Alexandre Alves Costa: Fidelidade e Revolução

07 de março 2024 - 22:13

Será que algum dia recuperaremos a palavra Revolução, como a folha em branco de que nos falava a Sophia, onde todos poderemos inscrever o nosso futuro, morto o inimigo que nos condiciona os comportamentos? Por Alexandre Alves Costa.

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Alexandre Alves Costa.
Alexandre Alves Costa no comício do Bloco no Porto. Foto de Ana Mendes

Intervenção no comício do Bloco no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, 2 de março de 2024.


Estou muito satisfeito com a esperança que todos se sintam bem nestas instalações do Alexandre Herculano que o meu atelier encontrou em ruina e que, talvez, tenha consolidado.

As minhas palavras, espero que contenham, em si, a explicação sobre a minha aceitação em vos falar hoje. Não farei nenhum discurso de propaganda eleitoral, para o qual nunca estive vocacionado, e sei que não foi para isso que me convidaram.

Estou aqui, camaradas, para saudar a minha família política, onde já me encontrava mesmo antes da fundação do Bloco, e para vos declarar a continuidade estrutural da minha fidelidade.

Claro que me alegra muito poder saudar a Marisa, a Mariana, o Zé e todos os presentes.

Eu não reduzo a fidelidade à rígida observância de compromissos, sempre circunstanciais, mas sim tomo-a, em movimento, como busca incessante da verdade, neste lugar de imperfeição, no terror de amar em sítio tão frágil como o mundo. Amar, apesar das ruínas e da morte de inocentes .

Este nosso compromisso, que desejo definitivo, de solidariedade para com os milhões de homens a quem sabiamente se inculcou o medo, a genuflexão e o servilismo e também para com os que lutam a partir da consciência de humilhados, tantas vezes em actos de violência organizada e esclarecida, manchando de sangue os seus próprios e mais queridos valores, este compromisso faz de mim membro de direito do Bloco, mesmo que possam aparecer algumas dissidências, não estruturais.

Neste encontro em que falarei pouco quero anunciar-vos que apesar das ruínas e da morte, a força dos nossos sonhos é tão forte que de tudo fará renascer a esperança e que nunca as nossas mãos ficarão vazias.

Nós, que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência, mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser, viajamos a reunir aqueles que estão reunidos por uma esperança, pela confiança no progresso das coisas, pela construção da paz. É por isso que em cada gesto pomos solenidade e risco, caminhando como quem é olhado, amado e conhecido.

E aqui estamos, juntos. Falamos para cobrir a distância. Gritamos a revolta contra a paisagem teimosa, este quebrar de vagas numa praia sob a qual repousam tantas gerações cansadas.

Apenas sei, digo de mim, que a fidelidade nunca me pediu uma ciência, uma estética, ou uma teoria. Pediu-me a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma verdade mais pura do que aquela que posso controlar.

Talvez por isso, por mais que a maldade estrangule a lucidez dos que vêem claro, por mais que tudo caia, acabe, se suspenda, não desesperarei da Humanidade, não desesperaremos da Humanidade.

A fidelidade pede-me uma intransigência sem lacuna, Pede-me que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas e, por mais que a Humanidade volte ao bando apavorado que os cães servis acossam, não desesperarei da Humanidade, não desesperaremos da Humanidade

A fidelidade é a minha convivência com as coisas, a minha participação no real, o meu encontro com as vozes e as imagens. E não falo de uma vida ideal mas sim de uma vida concreta, ressonância das ruas, das cidades, sombra dos muros, aparição dos rostos, silêncio, distância e brilho das estrelas, respiração da noite.

Com os olhos postos na terra devastada em nome da justiça, vendo os mortos, esperarei ainda e sempre, porque é no quadro sensível da fidelidade que vejo para onde vou, reconheço o meu caminho, o meu reino, a minha vida e continuarei a luta ininterrupta de espantos pelo dia a dia.

Eu sei. Sei que o homem novo continua por nascer, a sociedade nova por construir, sei que mais de mil crianças foram mortas em Gaza. Mas sei, também, que podem fazer o que quiserem, podem tornar-me anónimo, traidor ou prostituta que não desesperarei.

É verdade que a minha geração se sentia inventora/construtora de um mundo novo, aceitando a definição de Revolução que nas palavras do poema da Sophia é descobrimento, mundo recomeçado a partir da praia pura na busca de um país liberto, de uma vida limpa e de um tempo justo.

Sim, é verdade que acreditamos ser senhores do nosso destino porque, para lá de todas as amarguras nós somos uma geração que quer transformar o mundo.

Verificamos que deixamos de falar em revolução exatamente no momento em que, encerrado o nosso processo revolucionário, reconhecemos e nos comprometemos com o fatalismo inelutável do novo sistema da globalização capitalista e a sua inexorável capacidade de domínio do mundo através do poder absoluto do capital financeiro, exercido por  essa entidade quase metafísica dos mercados ditos reguladores que regulam as nossas vidas estando, de facto, a regular o desenvolvimento daquele capital financeiro, sem nenhuma legitimidade democrática.

Tanto o mercado como o capital financeiro são seres sem ser, ausentes de qualquer figuração que inclua ou se aproxime do humano e daí a sua espécie de transcendência a que nos vergamos sem alternativa.

A condição humana está assim reduzida a uma espécie de automatismo condicionado para, paradoxalmente, ser o alimento do próprio sistema que a oprime. De facto é difícil, hoje sobreviver sem umas blue jeans e sem uma  coca-cola.

E, na falta de dois, três ou muitos Vietnams, mantemos o Che Guevara nas t/shirts.

Não mundializamos a revolução e compramos o seu símbolo em qualquer feira de Custóias.

Este sistema opressor que, além do mais, condiciona os nossos comportamentos, tem a qualidade nunca antes atingida de nos colocar a todos numa plataforma tendencialmente unificadora, através dos novos meios de comunicação e de informação numa espécie de internacional, agora de subserviência acrítica e praticamente inconsciente.

É extraordinário como as conquistas do homem, aliás em crise, como o estado social ou até a liberdade, funcionam como uma espécie de chantagem para a sua neutralização.

Temos um caminho a percorrer pela esperança que não aceita a inevitável perda, que reponha a democracia e a liberdade, que das solidariedades locais passe, usando as armas do inimigo, para uma solidariedade global que não permita nunca o isolamento, digno de uma tragédia grega, ou da tragédia protagonizada em nome de todos os oprimidos pelo Povo Palestiniano.

Não encontro senão ténues sinais de alguma tentativa de retoma da soberania, de recuperação da democracia, de aprofundamento da fraternidade entre os povos.

Por vezes, nem sempre, parece-me que o discurso do Bloco se desloca para territórios que não são definitivamente os nossos.

Será que algum dia recuperaremos a palavra Revolução, como a folha em branco de que nos falava a Sophia, onde todos poderemos inscrever o nosso futuro, morto o inimigo que nos condiciona os comportamentos?

A língua, ou melhor a palavra, é uma extraordinária forma de representação dos conceitos e do seu significado mais profundo, por isso temos de recuperar a dignidade da palavra Revolução e retirá-la do pântano de arbitrariedades onde o inimigo a tentou afogar.

Entende-se que não desesperei da Humanidade e desejo  que todos se sintam e sejam inventores/construtores de um mundo novo.

Muito obrigado.


Intervenção no comício do Bloco no Liceu Alexandre Herculano, no Porto, 2 de março de 2024.