesso aos espaços públicos".
Critica ainda que os algarvios sejam afastados de algumas zonas balneares, como por exemplo a Praia da Rocha Baixinha, e que a concessão do estacionamento a privados em Vilamoura cobre no verão 70 cêntimos por cada quarto de hora.